Uma revista bossa nova

Livros de Ruy Castro e Maria Amélia Mello recuperam a importância revolucionária da revista Senhor para a modernização da imprensa brasileira a partir da década de 1960.

Por Gonçalo Júnior
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Matéria publicada originalmente no Jornal da ABI 382, de setembro de 2012

Maria Amélia Mello era uma garotinha de seis anos de idade quando viu pela primeira vez um exemplar da revista Senhor, que seu pai acabara de comprar. Foi uma revelação para a família quando ela, com algum esforço, conseguiu juntar as letras e soletrar o nome S-e-n-h-o-r! Até então, parece, ninguém em casa tinha se dado conta de que a menina estava alfabetizada.

Leia a entrevista com o criador da revista Senhor, o jornalista Nahum Sirotsky.

Senhor era uma revista tão bonita que até uma criança parava para ver”, recorda Maria Amélia, mais de meio século depois, em entrevista ao Jornal da ABI. A proximidade com a publicação ia além do exemplar novo que “aparecia” a cada mês em sua casa. Só muito tempo depois, Maria Amélia descobriria que morava na mesma rua do QG da Senhor, a Santa Clara, em Copacabana, numa via que era muito importante para o Rio de Janeiro da época. A menina fez-se moça, tornou-se uma das mais importantes editoras de livros do País – há 22 anos comanda o catálogo da José Olympio Editora – e nunca deixou de usar o nome de Senhor em vão, como brinca ao recordar sua via-crucis para conseguir completar sua coleção de 59 números.

Um dia, enfim, descobriu numa arrumação de sua biblioteca que o desafio estava mais próximo de acabar do que pensara. Faltava uma edição apenas, de maio de 1962. Não sabia ela que num momento desses – dizem os colecionadores – o tormento e a angústia podem ser ainda maiores e a pessoa até cometer alguma loucura para completar sua coleção. Maria Amélia, então, lembrou-se do poeta e escritor Ferreira Gullar, amigo de décadas e cuja obra edita na José Olympio. Ele havia trabalhado na revista e, quem sabe, talvez tivesse guardado alguns números. Sim, Gullar disse que havia pouquíssimos na estante. E o que faltava à amiga estava no meio. Propôs comprar e levou o exemplar de presente. Ela foi imediatamente buscá-lo.

Mas a inquietação não acabou. Era preciso fazer algo para que as novas gerações conhecessem aquela maravilha de revista. “Quando vi o conjunto, a coleção completa na minha frente, comecei a pensar em fazer algo.” Como sabia que seu amigo Ruy Castro tinha também o mesmo tesouro, propôs a ele uma parceria: um livro com o melhor de Senhor. Empreitada aceita, ela passou cinco anos em busca de recursos para viabilizar um livro de luxo com textos de memórias e sobre sua importância histórica, além de uma seleção do que a revista publicou.

Até que a Imprensa Oficial de São Paulo comprou a idéia. Não só comprou, como o projeto cresceu e, em vez de apenas um livro, foram lançados dois volumes: O Melhor da Senhor e Uma Senhora Revista. Maria Amélia ficou responsável pela concepção e coordenação do projeto, enquanto Ruy cuidou de escolher os textos, fotos, ilustrações e cartuns. “Optamos por seguir a diagramação original, com o mesmo formato físico, inclusive usamos anúncios da época”, observa a editora. Um dos cuidados foi não repetir temas. “Muitas coisas, sem dúvida, envelheceram, principalmente ligadas à política e à economia daquele período”, explica. O resto, porém, continua atual, contemporâneo.

Ícone de uma época

Para ela, embora fosse ícone de uma época de ouro para o Rio de Janeiro – a publicação nasceu e existiu ao mesmo tempo que a Bossa Nova –, Senhor era uma revista nacional, brasileira em sua essência e seu conceito. “A elegância está muito presente ainda hoje em suas páginas e nós respeitamos isso nos dois volumes que resultaram da ideia”. Ela espera que O Melhor da Senhor tenha um efeito multiplicador, que surjam dissertações, teses e livros diversos sobre sua importância para a História do jornalismo brasileiro. “É algo possível que aconteça a partir de agora porque não se tem acesso fácil à coleção e esses dois volumes vão permitir isso”.

Não foi fácil concluir os volumes. Maria Amélia simplesmente foi atrás de autorização de todos os editores e colaboradores da revista; no caso de quem havia falecido, dos seus herdeiros. Todos os localizados, sem exceção, gentilmente, cederam os direitos para textos, fotos, desenhos, cartuns. “Eles se aliaram em volta deste sonho contagiante. Algumas pessoas, apesar de nosso empenho digno de detetive, não foram localizadas”, lamenta. Toda essa dificuldade, claro, pode ser explicada pelo tempo. “Não podemos esquecer que mais de cinco décadas já se foram desde o número um, que chegou às bancas em março de 1959. É natural não achar muitas pessoas, o tempo vai dispersando os amigos, modificando a arquitetura das cidades, espalhando outros sons, enferrujando as expectativas, imprimindo diferentes ritmos ao dia- a-dia, encurtando distâncias, tirando personalidades de cartaz, embranquecendo os acontecimentos, chegando mesmo a trocar de lugar a capital de um pais”, observa Maria Amélia na introdução do livro. “O tempo é poderoso, também senhor. Mas, o fio da memória, no entanto, costurou, palavra por palavra, um livro de verdade, contando as muitas historias da Senhor. Era o mínimo que se podia construir para materializar uma catedral de talentos.”

Quatro dos textos do volume Uma Senhora Revista são inéditos: os de Maria Amélia, Ruy Castro, Nahum Sirotsky e Luiz Lobo. Tanto trabalho deu à editora um conhecimento amplo do valor de Senhor, que ela não tinha antes de começar as duas edições. A partir dessa experiência, a coordenadora do projeto destaca a revista pelo seu perfil editorial arrojado, inovador, que antecipa, em muito, tudo o que se viria fazer depois no jornalismo brasileiro na década de 1960 – marcada por lançamentos históricos, desde o tabloide Pif-paf à revista masculina Fairplay e à informativa Realidade. “Talento do mais puro malte”, observa.

Com seu formato 23,5 X 31,5 cm, impresso com papel fosco, ilustrações belíssimas e muito rigor na seleção dos temas, artigos e reportagens, Senhor tinha, segundo Maria Amélia, “harmonia afinadíssima entre o texto e a arte gráfica, produzindo um resultado de excepcional qualidade. E novidade!”


Ruy, um entusiasta da revista, a descreve como uma espécie de realeza da imprensa brasileira, “com toda a nobiliarquia, as sucessões dinásticas e o cartório de mordomias, rapapés e fidalguias que fazem o cardápio da realeza. E, como esta, depois de um período de opulência e fartura, viu-se também em chinelos, com mais contas a pagar do que as armas e os brasões em seu escudo”.

Em entrevista, o escritor diz que, em sua opinião, a relevância de Senhor só aumentou com o passar das décadas. “Pela primeira vez, li a coleção inteira – 59 números, publicados de março de 1959 a janeiro de 1964 – e lamentei não ser uns cinco ou dez anos mais velho para ter feito parte daquela turma. Quem você imaginar de jornalista ou escritor importante naquele período passou pela Senhor”. Para se ter uma idéia, acrescenta, Clarice Lispector colaborava quase todo mês e boa parte de seu grande livro de contos Laços de Família foi escrito para a revista. “Guimarães Rosa telefonava todo mês para Nahum Sirotsky (leia entrevista com o criador da Senhor AQUI) e Paulo Francis, oferecendo colaboração. Aliás, Francis era o principal editor da revista, que era dirigida por Nahum. Depois, Senhor teve outros diretores, como Odylo Costa, filho, Reynaldo Jardim e Edeson Coelho, que nunca deixaram a peteca cair.”

No mundo da palavra

E o que envelheceu? Ruy destaca que, apesar das “incríveis bolações gráficas”, a cargo de gênios como Carlos Scliar, Glauco Rodrigues, Bea Feitler e Jaguar – “olha que timaço!” –, a revista tinha muito texto, composto em corpo oito e com entrelinhamento mínimo. “Para a época, isso era perfeitamente aceitável, porque vivíamos no mundo da palavra. Hoje daria dificuldade de leitura. Por isso, o diretor de arte de O melhor da Senhor, nosso grande Hélio de Almeida, adaptou a parte do texto ao olhar contemporâneo, sem prejuízo da cara gráfica da revista.” Em sua opinião, continua insuperável, vanguardista o visual, que ainda “é de fazer cair o queixo, graças àqueles artistas gráficos que a produziam”.

Ruy chama atenção para as facilidades dadas pela Imprensa Oficial para reproduzir “tal e qual” as ousadias de paginação, papel, cores etc., que o projeto exigiu. “Até os anúncios de Senhor eram criativos – e temos vários deles também, de produtos que não existem mais. Ou seja, como se não bastasse, o livro é uma verdadeira viagem no tempo, tanto para quem viveu como para quem não viveu aquela época”.

Para Ruy, não seria por falta de material que se faria um grande livro. “Imagine um único volume contendo Paulo Francis, Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Armando Nogueira, Carlos Drummond, Tom Jobim, Antônio Maria, Vinicius de Moraes, Cony, Marques Rebelo, Campos de Carvalho, Antônio Callado, Sartre, Dorothy Parker, Jorge Amado, Tinhorão, Otto Maria Carpeaux, Clarice Lispector, Rubem Braga, Scott Fitzgerald, Ferreira Gullar, Gláuber Rocha e muitos outros. Até Ibrahim Sued (risos) está lá.” Do que foi pouco repercutido depois, ele selecionou “uma sensacional pequena História do Brasil”, escrita por Graciliano Ramos, em dois artigos. O detalhe é que Graciliano morreu seis anos antes de a revista ser fundada.

O escritor conta que começou a ler Senhor aos 12 ou 13 anos, em 1960 ou 1961. “Ficava maravilhado com aquela, digamos, informalidade formal – os textos se dirigindo ao leitor como ‘o senhor’, como se fosse um papo entre duas pessoas que se respeitavam. Hoje sei que aquilo era coisa do Luiz Lobo, que também sempre admirei”. Quando Ruy começou a trabalhar profissionalmente, em 1967, Senhor acabara havia três anos. Mas se orgulha de pelo menos ter colaborado ou feito parte de alguns veículos que foram legítimos sucessores da revista: os vários “Livros de Cabeceira”, tanto o do homem quanto o da mulher, publicados pela Civilização Brasileira, de 1967 a 1969, e a fabulosa revista Diners, em 1968-1969, todos editados pelo Paulo Francis; e foi o último editor da Fairplay, revista masculina assassinada pela censura na ditadura militar.

Até os anúncios na revista Senhor eram mais criativos.

Em seu histórico, no volume Uma Senhora Revista, Ruy ressalta que Senhor foi a última de uma grande tradição de revistas românticas brasileiras. Anos depois, prossegue ele, as revistas mensais que a sucederam “trocaram sua superioridade majestática e seu olímpico desprezo pelos fatos por uma espécie de urgência republicana e um excessivo apego à atualidade”. O curioso é que, ao surgir, diz ele, nada podia parecer tão moderno e “de vanguarda” quanto Senhor. “Em pouco tempo, ela faria parte de uma nova estética que incluía Brasília, o concretismo, a Bossa Nova, a revolução gráfica do Jornal do Brasil, os anúncios da Volkswagen e do Banco Nacional, as capas dos discos da gravadora Elenco, os móveis de linhas retas – uma estética de formas claras, enxutas, essenciais.”

Curiosa é a descrição que ele faz do leitor imaginado ou idealizado para a revista e que dava um norte para o produto editorial criado por aquela geração brilhante de jornalistas e artistas gráficos: “O homem (e a mulher) a quem essa estética se dirigia era o adulto consciente, responsável e lúcido; em política, liberal e progressista; de preferência, solteiro (e, se casado, com uma mulher parecida com ele); próspero o suficiente para ter um carro novo e certas modernidades domésticas, como uma tv ou um estéreo, mas sem deslumbramentos; gourmet, viajado, à vontade em aviões; atento a novidades, mas sem muita pressa para adotá-las; bem-humorado, bem vestido, bebedor equilibrado; e, finalmente, leitor de livros, fã de João Gilberto e Tom Jobim e dos filmes italianos e franceses”. Era, acima de tudo, adulto – “eis a palavra (por isso, ele era um ‘senhor’, não um imaturo espremedor de espinhas). Ou tudo isso seria pedir muito de um brasileiro? Mas, se Senhor e aquela estética existiam, por que não esse leitor?”

Se o tempo costuma ser implacável em muitos casos, no de Senhor foi mais que justo. Continua a ressaltar sua importância revolucionária na História da imprensa brasileira, fruto de uma época em que a ferramenta digital do computador não existia e se montava revista a cola, tesoura e unha. A imaginação e a criatividade, portanto, reinavam soberanas, contra o tempo de hoje, em que designers e artistas gráficos são escravos dos programas de paginação. Basta folhear O Melhor de Senhor para verificar se é verdade ou não.

As charges do Jaguar

Bem antes de participar da criação do Pasquim, Jaguar já deixava seu traço inconfundível e seu senso de humor nas páginas da Senhor. (Clique nas imagens para ver a galeria ampliada)

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