Obra de Mia Couto é multifacetada como a cultura moçambicana

Mia Couto. Por Maique Martens, Flickr

Por Mário Moreira
Texto publicado originalmente no Jornal da ABI 391, de junho/julho de 2013

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Inovação lingüística, personagens populares, valorização das tradições de sua terra, crítica social e política. São muitas e marcantes as características da literatura de Mia Couto (leia entrevista com o autor aqui), de acordo com especialistas em sua obra consultados pelo Jornal da ABI.

Para o acadêmico, historiador e africanólogo Alberto da Costa e Silva, que participou do júri do Prêmio Camões deste ano, Mia Couto é um escritor com várias qualidades, que fizeram dele “um nome praticamente de consenso” entre os seis jurados – além dele próprio, participaram da escolha o brasileiro Alcir Pécora, os portugueses Clara Crabbé Rocha e José Carlos Vasconcelos, o angolano José Eduardo Agualusa e o moçambicano João Paulo Borges Coelho.

“Em primeiro lugar, Mia Couto é um mestre da linguagem. Ele conseguiu mostrar como funciona a variante do português falado em Moçambique, suas maneiras de falar e palavras, que enriquecem o patrimônio comum da língua portuguesa”, exalta o historiador. “É um autor interessantíssimo, que tem mostrado uma riqueza de concepções, enredos, situações e criação de personagens fora do comum.”

Para Costa e Silva, que foi embaixador na Nigéria e no Benin e prefaciou a edição brasileira de Terra Sonâmbula, primeiro romance de Mia Couto, o escritor também “traz um pouco da magia da África, essa visão especial que todos têm desse continente onde o real se mistura com o espiritual, onde os mortos continuam os vivos e os vivos continuam os mortos”.

Por fim, aponta o historiador, a obra do moçambicano se guia pelo sentimento de pluralidade. “O mundo é complexo, o comportamento das pessoas e as situações se modificam de uma hora para a outra. Como diz o próprio Mia Couto, cada homem é uma raça, cada um de nós é único. Mas ele também poderia ter dito que cada homem é todas as raças.”

Segundo Alberto da Costa e Silva, o litoral moçambicano foi, desde antes da era cristã, um lugar de troca de experiências e culturas muito intensa. “Por lá se encontraram abissínios, gregos, árabes, hindus, indonésios, negros, persas”, enumera. “Foi um local onde procuraram se abrigar os hereges de quase todas as religiões, porque era um território livre.”

A chegada dos portugueses no século 16, explica, só fez aumentar esse caldeirão cultural. “Ali o mundo se encontrou, o mundo movido pelo grande comércio. Mia Couto é fruto dessa mistura milenar, especialmente atento a essa multiplicidade.”

Ao mesmo tempo, destaca o historiador, o novo ganhador do Prêmio Camões consegue ser “profundamente africano”. “É um desses escritores em que as experiências do presente tomam forma mítica. O mundo dos antepassados é um mundo presente na mente de cada africano. Eles levam a carga de sua ancestralidade.”

Do ponto de vista lingüístico, analisa ele, Mia Couto, influenciado por Guimarães Rosa, “tentou, e continua tentando, ter uma expressão própria pessoal, na qual se reflita a maneira de ser moçambicana”. “Não é tanto inventar palavras, mas refazê-las, dar a elas outro sentido, que esteja profundamente ligado ao que quer dizer e contar. É um recurso que se torna necessário naquele momento.”

A professora Rita Chaves, da Universidade de São Paulo, especialista em literatura africana de língua portuguesa, concorda. “Mia Couto faz com as palavras um jogo bastante criativo e sedutor. E o mais interessante é que muitas vezes essa sedução esconde outras características mais profundas, como os problemas com que trabalha e os tipos de personagem.”

Rita – que organizou e vai lançar no Brasil em setembro o livro Mia Couto: Um Convite à Diferença (Editora Humanitas), coletânea de artigos de professores brasileiros, portugueses e moçambicanos, com a indicação de teses acadêmicas já defendidas sobre o escritor – vê influência “explícita” de Guimarães Rosa na escrita do moçambicano, mediada pelo angolano Luandino Vieira, outro inovador da língua e que, segundo ela, apresentou ao moçambicano a obra do autor mineiro. O próprio Luandino foi o escolhido para o Prêmio Camões em 2006, mas recusou a honraria.

Mia Couto não escreve, por exemplo, que o motor de um carro engasgou, mas que “nhenhenhou-se”. Nem que determinado personagem ficou abatido, mas que “cabisbaixou-se”. Ele também usa e abusa de termos inventados, como “nenhumarias” (assuntos irrelevantes) ou “pedinchorão” (para descrever um personagem ao mesmo tempo pidão e lamurioso). Segundo Rita Chaves, porém, o autor “vem depurando um pouco” esse recurso em seus livros mais recentes.

A importância do marginalizado
Em relação aos personagens, a professora destaca a importância do marginalizado na obra do escritor moçambicano. “Os protagonistas são crianças em situação de carência; ou mulheres, que ainda são vistas como marginais em todas as sociedades; ou velhos, que já foram figuras muito importantes nas sociedades africanas e hoje vivem uma situação de exclusão”, exemplifica.

Outra característica que aos poucos se acentua nos romances de Mia Couto, diz ela, é “o personagem errante, que se desloca nos espaços e vai vivenciando a experiência da perda”. São “deslocados”, no sentido próprio e figurado. De acordo com ela, a guerra de independência de Moçambique, que durou cerca de dez anos e só terminou em 1975, e os subseqüentes 16 anos de guerra civil obrigaram muitas pessoas a migrarem dentro do país, abandonando seus locais de origem e gerando nelas uma sensação de perda e orfandade. “Lá a terra também está ligada aos espíritos dos antepassados, é algo muito forte.”

Ainda segundo Rita Chaves, também vem ganhando relevo na obra de Mia Couto a crítica às elites moçambicanas, numa “indicação de que a utopia socialista não vingou” no país – na segunda metade da década de 1980, Moçambique acabou recorrendo ao Banco Mundial e ao FMI para tentar debelar sua crise econômica, e nos anos 1990, após a guerra civil, adotou o pluripartidarismo. “A diluição dessa utopia causou frustração no país, porque as elites que assumiram o poder ficaram fiéis a si mesmas e traíram o projeto socialista”, analisa ela. Mia Couto, diz, faz “uma crítica bastante forte à apropriação, pelas elites, da riqueza coletiva do país”.

Do ponto de vista estilístico, a professora acredita que o uso do termo realismo mágico para classificar a obra do autor moçambicano não pode ser descartado. A expressão é normalmente associada a alguns escritores latino-americanos, como o colombiano Gabriel García Márquez e o argentino Julio Cortázar. “Há alguma polêmica sobre isso, porque é um conceito que surgiu para definir um tipo de literatura em que as fronteiras entre o racional e o que está além são borradas. Na África, o que se percebe é que a morte está dentro da vida. Os espíritos existem e são determinantes na tomada de decisões pelos personagens, que costumam consultar os antepassados, sempre através de algum tipo de curandeiro. Falar em realismo mágico no caso de Mia Couto não é disparatado, porque ele é um homem de fronteira. Vem de uma família portuguesa que vivia num bairro na fronteira entre a cidade branca e a cidade negra, e ele próprio conta que ia muito à casa de vizinhos negros para ouvir as histórias deles.”

Segundo a professora, pode vir daí, desse ambiente misturado, multifacetado e algo caótico, a identificação do leitor brasileiro com Mia Couto. “Ele consegue articular dois planos: oferece o diferente, aquilo que nos faz pensar na sociedade moçambicana; e ao mesmo tempo cria essa identificação, mostra parte dessa realidade que nós conhecemos. Provoca uma sensação dupla: conhecer outra terra e encontrar um pouco da própria terra na mesma literatura.”

Já o acadêmico João Ubaldo Ribeiro, ganhador do Prêmio Camões em 2008, destaca na obra do colega moçambicano “a alta qualidade literária, não só dos romances como dos contos e dos ensaios”. “Bastaria, para consagrar qualquer escritor, um livro que é em si consagrado, Terra Sonâmbula’”, diz o escritor baiano.

Ubaldo enxerga em Mia Couto a influência de seu conterrâneo Jorge Amado. “É inegável que Jorge Amado tem alguma coisa a ver. Não proximamente, mas tem, porque de certa maneira todos nós, romancistas da língua portuguesa, temos alguma coisa a ver com ele, seja pela temática, seja pelas posições, seja pela narrativa, seja pelo apego a raízes populares. Jorge Amado é uma presença indiscutível. E na literatura africana mais ainda, desde o tempo em que Jorge era contrabandeado para as colônias portuguesas; era uma leitura proibida e cobiçada e de certa maneira uma literatura em que os povos colonizados que sofriam aquilo tudo queriam espelhar-se”, afirma Ubaldo, que também vê em Mia Couto “uma certa identidade” com Guimarães Rosa.

Embora tenha recebido o Prêmio Camões, entre outras razões, por sua literatura “especialmente densa das culturas portuguesa, africanas e dos habitantes originais do Brasil”, característica que estabelece elementos de contato com a obra de Mia Couto, o autor de O Sorriso do Lagarto refuta maiores similaridades. “Quer dizer, temos semelhanças por sermos, embora de países tão diferentes, ele lá no Oceano Índico e eu aqui no Atlântico Sul, do lado de cá, ambos de países colonizados, ambos herdamos a mesma língua, ambos partilhamos de preocupações com os destinos coletivos dos nossos povos, procuramos ter alguma participação como jornalistas e outras intervenções. Mas com a minha obra não vejo muita semelhança não.”

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