Tarzan eternamente

Por Gonçalo Júnior

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Tarzan, desenho de Hal Foster (página 211)
O maior herói da era contemporânea não tem superpoderes ou fantasias das mais esquisitas e de cores berrantes. Pelo contrário, anda quase nu e usa apenas uma tanga de couro rústico e uma faca para se defender de leões e crocodilos. Tarzan, O Homem-Macaco, criação do escritor americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950), completou 100 anos em 2012 como um personagem imbatível na história do entretenimento em todos os tempos. Somente de textos originais, rendeu 24 livros que continuam a ser reimpressos até hoje. E nada menos que 46 filmes em longa-metragem foram produzidos, sem contar as séries de TV, animações e milhares de páginas de histórias em quadrinhos.

O tempo passa, Tarzan some um pouco e reaparece a cada década em novos produtos. Sucesso garantido. Está na imaginação de gerações de pessoas, com seu jeitão de caipira ingênuo das matas – com a diferença de que precisa enfrentar leões, crocodilos e outros animais selvagens para sobreviver. Este ano, enquanto um novo filme para os cinemas começa a ser planejado, ele volta às livrarias brasileiras com o primeiro livro original, Tarzan – O Filho das Selvas, pela Zahar Editora, que promete outros volumes para breve.

É uma chance para as novas gerações terem contato com o texto original, a trama que deu origem ao personagem, cuja vida já foi recontada dezenas de vezes. Seus livros estavam fora de catálogo no País desde a década de 1970. O romance de aventura sai em edição comentada e ilustrada, com 40 desenhos de Hal Foster, de 1929, até hoje considerado um dos melhores quadrinistas do herói. A apresentação, tradução e notas são de Thiago Lins.

A obra conta a história do jovem filho de um casal de aristocratas ingleses, forçado a desembarcar na África, após um motim no navio em que viajavam. O filho dos dois acaba por nascer na selva africana e fica órfão com apenas um ano de idade. Sem sequer saber falar, o pequeno Lorde Greystoke é encontrado por uma gorila, que o adota como uma forma de compensar a perda recente de seu filhote. Ele passa a ser chamado de Tarzan (“Pele branca”, na linguagem dos macacos) e cresce saudável e se torna ágil, forte, poderoso guerreiro, líder de seu bando e rei da selva, como descreve o autor.

Tarzan, desenho de Hal Foster. (página 225)Sua vida segue o curso natural de perigos e desafios do mundo selvagem, mas muda radicalmente quando ele tem contato com os homens brancos civilizados, que fazem parte de uma expedição americana e vão lhe mostrar o instinto destrutivo de seus semelhantes. Dentre eles está a bela Jane, que encanta o herói bom selvagem.

Narrativa de encantamento
Burroughs era um mestre na narrativa de encantamento, sem rebuscamentos literários, mas eficiente e funcional, no sentido de prender o leitor e encantá-lo com muita ação e suspense. Sabia escrever em tom folhetinesco, com os recursos necessários para segurar quem lesse a primeira página até o fim do volume. Um exemplo disso aparece logo na abertura, onde ele situa a trama: “Em 1888, o jovem lorde Greystoke e sua esposa partiram de Dover em direção à África. Ele fora designado para investigar o suposto tratamento desleal dado aos súditos negros de uma colônia inglesa localizada na costa oeste africana. Lorde Greystoke nunca chegou a realizar a investigação — na realidade, não chegou sequer a seu destino”.

Sem pudores, mais preocupado em agradar os leitores das revistas baratas nas quais seu personagem apareceria, cria uma trama aparentemente de pouco romantismo, pelo menos no início, quando descreve a matança dos pais de Tarzan e a cruel situação em que fica seu bebê. Mas ele era, acima de tudo, um crédulo da idéia do homem como um ser puro e cheio de bondade que é deformado em seu caráter e em sua natureza pela sociedade industrializada e capitalista. Assim, cria uma trama irresistível em que a natureza funciona como um elemento harmonizador.

O autor se inspirou e compôs uma adaptação moderna da tradição mitológico-literária de heróis criados por animais. Como os irmãos italianos Rômulo e Remo, criados por lobos e que, posteriormente, fundaram a cidade de Roma. Também lembrava Mogli, o Menino Lobo, o jovem herói de O Livro da Selva, de Rudyard Kipling (1865-1935), que teve todos os animais como seus mestres na luta pela sobrevivência na selva. Na trama de Burroughs, ao encontrar os livros deixados por seus pais numa choupana, Tarzan, sozinho, aprende a ler e descobre seu lugar no mundo.

O personagem estreou na revista All-Story Magazine, em 1912, e foi publicado em formato de livro até 1947, três anos antes da morte de seu criador. O personagem apareceu em narrativas de outros escritores como Barton Werper, Fritz Leiber, Philip José Farmer.

No Brasil, começou a ser publicado em 1932, pela Editora Companhia Nacional, na Coleção Terramarear, com tradução de Medeiros e Albuquerque. Mas somente dezoito livros foram lançados, dentre eles destacaram-se As Feras de Tarzan; Tarzan na Selva; Tarzan, o Destemido; Tarzan – O Rei da Jangal; Tarzan e o Leão de Ouro e Tarzan e os Homens-Formigas. A editora publicou o personagem ao longo de 40 anos. Ao mesmo tempo, as revistas com suas histórias em quadrinhos, lançadas pela Editora Brasil-América (Ebal), entre as décadas de 1940 e 1970, fizeram tanto sucesso que tiveram oito séries, com quase 800 números.

Tarzan dos filmes
Coube ao cinema, porém, difundir o herói por todo o planeta e alimentar seu mito ao longo de todo o século 20. O primeiro Tarzan das telas foi interpretado pelo obscuro Elmo Lincoln (1889-1952), com seu jeito de canastrão, no filme Tarzan, O Homem Macaco ou Tarzan dos Macacos (Tarzan of the Apes), de 1918. Lincoln também estrelou o filme seguinte, O Romance de Tarzan ou Os Amores de Tarzan (The Romance of Tarzan, 1918) e o seriado As Aventuras de Tarzan (The Adventures of Tarzan), de 1921, que teve nada menos que quinze episódios, exibidos semanalmente nas salas. Na era muda foram produzidos quatro filmes e quatro seriados com o herói.

O primeiro Tarzan do cinema sonoro se tornou o mais famoso e é até hoje cultuado. Era interpretado pelo nadador e campeão olímpico americano Johnny Weissmuller, que encarnou o herói em doze longas nos estúdios da MGM e da RKO ao longo de duas décadas. O refinado lorde dos livros foi transformado por Weissmuller em um selvagem que conseguia apenas grunhir e emitir frases monossilábicas, segundo seus implacáveis críticos. Mesmo assim, o público adorava vê-lo enfrentando leões (adestrados) e jacarés (que pareciam dopados ou bonecos de couro sintético).

Se depender da receptividade logo no primeiro livro, serão muitos os relançamentos da Zahar. “É um dos grandes prazeres da literatura e, tenha você 12 ou 32 anos, só precisa de uma coisa para apreciá-lo: ser criança”, escreveu Ruy Castro, em resenha na Folha de S.Paulo. Ele lembrou que Burroughs criou o personagem sem nunca ter ido à África. “Tudo bem, Julio Verne também nunca foi ao centro da Terra, Ray Bradbury nunca foi a Marte e Kurt Vonnegut Jr. nunca foi a Titã, que, por sinal, não existia”. A África de Burroughs também não existia, até ele a ter criado, lembra o jornalista e escritor. “Na verdade, era apenas um cenário para seu personagem, este, sim, a decantação de uma série de mitos, lendas e outras criações literárias que Burroughs conhecia muito bem”. Ele leu Tarzan pela primeira vez aos seis anos, em 1954, na edição da Coleção Terramarear. “Foi o primeiro livro que comprei. E devo ter gostado, porque a ele se seguiram outros 19 livros da série. Livros estes que foram se perdendo pela vida, mas que, nos últimos 20 anos, dediquei-me a encontrar nos sebos, um a um, as mesmas edições, com seus irresistíveis títulos — Tarzan Triunfante, Tarzan, o Rei da Jangal, Tarzan e os Homens-Formigas —, as capas gloriosas, o papel amarelado e, até hoje, um cheiro familiar, de descoberta da vida.

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“Foi uma mulher primitiva a que, então, correu de braços abertos em direção ao homem primitivo que lutara por ela e a ganhara… E Tarzan tomou nos braços sua mulher e sufocou de beijos seus lábios arfantes e sequiosos.”

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