Radiografia musical

Duas obras indispensáveis sobre a produção da MPB nas décadas de 1970 e 1980 e os bastidores de reportagens sobre ícones musicais nos últimos 50 anos

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Por Gonçalo Júnior

bisbilhotgalax Talvez um certo desejo de vingança por orgulho ferido da parte de algum intérprete ou compositor fez que se difundisse a maldosa máxima de que todo crítico é um músico frustrado. Significa, portanto, que, quando escreve, esse jornalista costuma descontar suas frustrações em quem deu certo. A verdade é a crítica musical – como a literária, de artes plásticas ou cinematográfica – é fundamental. E tem por obrigação ter uma postura independente, além de um papel de equilíbrio na produção cultural, ao apontar erros, falhas e, claro, virtudes. Quando construtiva e bem intencionada, pode ser um retorno importante para aprimoramento ou reconhecido de algo que realmente vale a pena ser consagrado. Dois livros escritos por críticos musicais realçam essa importância e, principalmente, deixam a certeza de que um profissional assim não se faz da noite para o dia, precisa ter conhecimento profundo e vivência sobre o que faz.

São dois títulos que já nascem como fontes de referência importantíssimas pelo seus valores histórico e documental: Pavões Misteriosos – 1973-1984: A Explosão da Música Pop no Brasil (Editora Três Estrelas), de André Barcinski; e O Bisbilhoteiro das Galáxias – No Lado B da Cultura Pop, de Jotabê Medeiros (Lazuli Editora). Críticos de dois grandes jornais brasileiros – Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo, respectivamente –, os autores dão, a seu modo, duas aulas de jornalismo cultural para inspirar e servir de fonte para quem quer seguir na carreira ou estuda/pesquisa música.

Ainda atuantes e respeitados resenhistas, eles preservam em seus textos o entusiasmo necessário e sem ranço para mapear novidades e destacar tendências. Nesses livros, no entanto, eles vão adiante. Evidenciam sua paixão incondicional pela música.

Um precioso documento histórico
O volume escrito por Barcinski é, antes de tudo, um bom exemplo de jornalismo musical. Depois, um precioso documento histórico, de conteúdo quase totalmente inédito, sobre a ampla produção nacional mais voltada para o popular e desprezada ou tratada de modo preconceituoso por críticos e estudiosos. A partir de mais de 60 entrevistas tanto com artistas famosos quanto com nomes imprescindíveis dos bastidores, entre músicos, compositores e produtores, ele faz revelações surpreendentes a resepito da chamada musica pop brasileira, que impulsionou o mercado de venda de discos como nunca se vira até então, entre a segunda metade da década de 1970 e até o começo dos anos de 1980.
Nessa época, diversos gêneros moldaram o setor, segundo expressões cunhadas pelo autor: a MPB inovadora dos Secos & Molhados (acima) e a salada musical roqueira de Raul Seixas, a ascensão da música brega, a fabricação de astros meteóricos da discoteca, a invenção infantil do Balão Mágico e de Xuxa e o nascimento do rock nacional com a Blitz. Barcinski explica, em detalhes, como as trilhas sonoras das telenovelas da Rede Globo foram fundamentais para direcionar as vendas a partir de interesses comerciais da emissora e de sua gravadora, a Som Livre.

Seu ponto de partida foi mostrar como, em meados dos anos 1970, a música popular brasileira viveu uma de suas mais radicais transformações. Segundo ele, existiu um heterogêneo grupo de artistas que ousou se desviar da tradição da MPB, instituída pela crítica como referência de valor, para abraçar a música pop, capaz de alcançar grandes massas. Fizeram isso impulsionados pela crescente internacionalização da cultura jovem, pela modernização da indústria do disco e pela expansão maciça da TV no país – quando o número de aparelhos triplicou entre 1970 e 1980.

Para Barcinski, a nova cena musical que se impôs na primeira metade da década foi dominada por uma série de experimentações inéditas, como o glam tupiniquim dos Secos & Molhados, a psicodelia pós-tropicalista dos Novos Baianos, o rock esotérico de Raul Seixas e o pop confessional de Guilherme Arantes. Nos cinco anos seguintes, surgiram as Frenéticas e Sidney Magal, a reinvenção de Rita Lee e a explosão do cantor inglês Ritchie. Nesse período, outro marco foi a febre da discoteca e de um fenômeno novo por sua larga escala: a fabricação de ídolos pelas gravadoras e a adesão de parte dos compositores da MPB “clássica” ao pop – mais comercial – e ao mercado.

Quem acompanha o trabalho de Barcinski e seu estilo pouco convencional e sincero de expor suas opiniões – chegou a ter um programa de rádio em que quebrava discos considerados ruins no estúdio – vai perceber que ele se reinventou como crítico – e, agora, historiador – nesse livro. Longe de preconceitos ou paixões pessoais, ele trata gêneros e artistas com muita dignidade, ao mesmo tempo em que faz uma arqueologia da música popular, com colocações ponderadas e bem fundamentadas. O modo sutil como trata as artimanhas, as picaretagens e as fraudes para se vender mais discos a qualquer custo faz a diferença e deixa a leitura saborosa, irresistível. É um livro impossível de se largar até a última página. E quem se aventurar, não vai se arrepender. A quantidade de histórias deliciosas que ele levantou, e quase totalmente desconhecidas até mesmo do fã, é impressionante. Assim, sabe-se como surgiram cantores como Belchior, Fagner, Fafá de Belém, Lilian, Gretchen – é inacreditável a história em que ela e duas irmãs foram chamadas às pressas para se passarem por um trio de vozes femininas montado em estúdio, após o Fantástico se interessar em fazer o clipe do mesmo.

Uma das passagens mais interessantes é quando Barcinski conta a história da desconhecidíssima banda paulistana Os Carbonos, formada por cinco integrantes – três deles irmãos – e mestre em fazer covers a ponto de imitar vozes de celebridades e, o mais incrível, pode ter gravado em estúdio os arranjos para mais de 50 mil músicas ao longo de trinta anos. Eles eram muito requisitados para coletâneas falsas que as gravadoras criavam para ludibriar os consumidores, que pensavam, muitas vezes, tratar-se de artistas originais. “Os Carbonos impressionavam pela versatilidade. Eram capazes de gravar rock, samba, sertanejo ou forró, imitando com perfeição os timbres característicos de cada estilo e sem que nenhum deles soasse falso”, observa o autor. A banda também era muito requisitada para arranjos de grandes cantores. O produtor e radialista Sossego, apelido de Carlos Alberto Lopes, assina embaixo: “Não houve em São Paulo uma banda de estúdio tão boa quanto Os Carbonos; eles eram os melhores, os mais profissionais e os mais requisitados”.

Dentre as histórias sob suspeita de serem sujas dos bastidores da música contadas por Barcinski, uma chama a atenção, em especial: a de Ritchie, que explodiu no país em 1983 com a música Menina Veneno. Despois de vender 1,2 milhão de LPs, o artista assinou contrato para lançar mais três discos pela CBS, também gravadora de Roberto Carlos, mas coisas estranhas começaram a acontecer e o selo o dispensou antes do final do acordo. O segundo disco caiu para apenas 100 mil cópias vendidas; e o terceiro, 60 mil e praticamente não teve divulgação. Até o dia em que o cantor leu uma entrevista de Tim Maia à revista Istoé, em que ele afirmou que o “Rei” havia “puxado o tapete” de Ritchie. “Eu não podia acreditar, Roberto sempre foi generoso comigo, sempre fez questão de me receber no camarim dele”, observou o artista. Verdade ou não, anos depois, quando fazia um show em Angra dos Reis, o cantor foi procurado por um radialista local, que lhe disse: “Há anos quero te contar isso: quando você lançou A Mulher Invisível (segundo disco), aconteceu algo que eu nunca tinha presenciado em mais de 30 anos de carreira no rádio: eu ganhei um jabá (um presente) de sua própria gravadora para não tocar a sua música!”

Uma questão de sorte
Diz o ditado que se a pessoa não for ao encontro da sorte ela nunca dará as caras. Com jornalistas costuma acontecer algo parecido: quem muito procura acha alguma coisa: às vezes prata, ouro ou diamante. Portanto, não é correto dizer que um furo é uma questão de sorte. Em seu primeiro livro, Jotabê Medeiros consagra a sabedoria das ruas. Ao longo de 46 capítulos – e personagens – ele recorda as mais incríveis experiências que vivenciou como repórter e crítico de música, principalmente. São histórias que ele jamais revelou em suas reportagens e resenhas, vividas no dia-a-dia do trabalho. Com o currículo formado ao longo de 25 anos de jornalismo cultural, Jotabê já entrevistou, como ele mesmo brinca, dois Rolling Stones, dois Beatles, dois Zeppelins, dois Velvet Underground, um Neil Young, um Santana e muitos nomes do primeiro time da música pop internacional, além de algumas celebridades brasileiras.

Mesmo nas mais inusitadas situações, o jornalista se acostumou a levar uma prática e funcional máquina fotográfica, segundo ele, sem nenhuma ambição profissional. A princípio, as fotos serviram de um guia para circunscrever os eventos que ele testemunhava. Depois, ganhou outra função: provar o inusitado. Ou seja, flagrantes do cotidiano de nomes como Iggy Pop, Bob Dylan, Bruce Springsteen, Zé Ramalho, Led Zeppelin e muitos outros.

“Sonhei que as fotos me serviriam um pouco como guia, algo que ajudasse s circunscrever aqueles eventos e acontecimentos que eu testemunhava”, explica ele. Jotabê pretendia dar àquilo tudo “uma espécie de invólucro humanístico, uma chave para o cotidiano, para o palpável. Mas também comecei a fotografar porque notara que uma coisa do tipo cabalística estava acontecendo comigo, com muita frequência”. Em 1998, por exemplo, ele saiu em busca de algo para comer no lounge do Jockey Club (São Paulo) e “trombrou” com os alemães Ralf Hünter e Florian Schneider, fundadores do grupo Kraftwerk. “Eles estavam trocando ideias com o pessoal que flanava por ali”.Em 2005, na cidade de Nova York, Jotabê se deparou por acaso com Chico Buarque e o escritor Salman Rushdie saindo do seu hotel para um encontro de escritores na New York Public Library. Em uma tarde de 2009, encontrou Van Morrison comendo sanduiche em um festival. E teve uma noite, no Rio de Janeiro, em que chegou antes de Mick Jagger para um jantar em um restaurante. Nenhum desses casos está contado no livro, só na apresentação. Não faz mal. O que ele escolheu para narrar compensa.

“Em geral, nessas situações, eu nunca estava à procura de ninguém. Era apenas uma brincadeira do destino: o Zé Ninguém encontra o Fulano Superfamoso. Em outros, eram momentos quase profissionais nos quais ele, após um show ou uma entrevista, como repórter da área de cultura, ficava ali a observar as personalidades relaxando em alguma situação comum. “Minha condição de anonimato me dava um saudável habeas corpus para bisbilhotar”. O autor conta que havia um inconveniente nesses encontros fortuitos: pareciam invenção de uma mente mitômana. “Teve uma época em que temi passar para a história da minha família como um cascateiro invorrigível. Imaginei minhas irmãs fazendo bullyng comigo”.

O Bisbilhoteiro das Galáxias, portanto, não é uma coletânea de textos publicados anteriormente na imprensa. É uma espécie de bastidores ou making of. Muitas das crônicas aconteceram em passagens dos artistas pelo Brasil, outras no exterior. O autor foi testemunha da explosão de fúria da banda Suicidal Tendencies na Avenida São João, quando o vocalista se viu acuado e sua expressão facial foi registrada pela lente do jornalista-fotógrafo amador. Sua artimanha para chegar à área vip do funeral de Michael Jackson no Staples Center, em Los Angeles, é impagável. Se conta histórias marcadas pelo humor, Jotabê ensina muito a quem quer aprender jornalismo musical.

“Nunca demonizei o show business, embora sempre possuísse a consciência de que é um mundo manipulador, mercantilista, capaz de reciclar clichês com uma habilidade espantosa – e cinismo constrangedor.  Muitas vezes, é um universo carente, delirante, messiânico. Mas há também uma riqueza nesse meio, uma busca autêntica de liberdade e de expressão; pedras brutas a serem garimpadas com peneiras de critério e paixão”. O jornalismo cultural que deriva desse mundo pop é, em geral, prossegue ele, “subserviente, acrítico, alienado da realidade”. Acossado pela indústria cultural, pelas assessorias de imprensa, explica o autor, o jornalista deixa-se arrastar por uma enxurrada de “prioridades” de mercado. “Por consequência, os textos, no território vaporoso da notícia fabricada, esfarelam-se, viram pó: perdem-se em meio a um emaranhado de códigos de barra”.

O autor explica que sempre teve por princípio que sua presença ali, como jornalista à deriva no ramo pop, poderia ajudar a desvendar, desmontar tretas, desarrumar tramoias, evidenciar futricas, farejar o novo e descrever o teatro que há em torno dessa existência, muitas vezes, fugaz. “Fazer um texto com a ilusão da permanência, uma peça que se rebele contra sua própria condição. É o que tenho buscado nesses 25 anos de trabalho. Perfis, memórias dos encontros, impressões e contextos de cada momento na vida do artista. São textos saborosíssimos, suscintos, escritos como se fosse com sangue, em que aparecem nas entrelinhas um grande amor pela música e seus personagens. Por outro lado, Jotabê é equilibrado, sem cair na tietagem exacerbada ou na crítica pedante, na observação ácida. Ele sabe perdoar as falhas, os deslizes, os egos inflamados, para olhar de modo generoso para todos eles e lhes estrair elementos que justificam sua genialidade. É quase poético com Patti Smith e comprensivo com os membros do Led Zepelin, sempre tão impacientes com a imprensa.

Jotabê acompanhou a surreal viagem de Roberto Carlos a Jerusalém e ao Muro das Lamentações. Sobre Iggy Pop, recorda que, em 2008, três anos depois daquele show histórico na Chácara do Jockey, ele e alguns amigos de profissão esperavam um voo para Copenhagen (Dinamarca) em Paris, no aeroporto Charles de Gaulle. Iam para Roskilde Festival. “Não havia muito o que fazer e aquilo duraria duas horas. Andei para lá e para cá pelo aeorporto recolhendo exemplares antigos dos jornais Le Figaro, Le Monde, Liberation. Foi quando vi iggy Pop candidamente sentado de chinelo e meia. ‘Iggy Pop de chinelo e meia? Tá zoando?’, pensei. Ninguém acreditou, nem mesmo eu, no que eu dizia. Resolvi tirar a limpo. Sentei ao lado dele”.

O suspense marca a história sobre o encontro com Bob Dylan na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, no Rio. Era domingo, 12 de abril de 2012. “Eu acordaria naquela manhã com essa decisão firme. Um impulso irracional me impelia a buscar por ele quixotescamente pela orla do Rio de Janeiro”. A estratégia era tão obvia quanto destinada ao fracasso: ele o buscaria dando um giro pelos hotéis  mais estrelados do Rio. “Mas hoteis estrelados não combinavam com meu orçamento. Graças ao alerta de uma senhora, ele o encontrou na rua com um disfarce no mínimo esquisito, que lembra filmes pastelões. “Trinta e quatro graus na sombra, e Dylan de casaco, gorro de lã e bota de cowboy. Achamos que ele se disfarçaria melhor se saísse de sunga branca e fone de ipod nos ouvidos”.

Jotabê faz descrições precisas e emocionantes de seus ídolos. Ou ousadas: Mano Chau “sabe mais sobre política sul-americana do que 90% dos analistas brasileiros de política sul-americana, que detestam a região”. Há em seus relatos muitos de percepção única. “Sempre achei o Led Zeppelin chique. Principalmente, chique. Os caras que sabem viver, não são novos ricos, nem ostentam. O sarcasmo é chique, o ar blasé é chique, a música é chique. Mick Jagger sempre foi um tanto deslumbrado, afinal tem ilha no Caribe, vai comer no Antiquarius – coisas desse tipo”. Para ele, Patti Smith “canta com fúria, esgrime o ar, ergue as mãos, cerra os punhos, berra. Quando termina, olha para a plateia com um sorriso beatífico, como se estivesse aliviada de escapar da própria desintegração. Seu discurso político é simples. “O que as corporações mais temem é quando estamos juntos. Se soubermos usar isso, seremos invencíveis”. Sobre o último show bom de Amy Winehouse, no Rock in Rio Madri, ele observou: “Amy: Quando ela finalmente apareceu, relatei que parecia uma taça de cristal esquecida na beirada de um balcão de pub – e que poderia se espatifar a qualquer momento”.
Há ótimos perfis, marcados pela emoção, como os de Steve Wonder (acima) e Arnaldo Batista – talvez o melhor de todo o livro. Nesse caso, ele fez um texto generoso, apaixonado e apaixonante, marcado por um profundo sentimento de humanidade e paixão pela música. “O público o entendia perfeitamente e Arnaldo entendia perfeitamente que não estava ali em forma – era o que sobrara dele que estava ali. Arnaldo estava com 63 anos e o entusiasmo de uma criança”. Mais adiante, acrescentou: “Arnaldo impressionava pelo que trazia de verdade àquela plateia. Havia muito tempo que eu não ficava tão feliz em um show. A cidade se revezando entre visitantes de um mundo plástico, como Justin Bieber e Rihanna, e um cara desse porte, que faz seu show na fronteira de um mundo alucinado, trazendo imagens e emoções que nos desacostumamos a enfrentar. Talvez seja por isso que pop stars do mundo todo tenham começado sua saga de conquista planetária ao ouvir o som de Arnaldo Baptista”.

Assista abaixo ao vídeo com depoimento do jornalista Jotabê Medeiros na época da exposição de fotos do livro O Bisbilhoteiro das Galáxias.

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