Ana Arruda Callado

Uma mulher de sorte

Entrevista a Paulo Chico e Francisco Ucha – Fotos de José Duayer
Publicada no Jornal da ABI em março de 2013.

Em que momento você descobriu sua vocação ou o interesse pelo jornalismo?
Eu não sei se já sabia que ia fazer essa escolha, mas quando eu tinha uns treze ou catorze anos fiz um jornalzinho para a minha família chamado Repórter 1907 – que era o número do apartamento em que nós morávamos na Rua Senador Vergueiro, 19º andar, 1907. Eu não fazia sozinha não. Na realidade, eu inventei, a iniciativa era minha. Era escrito à mão, naturalmente, e só tinha um exemplar. E era praticamente uma gozação com os irmãos, pois nós éramos uma família tão grande que dava para fazer um jornal. (risos)

Quantos irmãos?
Meus pais tiveram e criaram quinze filhos. Eu sou a décima-segunda. De forma que fazíamos esse jornal, Repórter 1907. E depois, aí sim, eu comecei a pensar em fazer jornal. Eu era da Ação Católica. Então, havia aqueles encontros que foram muito importantes num dado momento no Brasil. Nós éramos intelectuais da Igreja. E Cícero Sandroni fazia um jornalzinho chamado Roteiro da Juventude. Toda vez que o encontro na Academia, ele fala: “Ana, é muita pretensão fazer um jornal chamado Roteiro da Juventude”. Ele era o diretor e eu fui ser a repórter. Aí, certo dia o Cícero me pediu para ir acompanhar a finalização do jornal, que estava na oficina da Última Hora. Ele não podia ir e lá fui eu para a Última Hora. Olha… eu senti uma alegria! Era para fazer a revisão final; para dizer “ok, pode rodar”! Gente! Naquele dia eu tive uma alegria! Ver uma oficina de jornal. Ver o jornal rodando. Naquele dia eu vi mais operários, mais gráficos do que jornalistas… mas, de qualquer maneira, era gente que fazia jornal! Nesse dia, quando voltei para casa, disse: “É esse o ambiente que eu quero!”

Que idade você tinha nessa época?
Eu não tinha entrado na faculdade. Entrei na faculdade com 17 anos, então tinha uns quinze, dezesseis… E aí foi. Entrei para a faculdade, fui fazer Jornalismo. E duas pessoas quase morreram de desgosto: o meu pai e minha professora de Matemática.

Dona Eleonora, lamento, mas eu não quero ser matemática, não quero ser
engenheira, não quero ser professora de Matemática, eu quero ser jor-na-lis-ta!

Como seus pais receberam essa notícia? Afinal não havia muitas mulheres na profissão…
É, não havia mulher. Mas tinha uma coisa, eu era boa aluna, fiz científico porque minha paixão era Ciências Exatas, tanto que eu era aluna exemplar em Matemática e Física. Quando eu disse: “Vou fazer Jornalismo”, meu pai ficou muito irritado! Minha mãe aceitava, minha mãe compreendia tudo, mas meu pai… meu pai era um democrata, mas ele me disse assim: “Essa menina! Jornalista é para quem não dá pra mais nada!” (risos) Já a minha professora de Matemática chamava-se Dona Eleonora. E ela ficou muito zangada! “Tendo tanto talento matemático, que loucura é essa de jornalismo?” Eu disse: “Dona Eleonora, lamento, mas eu não quero ser matemática, não quero ser engenheira, não quero ser professora de Matemática, eu quero ser jor-na-lis-ta!”

Apesar desses apelos, você nunca titubeou?
Não… Eu sempre fiz o que queria. É curioso isso, minhas irmãs mais velhas se queixavam porque meus pais implicavam com o namoro, essas coisas… Mas, comigo, não lembro de repressão por parte de meus pais. Quando eles chegaram na décima segunda, já estavam cansados… (risos) Então, entrei na faculdade, e lá tive um crescimento enorme. Eu sempre digo que o curso não valia muita coisa, mas tinha professores muito interessantes! E a faculdade me formou, principalmente, para eu poder entrar numa Redação de jornal. Porque, como eu era da Ação Católica e de uma família enorme, tinha sido uma menina muito mimada, protegida, que não podia cair no mundo! Mas… jornalista cai no mundo, né? Então a faculdade foi muito boa pra isso. Eram três anos só, mas enquanto eu cursava Jornalismo ajudava minha família, porque era muita gente e o salário do meu pai não dava. Então eu dava aula de Matemática para os alunos do ginásio (risos). E aí, me formei, e disse: “E agora? Eu quero trabalhar em jornal. O que é que eu vou fazer?” Encontro outra vez Cícero Sandroni na rua e ele me pergunta como estou, e eu disse: “Acabei a faculdade. E agora? Como é que eu começo a trabalhar em jornal?” Ele disse: “Ana, o Jornal do Brasil começou uma reforma fantástica e eu acho que está precisando de gente. Vai lá e procura o Wilson Figueiredo.” Isso era 1957, por aí. Cheguei lá e vi a cara espantada dele! Wilson era Chefe de Reportagem, e eu disse: “Sr. Wilson Figueiredo, meu nome é Ana Arruda, eu fiz curso de jornalismo…” E ele ficou me olhando, me olhando, e disse: “Um momentinho…” E foi lá no ‘aquário’ onde o Odylo ficava. O Odylo Costa Filho. Aí eu vejo os dois falando, mas não dava para ouvir nada. O Wilson volta e diz: “Olha, tudo bem, você começa um estágio na segunda-feira.” Anos depois, lembrando isso, o Wilson me disse: “Ana, nós ficamos estarrecidos porque você tinha cara de doze anos, não de vinte!” (risos) E eu tinha dezenove anos. Fiz vinte já trabalhando no jornal. Como é que pode, querer ser jornalista? Não tinha o tipo, o perfil… Aí eu comecei. Eu já contei essa história, mas deixa eu contar outra vez. Cheguei em casa naquele dia e disse “Consegui! Vou começar no jornal na segunda-feira!”. E a Cida, uma das minhas irmãs mais velhas, falou: “Você é uma boba, sabia? Você sabe que dia é segunda-feira?” Era primeiro de abril! E a Cida continuou: “Eles vão morrer de rir da sua cara quando você chegar lá”. Aí eu fiquei com dúvida: “Eu vou ou não vou? Ah, eu vou, eu vou! Se eles rirem de mim, tudo bem!” Cheguei lá e comecei a trabalhar. Era pra valer!

Mas eles te contrataram assim? Sem ver um texto seu? Não viram nada?
Nada. Eu ia começar fazendo estágio. E era o mês de abril, pouco antes da Semana Santa. O Wilson já gostou porque, como eu participava da Ação Católica, eu entendia de religião, e nenhum repórter entendia. Então as matérias sobre o lavapés, sobre missa de Aleluia, eu entendia. E a Condessa era muito católica. Então eu ainda tive essa sorte, eu caí logo no gosto da Condessa porque ela descobriu que eu sabia a diferença entre bispo e arcebispo, que eu sabia o que era novena, o que era missa… (risos) Até hoje as pessoas não sabem! Eu leio no jornal: “uma missa em homenagem…”. Missa não é homenagem! Outro dia li assim: “é a missa do batizado”. Como é que é? Ou é batizado ou é missa! No jornal, às vezes saem coisas assim. Hoje ninguém mais quer saber de religião, imagina. Mas, enfim, aí eu comecei a fazer umas materinhas e o Odylo gostou muito, logo de cara, porque ele descobriu que eu sabia escrever, no sentido de que eu sabia a Língua Portuguesa. Então, ele ficou muito bem impressionado. Tem uma história que já virou folclore. Um dia o contínuo disse que o Odylo estava me chamando no “aquário”. Cheguei lá e tinha uma entourage, uns três ou quatro caras que eram aqueles repórteres antigos, todos senhores, cheios de sorrisos. Aí o Odylo me perguntou: “O que é que você já leu do Machado de Assis?” Eu parei e pensei: “vou parecer pretensiosa, mas não vou mentir não”. E respondi: “Tudo! Eu li a obra completa do Machado de Assis.” Aí eles começaram a rir e eu fiquei vermelha. “Será que ele pensou que era mentira?” Então o Odylo falou: “Eu não disse? Ela põe todas as vírgulas no lugar. Tinha que ser leitora do Machado de Assis!”. E ali eu já comecei com prestígio dentro do jornal, entendeu? Eu tinha lido. Meu pai tinha a coleção completa. Ele era aquele engenheiro que lia, e lia para mim sempre…

Qual era a formação de seus pais?
Eu tive uma sorte na vida – tive não, eu tenho. Embora tenham me acontecido coisas muito ruins, como a todo mundo, eu sempre digo que tive uma sorte grande na vida. E a primeira delas foi essa: a família na qual eu nasci. Minha mãe era uma santa criatura que estudou francês, piano, pintura, aquelas coisas todas. Ela bem moreninha e meu pai bem branquelo. Meu pai a chamava inclusive de “minha preta”. Não era negra, não, mas como ele era muito, muito branco, dava aquele contraste. O pai dela era um médico de roça – meu avô –, um homem inteligentíssimo. Eu convivi pouquíssimo com ele… Ele tinha uma única filha mulher e três filhos homens, e mandou essa filha para o Rio de Janeiro, evidentemente para casa de parentes, para estudar pintura com o Antônio Parreiras, e piano com Magdalena Tagliaferro. Era 1918 ou 19. Então, ela teve uma educação finérrima…

Uma proposta muito ousada para a época, não?
Muito. Ela nunca fez isso profissionalmente, e aí ela conheceu meu pai e em 1920 eles se casaram. Meu pai era jogador de futebol. Quer dizer, era estudante de Engenharia e jogava futebol no Náutico.

Náutico?
É. Do Recife. Pernambuco. Todo mundo era Náutico!

A família inteira? Os quinze?
Até hoje! Mas meu pai era tão bom jogador que o Doutor Barbosa Lima, com quem eu trabalhei na ABI e que era uma das minhas paixões – Eu tenho paixão pelo Doutor Barbosa até hoje –, dizia: “Eu era um jogador medíocre… craque era o teu pai!”. Eles jogaram juntos e remaram juntos lá em Pernambuco. Mas meu pai se formou, largou o futebol porque foi cuidar da vida, e aí se casaram. Ele foi ser engenheiro de estrada de ferro no interior. Ele era um homem curiosíssimo, curiosíssimo. Queria ser fazendeiro. Tinha essa coisa, o pai dele tinha terras… Mas ele nunca teve dinheiro para ter uma fazenda. Sustentou quinze filhos! Não podia ter dinheiro para ser fazendeiro, mas tentou. Teve uma fazenda em Pernambuco, na Alagoa de Baixo. Chama-se Sertânia, hoje. Vendeu quando a família se mudou para o Rio e comprou uma em Araruama. A de Alagoa de Baixo eu nem me lembro como era, mas a de Araruama eu acompanhei bem…

Mas ele tinha talento para o negócio? Ele sabia gerenciar uma fazenda?
Ele tentou, inclusive mais tarde, fez um curso numa fábrica para produzir queijo (risos)… O professor de lá via o meu pai com aquele macacão como se fosse um caipirão, e ficava muito espantado porque ele sabia fazer contas. (risos) Ele jamais disse que era engenheiro. Bom, mas mesmo como engenheiro, ele era um engenheiro diferente, porque começou a se especializar em cooperativismo. Meu pai foi diretor do Serviço de Cooperativismo em Pernambuco no tempo de Agamenon Magalhães, e veio para o Rio por isso. Porque, quando o Ministro da Agricultura era o Apolônio Sales, que era muito amigo dele – pernambucano também –, ele nomeou meu pai Chefe do Departamento de Economia Rural, uma coisa assim, mas era para cuidar de cooperativas. E aí nós nos mudamos e veio outra sorte fantástica. Eu tinha sete anos, fiz oito anos no Rio… É que, antes de tomar a decisão de mudar para o Rio, ele viajava para lá, fazia as coisas no Ministério e voltava. E o Apolônio insistia para que meu pai ficasse em definitivo no Rio. E meu pai falou: “Apolônio, eu não posso. Eu tenho uma filharada!” Não eram mais quinze, porque o mais velho, Fernando, já estava no Rio de Janeiro, na Escola da Aeronáutica. Os quinze nunca moraram todos juntos na mesma casa… Meu pai disse: “Não posso, não tenho dinheiro. Como vou ter uma casa no Rio de Janeiro? É impossível!”. Então o Apolônio disse: “Não tem importância, casa eu lhe arranjo”. E sabe qual foi a casa? Vocês conhecem bem o Jardim Botânico? Ali, na entrada principal, tem uma casa meio estilo Tudor com uma varandinha e que agora é a Casa de Pacheco Leão, é o Museu Casa Pacheco Leão. Aquela foi a minha primeira casa no Rio de Janeiro! Eu achava que o Jardim Botânico era meu quintal! (risos) E era! Minha mãe ficava desesperada porque eu e meu irmão menor, o Zé – que ainda hoje é o meu grande companheiro –, íamos passear no jardim e os guardas traziam cajá… O cajá caía e era proibido pegar, mas os guardas pegavam, enchiam aquela palha das palmeiras e levavam pra gente! Era jambo, cajá… Então era uma vida gostosa. Mas fiquei ali muito pouco tempo. Infelizmente. A casa era muito boa, mas durou pouco porque acabou o Governo e meu pai saiu do Ministério. Ele até adoeceu, foi para a fazenda em Araruama que ele tinha comprado havia pouco tempo e a família se dividiu. Os que ainda não estavam no ginásio ficaram na fazenda. Ficaram as caçulas, esse meu irmão, eu e duas que estavam se preparando para o exame de admissão. Os mais velhos ficaram no apartamento onde até hoje uma das irmãs mora, na Senador Vergueiro. É um apartamento grande, com quatro quartos, mas mesmo assim a gente tinha cama-beliche, era aquela multidão! E aí, na fazenda, meu pai contratou uma professora. E minha mãe tinha muito cuidado com ela… e chamava: “Eunice, venha tomar seu leite…” Tudo bem, minha mãe era uma pessoa doce, mas depois eu soube porque ela foi chamada para dar aula pra gente: Eunice tinha ficado tuberculosa e muito fraquinha e o médico recomendou que ela vivesse num ambiente saudável. Então nós tivemos muita sorte… Ela ficou um ano e meio ou dois com a gente, preparou Zita e Maria da Graça para o exame de admissão, e eu ficava só assistindo às aulas. Aí, quando Eunice voltou para Pernambuco, ela disse para minha mãe: “Olha, a Mirta está pronta para fazer o exame de admissão” – minha família me chama de Mirta –, “mas ela não pode fazer porque não tem idade”. Então a minha mãe ficou fazendo, durante dois anos, apenas uma supervisão. Olha que vida boa! Duas ou três vezes na semana minha mãe fazia um ditado, passava contas, pedia para somar umas frações e meu pai, toda semana, trazia um livro para mim. Eu lendo, lendo, lendo e nessa boa vida de escola na fazenda, sem ser obrigada todo dia. Então eu vim fazer o exame de admissão no Colégio Santo Amaro, colégio de freiras beneditinas, colégio careta, mas razoável. Não era nenhum colégio fino, mas era um colégio bom. Ficava em Botafogo, na Rua General Santoro… acho que ainda existe. E eu fiz, passei. A minha irmã Marta, que se casou logo que eu mudei para o Rio, era química e era ótima! Marta foi minha segunda mãe. Quando minha mãe não estava, era Marta quem tomava conta da gente e ela cuidava para que a gente estudasse. Eu me lembro, em vésperas de exame, que ela me apertou e me ajudou muito. Porque tem isso, em família muito grande os mais velhos vão ajudando. Eu não sei como minha mãe arrumava tempo com essa filharada toda! Quando saímos da fazenda para o Rio ela fez um enxoval para mim. Minha mãe fazia tudo e eu achava que eu era uma protegida dela! Mas, conversando depois com minhas irmãs, todas elas tinham essa mesma sensação. Até hoje é um mistério para mim: como a minha mãe arranjava tempo para fazer tudo? Bom, no tal do ginásio, eu aprendi a rezar em latim (risos). Até hoje eu gosto muito… uma das coisas que eu sou saudosista e reacionária é missa em português. Eu acho um horror.

Que livros o seu pai lhe trazia? O que você lia na fazenda?
Ah, tudo. Os livros que meu pai levava… A Horta do Tomé e A Leitaria da Rosalina eu me lembro bem porque neles havia elementos que me lembravam a fazenda. Mas me levou A Vida de Joana d’Arc, do Érico Veríssimo… não esqueço. Ah, esse livro me deixava louca… chorava de noite porque a Joana d’Arc tinha morrido queimada. É… Graciliano Ramos, tem um livro que se chama A Terra dos Meninos Pelados, que foi uma das minhas paixões. Nunca mais ouvi falar nesse livro. Eu me lembro de que eu tinha também A Vida de São Francisco de Assis todinho ilustrado, que eu perdi num ônibus quando eu vim para o Rio. Havia também os que eu não deveria ler. A tal estante! Tinha o Machado inteiro. Aí eu pegava o livro e, como não tinha certeza se iam me deixar ler ou não, ia para um quarto que tinha uma janelinha que dava pra um telhado. E eu ficava lá no telhado e ninguém me achava. Um dia, uma de minhas irmãs estava de férias e descobriu. “Você está com o olho inchado…”. Eu estava lendo um romance, chorando porque sempre lia e chorava com aqueles livros. E ela me pegou: “Tava lendo escondida!” Mas eu lia qualquer coisa. Fiquei preguiçosa pra ler agora.

Você tinha contato com jornal e revistas nessa época?
Tinha! O Cruzeiro! Lembro que eu lia Raquel de Queiroz na última página de O Cruzeiro. Isso foi no tempo do ginásio e lia O Cruzeiro, lia jornal…

Lia O Tico-Tico?
Não, engraçado, nunca fui leitora de O Tico-Tico… Mas havia uma revista chamada Edição Maravilhosa, que publicava os grandes romances em quadrinhos! Esses eu chorava! Eu chorei tanto lendo Eurico, o Presbítero. É Alexandre Herculano, clássico mesmo! Eu gostava porque eram histórias interessantes. Tinha O Guarani… eu li muito quadrinhos.

Só os clássicos?
Não, não… Eu também lia o Tocha-Humana, o Príncipe Submarino… No tempo da guerra eram esses os heróis. Eles lutavam contra os japoneses e alemães! Propaganda de guerra. E a guerra chegou muito próxima de mim, porque nós viemos para o Rio em 1945. Meu irmão Mário não veio com a gente. Mário era uma paixão pra mim. Era um irmão que me carregava nas costas para subir no jambeiro, para andar de automóvel… E Mário estava convocado para ir para a guerra. Não foi, porque a guerra acabou. Ele estava num negócio chamado “Aldeia” que tinha em Pernambuco, que era um terror. Era para se preparar para embarcar. Eu me lembro que fiquei desesperada. Nessa época nós ainda estávamos em Pernambuco e meu pai vivia nesse vai-e-vem Rio–Recife. Eu me lembro que ele e o pai de minha mãe ficavam jogando gamão, mas quando começava o Repórter Esso eles paravam logo! Eu não entendia nada, mas sabia que era uma coisa importante. Em Recife havia blecaute e tocava uma sirene. Então você tinha que botar pano preto nas janelas, não podia acender luz, não podia acender fósforo. A guerra acabou logo depois que chegamos ao Rio, que foi quando o meu irmão foi convocado.

Vamos voltar para o teu ingresso no JB. Já havia mulher na Redação ou você foi a primeira. Quem você encontrou lá?
Já havia. De repórter havia a Sílvia Donato, só, que eu saiba. Mas na Internacional tinha a Clecy Ribeiro. Ela sabia inglês e tinha aquele negócio de traduzir telegrama… A Sílvia fazia mais Polícia. Repórter de Geral, só eu. Agora, havia umas mulheres que eram as “noticiaristas”… tinha isso no jornal. Eram funcionárias do Ministério que traziam as notícias do Ministério para o jornal no fim do dia. Eram senhoras de mais idade. Mas na Redação havia um preconceito contra a Sílvia, porque ela era uma pessoa mais grosseira, mais bruta no trato, falava palavrão e escrevia muito errado. Eu fiquei muito amiga da Sílvia por isso. Todas as matérias dela, antes do copidesque, passavam por mim. Tanto que, quando ela ganhou o Prêmio Esso me agradeceu no discurso. Ela foi maravilhosa, uma pessoa adorável. Mas eu não sei por que as pessoas tinham esse desprezo pela Sílvia. É horrível dizer isso. Depois até quiseram fazer uma homenagem e me pediram um texto, e eu contei como ela foi solidária comigo.

Mas havia jornalistas homens que não escreviam tão bem…
Sim, nossa, havia aqueles caras, principalmente da Polícia! Engraçado, essa Editoria era um local onde realmente o pessoal só sabia trazer a notícia e às vezes se envolvia demais com a notícia.

Será que isso acontecia porque era nessa Editoria que normalmente o jornalista, o repórter, iniciava sua carreira num jornal?
Talvez, talvez… Porque havia muita gente de alto nível intelectual lá na Redação! Pessoas que tinham feito Direito, outras faculdades… Mas, Jornalismo… O Wilson até me recomendou logo na primeira semana: “Ana, não conta que você fez curso de Jornalismo, não, porque vão rir de você. Aqui ninguém fez curso de Jornalismo”. (risos) É engraçado isso, né?

Você também sofreu algum preconceito?
Não, não. Eu era bem educada, ficava vermelha quando falavam palavrão na minha frente… Mas, não! Eu era muito paparicada. Eu sempre digo que eu senti preconceito fora, pessoas que eu ia entrevistar, em viagem. Aí havia. “Pô. O que é isso? Jornalista o quê? Mulher andando sozinha, viajando sozinha…”. Eu escutei isso muitas vezes. Agora, do pessoal de Redação não. Os fotógrafos quando saíam comigo viravam gentlemen! Podiam não ser, mas comigo eram. E os motoristas? Eu tenho uma saudade daqueles motoristas do JB! Eles eram muito, muito protetores… Eu me lembro de um episódio: quando Gagárin visitou o Brasil, o Governador era Carlos Lacerda. Ele desembarcou no Galeão e havia uma multidão com cartazes, faixas, para recebê-lo. Na hora em que o Gagárin ia saindo, ia passar pela multidão, veio a ordem da Aeronáutica para evacuar toda a multidão. E fizeram isso com violência! Hoje pouca gente lembra disso ou sabe disso. Eles fizeram uma fileira com fuzil assim na mão, e andaram como se fosse um arrastão empurrando as pessoas. E fiquei tão horrorizada quando vi aquilo que eu quis chegar perto e falar com um deles! Foi quando eu senti duas mãos na minha cintura, eu era magrinha: “Ué! Você tá maluca?!”. Era o “seu” Luis, nunca me esqueço, um motorista parrudo. Ele me segurou e falou: “Você está louca? Esses caras te matam e ainda passam em cima!”. E eles estavam mesmo querendo passar em cima da multidão, uma coisa horrorosa. Fizeram isso para que o Gagárin não visse a manifestação a favor dele.

Sem querer abrir uma polêmica de gênero, você acha que o ingresso das mulheres na Redação beneficiou o jornalismo? O que é que trouxe de bom, e, eventualmente, o que trouxe de ruim?
Eu acho que o que trouxe de bom foi uma visão nova durante algum tempo. Você falou em questão de gênero, mas é o seguinte: eu sempre fui feminista nas minhas atitudes, mas nunca fui feminista de carteirinha, sempre tive essa diferença. Mas, de uns anos pra cá, tenho ficado meio desgostosa. Fiz uma palestra certa vez em Resende, num festival que houve lá, e o título era: De Rainha do Lar à Cachorra: Ganhamos Alguma Coisa? Ganhamos alguma coisa? Eu quero trabalhar pela igualdade das mulheres para que elas sejam cidadãs de primeira classe igual aos homens, mas nunca para dar o direito de ser cafajeste. Essa não é minha luta. E voltando ao jornal, eu acho que durante um tempo as mulheres foram meio civilizadoras das Redações. Hoje, não sei não. Mas isso é um fenômeno social, entende? Por exemplo: eu moro em cima de um botequim, e durante o Carnaval, às sextas, aos sábados, fica uma gritaria aí embaixo que é uma loucura. E o que eu ouço de palavrão gritado pelas moças, de grosserias e coisas violentas mesmo! Aí, os rapazes caem na gargalhada…

Mulheres com comportamento quase que de moleque…
De cafajeste…

Na realidade se vulgarizaram…
Exatamente. E eu acho que não é por aí. Acho que o respeito é chegar à Presidência da República, não é? Por exemplo, falaram muito quando foi eleita a primeira mulher Presidente do Supremo Tribunal Federal… Já começou tarde! Metade dos desembargadores deveria ser mulher, e não é! Metade das sócias da Confederação Nacional das Indústrias deveria ser mulher. Não é. Estão muito longe disso. E deputados? Que é que tem aí? Pouquíssimas. E senadoras? E governadoras? Então, isso é que é uma luta! Agora lutar para poder ser cafajeste? Uma mulher se gabando de fazer uma porção de coisas que, antigamente quando o homem fazia a gente dizia: “Ô, esse cara aí é um cafajeste!”. E tem um programa com aquela moça, Betty Lago, que diz assim: “Vamos fazer Terapia de Casais”. E perguntam: “Quantas vezes vocês transaram por semana no primeiro ano do casamento?” O que é isso?! O que alguém tem que ver com isso? Há uma falta de privacidade e de certo respeito às pessoas.

Pelo jeito, não foi só a mulher que se vulgarizou. Foi a sociedade…
Totalmente! Mas o que acho é que as mulheres esqueceram pelo que elas estavam batalhando, entendeu? E aí, quando eu dei aquele título terrível De Rainha do Lar a Cachorra é porque elas voltaram a querer ser objeto sexual! E isso era parte da luta da gente. A gente queria ser parceira do homem, e não objeto sexual. Elas voltaram agora a querer ser objeto. Mulher-Melancia, Mulher-Morango, pelo amor de Deus! Há coisa mais grosseira do que isso?

Onde é que o caminho se perdeu? Você suspeita de algo?
Não, não. Eu acho que as coisas demoram muito a mudar e as mulheres eram oprimidas, claro, sempre foram. Mas a opressão tem sua vantagem também. As feministas vão me matar. A mulher oprimida sempre está propondo, dando um jeitinho, seduzindo, em vez de enfrentar e conversar. E aí, conquistava muitas coisas. Então eu acho que essa atitude, um pouco de prostituta – para engrossar mesmo! – fica no subconsciente: São mulheres que nunca brigaram, nunca se separaram, e achavam ótimo não ter que trabalhar porque o marido ia trazer o dinheiro para casa. Ele até podia ter outras mulheres fora do casamento… não tem importância! Desde que trouxesse o dinheiro para casa. Isso foi a sociedade brasileira durante séculos. E isso ainda não mudou totalmente. Isso me incomoda muito! Batalhamos tanto para isso?

É um pouco por isso que suas biografias são dedicadas às mulheres?
Só faço biografias de mulheres porque acho que as mulheres estão muito ausentes da História do Brasil.

Mas exatamente, como se deu a escolha de cada uma delas? E por quê?
Olha… A primeira foi por acaso. Toda vez que eu via o Doutor Barbosa fora da ABI estava aquela ‘mulherzinha’ ao lado daquele homem grande. Ele era muito atlético, tinha sido remador, né? E aquela mulher baixinha, pequenininha, pendurada no braço dele… Eu me perguntava: “Quem será essa mulher? Para ser casada com ele não deve ser uma qualquer.” Como eu tinha trabalhado com Fernando Barbosa Lima, filho deles, fui até ele e falei: “Fernando, tenho muita curiosidade sobre sua mãe. Você acha que ela me daria uma entrevista?” E ele respondeu: “Ih, Ana, ela vai adorar! Ela adora contar histórias, contar a vida dela. Vai lá.” E eu pensei: “Tem história aí”. Mas eu fiquei em dúvida: “Fazer um livro? Não sei fazer livro!” E aí eu tenho que falar aqui que a Denilde Leitão – não sei se vocês conhecem – me ajudou muito, porque me incentivou: “Faz o livro, Ana!”. Ela foi a fotógrafa e me incentivou muito.

Uma biografia é uma grande reportagem?
É isso que eu digo. Toda vez que falam: “Você que é uma escritora…” Eu digo: “Calma. Eu sou uma jornalista que escreve perfis em forma de livro”. É perfil. Inclusive faço questão de dizer que as minhas biografias são perfis. Uma biografia mesmo é uma coisa impossível. Ninguém faz uma biografia… O Ruy Castro tenta. Veja só: “A mãe de Carmem Miranda foi ao mercado, comprou não sei quê, não sei quê e não sei quê. Depois chegou em casa, encheu o tanque de água e jogou a roupa.” Estou brincando… mas ele chega a essas minúcias. Eu acho que ninguém, nunca, vai conseguir retratar uma vida inteira. Nem a própria pessoa. Na autobiografia também. A gente não se lembra desses detalhes… Vai esquecer da verdade, vai falsear, vai inventar. Uma vez eu escrevi um texto em que eu citava exatamente a impossibilidade de se fazer uma biografia, citei o exemplo do Sartre. Ele escreveu a biografia do Gustave Flaubert. São dois volumes, desse tamanho, é uma coisa monstruosa, 900 páginas ou coisa assim. E muita gente achou ruim isso. “Sartre está doido! Diminuiu as aulas, diminuiu os cursos de Filosofia para poder escrever a biografia de Flaubert?” Aí foram perguntar a ele: “Por que você escreveu essa biografia?” E ele: “Porque eu achei que era a pessoa mais diferente de mim que podia existir e tentei descobrir”. E aí perguntaram: “E descobriu?” E ele disse: “Mais ou menos”. (risos) Sartre, né? Monstro… Bom, isso é pra dizer que não dá para fazer biografia e o que eu quero é mostrar a inserção dessas mulheres na História do Brasil. E a dona Maria José, mulher do Doutor Barbosa Lima, foi a primeira. E eu peguei gosto. Vi que ela era uma menina mimada, rica, de São Paulo, aprendeu a dirigir aos 16 anos… Eu até fiquei na dúvida se ela não foi a mulher que tirou a primeira carteira de motorista, mas pode ter sido. Era atrevidíssima, mas não queria nunca casar. E o pai ficava meio inquieto porque uma moça com vinte anos e não casar, naquela época, era uma coisa inquietante para um pai. E quando ela encontrou o Barbosa, os dois se encantaram um pelo outro, e o Barbosa foi pedir a mão dela em casamento. Ele já era Redator-Chefe do Jornal do Brasil. Ele tinha muitos irmãos, cuidava deles, tanto que não pôde casar cedo. Mas quando ele a pediu em casamento o pai não queria aceitar. “Eu quero lhe dizer uma coisa: minha filha não sabe cozinhar, nunca lavou uma roupa na vida, não tem o menor interesse por casa…” E o Barbosa respondeu: “Mas doutor, se eu quisesse uma empregada, seria fácil arranjar, pois eu trabalho num jornal que tem uma quantidade enorme de anúncios de empregadas” (risos), os Classificados do JB. Mas a dona Maria José, então, começou a cuidar da vida dele, como ela me disse: “Minha filha, o Alexandre [Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho] não sabia nem quanto ganhava! Quando era deputado, ele chegava em casa, me dava o dinheiro que ganhava e eu botava no banco e usava.” Então ela fez a casa que eles moraram por muito tempo… Ele só viu a casa quando já estava pronta e os livros dele já estavam todos lá! Quando ele foi Governador de Pernambuco, ela fez um trabalho social… Está bom. Toda mulher de Governador faz trabalho social. Mas com ela foi outra história! Ela fez um chá das senhoras pernambucanas… eu sou pernambucana e sei o que é Pernambuco. Nossa Senhora! Grã-fino em Pernambuco é grã-fino mesmo! Não quer saber do povo de jeito nenhum. Até hoje há aquela mentalidade do usineiro. Aí ela disse: “Olha eu queria falar pra vocês porque estive ontem no hospital e vi crianças morrendo de fome”. Aí, uma delas disse: “Ai, dona Maria José, a senhora me desculpe, mas você veio de São Paulo e não entende a realidade daqui. Não tem ninguém morrendo de fome em Pernambuco”. Ela disse: “Eu vi. O doutor Nelson Chaves me mostrou. Ele fez uma autópsia num menininho que tinha morrido e o intestino estava seco, colado, porque não comia.” Ela ficou horrorizada e começou um trabalho. Umas poucas aceitaram, e foi, foi. Quando ela saiu de Pernambuco, três anos depois, havia 140 voluntárias levando mamadeira para aqueles casebres, havia assistência médica, assistência dentária. Então ela transformou a mentalidade de uma porção de mulheres em Pernambuco.

Eu imagino que a escolha de todas as personagens se deu obviamente pelo interesse de sua história e de uma certa admiração. Agora, qual é o perigo, para quem escreve, de não cair no texto meramente elogioso? De o jornalista não perder o senso crítico sobre a personagem?
Bela pergunta. Quando fiz o perfil da Adalgiza Nery, busquei mais a questão de mulher mesmo, porque ela teve dois maridos tão diferentes que eu me perguntava: “Como é que uma mulher se casa com dois homens tão diferentes?” O primeiro foi Ismael Nery, pintor, poeta. Depois ela se casa com Lourival Fontes. O que é isso?! E depois vai trabalhar na Última Hora de Samuel Wainer. Aí eu fiz uma pesquisa, terminei o livro, que foi publicado naquela coleção Perfis do Rio, da Prefeitura. O Wilson Coutinho, que trabalhava na Prefeitura e era o encarregado, leu e me disse: “Pô, Ana estou tão triste.” E eu pensei: “Ai meu Deus, ele achou o livro uma porcaria”. E ele me perguntou: “Você não gostou da Adalgiza?” Eu disse: “Não. Mas achei ela formidável! Está no livro”. Ele disse: “Não, não, o livro é ótimo! Mas a gente sente que você não gostou dela”. E eu disse: “Como é que eu vou gostar de uma mulher que foi uma mãe péssima e que se casou com Lourival por interesse? Eu não posso gostar!”. Ele disse: “Ah, mas eu é que devia ter escrito” (risos) É porque ele era louco por ela, apaixonado pela Adalgiza. E o Samuel Wainer disse assim sobre ela: “Adalgiza era uma mulher má, quase perversa”. Ele a conhecia bem. Isso está no livro. Sobre a Maria Martins foi curioso, porque não a escolhi. A Editora me pediu. Mas foi depois de eu ter ido a uma exposição dela sobre o surrealismo no Centro Cultural Banco do Brasil que tinha uma sala só dela. Quando entrei, disse: “O que é isso? Como é que eu vou falar dessa mulher?” Achei, de longe, a melhor e a mais importante artista que havia naquela exposição! E olha que tinha francês à beça. Fiquei doida pelas esculturas dela. Uns três meses depois, eu recebo um telefonema da dona da Editora Gryphus, Gisela, que me disse: “Ana, nós temos que fazer a biografia da Maria Martins e eu perguntei ao Wilson Figueiredo quem poderia fazer, e ele indicou você”. E eu: “Você está brincando? Acabei de ficar deslumbrada com a obra dela!”.

E a Darcy Vargas?
Quando fiz a Darcy Vargas é que eu reparei que estava rodeando Getúlio Vargas de várias formas. Eu fiz a Lygia Lessa Bastos, que era inteiramente contra Getúlio, era udenista. Então, eu disse: “Vou direto com a Darcy” – ou Dárci, como a família a chama. Fiz a Darcy Vargas e depois resolvi fazer a Berta Ribeiro. Estou fazendo, já devia ter acabado. Mas a Berta tem uma coisa importante. Ela mostra outras faces de Getúlio, porque nunca ninguém explicou Getúlio! Dizem que agora tem uma biografia ótima dele. Eu preciso ler. Com a Berta eu tenho a oportunidade de mostrar o anti-semitismo no Governo Vargas, que eu não havia tocado em meus outros livros. Não só porque eu conheci Berta e gostava dela. Eu gostava muito da Darcy também. Ela era uma coisa maravilhosa, com todos os defeitos do mundo, mas maravilhosa! E a Berta era aquela pessoa muito discreta.

Você tem previsão de quando vai ficar pronto o livro sobre a Berta? Você está preparando-o há mais ou menos um ano, não é?
Mas eu parei, praticamente, por dois motivos: o primeiro, porque havia uma controvérsia sobre a morte dela e eu precisei destrinchar isso. E a segunda porque… eu estou fazendo outra coisa, a fotobiografia do Callado.

Numa entrevista você falou que Samuel Wainer era uma peste…
Eu disse isso? Eu falo demais… (risos) O Samuel Wainer era um jornalista completo! O que ele fez pela Última Hora, o que ele fotografou… Não! Os méritos do Samuel jornalista ninguém pode tirar! Mas, por exemplo, quando a Última Hora estava com problemas com a ditadura… o Paulo Silveira, o Moacyr Werneck estavam ralando, podendo ir pra cadeia, e segurando o jornal, ele estava com a Danuza Leão tomando champanhe em Paris, né?! Para mim essa pessoa não é uma boa pessoa. Mas talvez uma pessoa tão empreendedora – como se diz agora – tenha que ser um pouco malvada, não é? Não sei. Mas ele não era uma boa pessoa, na minha avaliação, como a Adalgiza, que eu acho inteligente, corajosa, foi uma mulher com qualidades fantásticas, mas não era uma boa pessoa. O filho dela foi para o Colégio Joana d’Arc, na França, sem saber falar uma palavra em francês. No inverno, né? E ela viajando com Lourival em Washington! O que é que você acha? Agora… foi maravilhosa. Quando ela fazia a coluna na Última Hora… a coragem daquela mulher que desafiava Deus e todo mundo.

Mas, antes de ter essa coluna na Última Hora, ela estava numa dificuldade grande. Intercederam por ela junto ao Samuel…
Samuel ajudou. Ela pediu ajuda a Samuel porque conhecia muito o Palácio do Catete por causa do Lourival. Samuel deu uma boa ajuda que funcionou porque a coluna dela era tão lida que Adalgiza foi eleita Deputada sem fazer uma campanha. Não fez um comício… nada. Só avisou na coluna que era candidata.

A gente já falou do seu início no JB, mas quanto tempo você ficou lá e como era trabalhar nesse jornal?
Era um jornal tão fantástico! Era o melhor jornal deste País, não tenho a menor dúvida. Estadão, Folha, O Globo… não havia comparação. Naquele período que trabalhei, de 1958 a 1962, havia certo romantismo. Nós achávamos que éramos donos do jornal. A gente tinha muito orgulho e isso não existe mais. Os jornais viraram empresas mesmo. Empresa onde você chega e só falta bater o ponto. Não, a gente, não. A gente acreditava! Quando eu digo a gente é a maioria mesmo. Você vê o saudosismo que há quando junta muita gente do JB, a conversa é essa. A gente acreditava que estava trabalhando para informar a população, não para agradar o chefe, nem o patrão. Era um outro tipo de jornalismo, heróico… Tanto que a gente ficava até o final do fechamento. Os repórteres ficavam. Havia o copidesque que era outra instituição fantástica, nossa! E que faz tanta falta. E isso dá em erro. Erro de informação, erro de palavras, erro… o que sai hoje em jornal dá vontade de chorar. Era outra mentalidade. Era um jornal bem feito, bem escrito, quer dizer, tinha realmente todas as qualidades. E quando o Jânio de Freitas assumiu, para mim foi a grande fase do jornal até hoje! Dines que me perdoe, mas a grande fase foi a de Jânio de Freitas, que não era sozinho. Ele tinha o Araújo Neto, o Carlos Lemos… até o pessoal brincava dizendo que eram “os cubanos” porque eles tinham ido a Cuba cobrir a entrada de Fidel Castro em Havana. Foram muitos jornalistas brasileiros e quando voltaram assumiram o controle do jornal. Mas a realidade é que era a maluquice de Jânio, porque é doido de pedra, que fez aquela maravilha de jornal! Depois que ele saiu, é claro que o Dines transformou aquilo em uma empresa, foi para isso que ele foi contratado. Depois de algum tempo ele me chamou de volta para o jornal para fazer um caderno infantil. O projeto era ótimo e as pessoas elogiavam. Eu lancei o Miguel Paiva, com o Capitão Eco. Tinha o Guidacci fazendo uma tirinha. Falavam para eu botar algumas tiras estrangeiras e eu disse: “Só admito Hagar, o Horrível, a única estrangeira que pode entrar porque era inteligente.” Era uma briga constante com a publicidade, porque não conseguiam vender. É que a publicidade começou a interferir em assuntos da Redação. E o caderno infantil foi acabado pela publicidade. A Condessa Pereira Carneiro, numa reunião de fim de ano, me disse: “Ana, eu gosto tanto do caderno infantil!”. E eu já tinha sido avisada pelo Luiz Alberto Bahia que ia acabar, ia fechar. Então eu falei para ela: “Mas eu tenho a impressão de que o caderno não vai durar muito não”. E ela: “Ah! O que é isso? Eu adoro! Vai continuar sim!”. Quinze dias depois o caderno acabou. Tadinha, não mandava nadinha, mas ela era formidável e foi ela que fez aquele jornal. Foi posta para escanteio pelo genro…

Fale sobre os dois prêmios que você recebeu, as pautas dos meninos de rua e reforma agrária, problemas ainda tão amargos nos dias de hoje.
A da reforma agrária foi o Prêmio Herbert Moses, que até me valeu uma homenagem muito cômica, que é a seguinte. Tinha uma senhora chamada Adalzira Bittencourt, que fez o Dicionário Bio-bibliográfico de Mulheres Ilustres, Notáveis e Intelectuais do Brasil. Aí quando saiu esse dicionário me disseram: “Ana, você está no dicionário.” Eu disse: “Como, estou no dicionário? Eu sou repórter”. Aí fui ler o verbete e estava lá: “jornalista… etc… e ganhou um beijo de Herbert Moses ao receber o prêmio”. (risos) Foi o beijo de Herbert Moses, que era da ABI, que me fez entrar nesse dicionário.

Esses são dois temas de forte cunho social. Isso também era uma coisa que te mobilizava naquela época?
Muito. Aí eu estava bem politizada, e a reforma me angustiava muito, tanto que o título da primeira matéria era “Todo mundo fala, mas ninguém faz nada”. Agora estão dizendo que não adianta fazer, pois os assentamentos são péssimos. Pô, dá condição de trabalho, meu Deus do céu! Quer dizer, o problema é eterno. E então, claro que o jornal me deu muito isso. Viajar, ver gente, o jornal me deu uma noção do Brasil, do que era o Brasil, do que precisava mudar.

Mas não mudou nada…
Não mudou nada! Reforma agrária, meninos de rua, corrupção…

São matérias que foram escritas há mais de 50 anos e ainda são atuais!
Pois é. Hoje, se você me perguntar o que eu penso do Brasil, estou pessimista. Outro dia estava num jantar com algumas colegas, inclusive a Isa Guerra, que é uma velha companheira de batalha, e ela me falou: “Ah, Ana! O Brasil melhorou muito. O pessoal lá do interior da Paraíba está comendo”. E eu: “Sei. Não tem mais pão velho”. E a Isa: “Não, você também está exagerando”. Eu sei que está comendo, por quê? Porque tem a Bolsa Família. Mas tem emprego lá? As pessoas estão se fixando na terra? Não! Tem colégio lá? O colégio é bom? E a Isa me falou: “Não, mas você também está muito exigente”. Era isso o que eu pensava que a gente ia ver no fim da década de 1950!

Ser jornalista também é aprender a lidar com frustrações, como essa, por exemplo?
Não sei. Eu senti isso quando voltei a ser repórter. Quando acabou o caderno infantil fui chamada pela direção do jornal e disseram: “Você faz o que você quiser aqui. Você escolhe”. Aí tive um momento de burrice (risos) e disse assim: “Ah, eu quero voltar pra reportagem!”. Porque eu tinha sido muito feliz na época que eu era repórter. Mas você não volta atrás. É uma burrice voltar atrás.

Mas isso era voltar atrás?
Era. Porque quando eu olhava a pauta, eu via: “Ai, eu já fiz isso. Já li isso. Já escrevi isso. Já li esse jornal”. E depois… o jornal estava cheio de gente muito boa. Lembro que eu quis fazer uma matéria sobre o Ajuricaba, o herói dos manauara. E aí não aprovaram a pauta. Falaram que isso não era matéria de jornal! “Que coisa antiga!” Mas o editor do Caderno B soube da pauta e me encomendou. E saiu. Puxa! O editor que recusou essa matéria ficou enfurecido! Queria me demitir!

Quem era?
Ah… não lembro! Pessoas assim eu prefiro não lembrar. Ele falou que eu era insubordinada, que o jornal é um só! Ué! Eu sou empregada do jornal, o editor do Caderno B me pede a matéria e eu não posso fazer? Ele ficou indignado! Mas então eu achei que nessa época o jornal começava sua decadência. Eram os anos 1970. Claro que durante a ditadura houve aqueles momentos gloriosos, as coisas que sempre se conta, a morte do Allende, aquela página maravilhosa… Tudo bem. Não estou dizendo que o jornal caiu, não. Porque um jornal para cair… demora! Mas… É muito triste não ter Jornal do Brasil, é muito triste. E já estava ruim mesmo… E quando passou para tablóide, aí morreu, né? Ainda existe on-line? Enfim, eu acho que o Brasil é muito frustrante. Darcy Ribeiro tem uma frase célebre que eu adoro citar, que é: “Fracassei em tudo o que fiz. Quis uma escola para os índios, e fracassei. Quis um País mais justo, e fracassei. Quis fundar uma universidade de qualidade e fracassei. Mas meus fracassos são minhas vitórias. Não gostaria de estar no lugar dos vencedores”. É muito bom! Isso me consola, mas como eu não sou Darcy não fiz tantas coisas maravilhosas, não me consola totalmente. Estou frustrada.

Eu tinha que ser violenta porque sendo amável não impunha
respeito. Que coisa, né? Claro que é cruel ver. Mas eles
achavam um desaforo ser comandados por uma mulher.

Como foi ser a primeira mulher a ocupar um cargo de chefia numa Redação?
Fui Chefe de Reportagem, sim, mas não de Redação. O Zuenir Ventura era o Chefe de Redação do Diário Carioca. Foi engraçado e foi complicado. Eu tinha o apoio do Doutor Prudente (Prudente de Moraes, neto), que era o Diretor de Redação, representava o dono do jornal, Horácio de Carvalho, e de Zuenir. Mas, engraçado, um apoio muito bom para mim foi o de Amilcar de Castro. Amilcar tinha feito a reforma gráfica do jornal. Um dia Zuenir falou para mim com a maior calma: “Vou passar o fim de semana em São Paulo; você assume”. E eu: “Mas, Zuenir, você está doido? Eu nunca fechei um jornal, eu nunca dirigi uma Redação” E ele: “Menina, o que é isso, você sabe!”. E quando chegou na hora de fechar o Amilcar disse: “Como é que você quer a primeira página?”. Eu respondi: “Eu não sei como eu quero a primeira página”. (risos) Aí ele disse: “Você pensa que o jornal tem a minha cara, mas não tem, não. Tem a cara do Zuenir! Amanhã o jornal tem que sair com a sua cara! Diz aí: qual é a primeira matéria, qual é a segunda?” E aí eu montei a página com ele, porque realmente eu não tinha essa experiência, a minha coisa era a reportagem, conversar com os repórteres, dar dicas, a pauta, complementar a pauta. E nós tínhamos uns três ou quatro estagiários de que eu gostava muito. Então, eu já tinha essa coisa de orientá-los. Mas como Chefe de Reportagem tive mesmo muita resistência com os repórteres mais antigos. E tinha um famoso Secretário de Redação, o Deodato Maia, que no livro da Cecília Costa sobre o Diário Carioca é muito citado. É que as pessoas o adoravam. Todo mundo que trabalhou no Diário Carioca gostava do Deodato Maia. Mas o Deodato era o exemplo exato do jornalista de antigamente. Quando o Chefe de Reportagem tinha que ser sargentão, e o Secretário tinha que ser bem grosseiro mesmo para lidar com o pessoal, com os gráficos inclusive. O Deodato Maia chegava mais tarde e sentava na mesa dele e gritava: “Ô fulano!” E o repórter dizia: “O que é, Deodato?” E aí o Deodato começava a dizer alto tudo o que ele achava da matéria que o repórter escreveu. Ficava criticando. Ele queria me escandalizar para que eu reclamasse. Mas eu ficava na minha, abaixava a cabeça e continuava meu trabalho na minha mesa… E ele ficava me provocando o tempo todo. Ele fazia quase diariamente. Havia alguns que me apoiavam, como o Fabiano Vilanova. Mas havia uns dois indivíduos ali que realmente faziam por onde… só lembro do nome de um deles porque o demiti. É a famosa história da demissão… Falavam que não tinham que me explicar o que iam fazer, para ver como é que eu ia reagir. Aí, um dia, o Jorge Segundo me disse: “Não tenho que explicar nada não. Estou dizendo que a matéria não deu, ué!”. E eu levantei e disse: “Tem que explicar sim. Tem que me dizer o que é que houve, o que é que você fez!”. E ele fez assim: “Ah!”, botou o paletó assim e deu as costas para mim. Nunca me esqueci o gesto com o paletó… Aí eu olhei e tinha três dos antigos no fundo da sala. Eu peguei o telefone: “Seu Zélio, Ana Arruda!” Zélio Valverde, o gerente. “Oi, dona Ana, tudo bem? O que a senhora deseja? Estou às ordens…” E eu falei: “Eu quero que o senhor faça agora a demissão do Jorge Segundo”. Ele disse: “Como?” “Estou pedindo… Pedindo não, estou mandando o senhor demitir esse rapaz agora!” Bati o telefone. Ficou aquele silêncio de morte. Ele foi demitido e nunca mais ninguém chegou para dizer que a matéria não deu e eu não explico. Mas isso é horrível! Eu tinha que ser violenta porque sendo amável não impunha respeito. Que coisa, né? Claro que é cruel ver. Mas eles achavam um desaforo ser comandados por uma mulher. Coisa curiosa, né?

Você falou da tua experiência, de seu gosto de orientar estagiários. E você teve uma longa carreira como professora. O que é que a despertou para isso e qual a sua opinião a respeito da exigência ou não do diploma?
Eu acho que a exigência do diploma era boa. Se vamos falar do mundo ideal, não devia ter diploma para pessoa nenhuma. Devia-se provar a capacidade. Mas já que existem as profissões, por que o jornalista não deve ter? Tem que ter. Então eu sou a favor da obrigatoriedade do diploma por isso. Eu acho que é uma maneira de valorizar a profissão. “Ah, mas os cursos não ensinam nada”. Ué, o Direito também não ensina, não! Taí a quantidade dos reprovados no exame da OAB. E Medicina? Quantos médicos aí que não sabem nada! Então, não é porque o curso é ruim… E o curso não é tão ruim, embora existam alguns ruins… É porque os jornais, os donos do jornal e os editores, que assumem a cabeça do dono, querem que o menino e a menina saiam da faculdade prontos. Isso não existe em profissão nenhuma. Não existe. Você não pode sair de um curso de quatro anos já sabendo tudo. Eu passei vinte anos dando aula em vários lugares. Eu escutava aluno de Jornalismo perguntando o seguinte: “Ah, professora, essa língua portuguesa é um horror! Por que ‘Economia’ não tem acento e ‘econômico’ tem? (risos) Eu disse: “Bom, voltei para o curso primário!” Houve um dia, na Puc, que eu fiz uma pergunta sobre Carlos Lacerda. Aí eu ouvi aquele silêncio! “Espera aí… Vocês não sabem quem foi Carlos Lacerda?!”. E um respondeu: “Ele foi o cara que foi cassado porque foi contra a ditadura, né?” E outro disse: “Não, ele foi Prefeito do Rio”. E eu disse: “Calma! Vamos aqui falar do Carlos Lacerda, do Samuel Wainer, da Última Hora, da Tribuna da Imprensa, do Lacerda Governador, do Lacerda derrubador de presidentes, tudo!” Um dia eu estava na Puc, que foi a última faculdade em que lecionei, e comentei com uma colega, a Vera Flora de Figueiredo: “Vera, está ficando pesado dar aula, está ficando chato”. E ela: “É claro, Ana. A cada semestre nós estamos um semestre mais velhas. E entram turmas da mesma idade, depende do período que seja, eles têm sempre a mesma idade. E cada vez mais ignorantes”.

Nas últimas décadas, as meninas se firmaram como maioria nas turmas de Jornalismo, não é? Como você explica isso?
Pois é. Nas Redações você vê muito mais mulheres, mas não nos cargos de chefia…

Mas, por que elas estão escolhendo essa profissão? É porque querem aparecer na televisão, por exemplo?
Olha, você deu um dos motivos mais sérios, infelizmente. Eu via, quando dava aula, que a idéia que tinham do que era ‘ser jornalista’, era a de apresentadora da TV Globo. Essa coisa de ir à cata de notícia e apurar informação não estava na cabeça delas, entendeu? E isso me assusta. Por isso elas chegam na Redação e ficam tontas com as ordens que recebem… Estavam pensando outra coisa. Isso acontece com os meninos também, embora menos.

Talvez as mulheres apenas fantasiem mais em cima da questão do estrelato da televisão…
Eu acho que a gente fantasia mais. Mesmo. Eu sempre digo que quero ter os mesmos direitos, mas não quero ser igual ao homem, não. Eu acho que o feminismo será vencido no dia em que os homens ficarem mais amáveis e as mulheres mais firmes e responsáveis. Os dois têm que mudar. E acho que estão mudando. Eu sigo reclamando, mas acho isso. Nos casais jovens já está havendo esse equilíbrio. Isso já é um avanço muito grande. Me agrada.

Como era ser professora? O que a motivava?
Bom, ser professora… Eu nunca fui ‘professoooora’ (diz ela, dando ênfase à palavra). Eu fazia experimentos na minha sala. A minha idéia, para dar aula, é um pouco como eu fazia com os estagiários. É ver se os alunos tinham noção do que era a profissão… Queria ajudá-los a entender o que é ser jornalista. E, sobretudo – aí preciso dizer que eu sou uma patriota, termo que está em desuso – eu queria que eles gostassem do Brasil. Por exemplo, eu dava uma prova, às vezes, na qual a meta era pegar contos de Guimarães Rosa e, em cima, mandava escrever uma notícia. No fim, fazia uma pergunta: dê os nomes de seis pintores brasileiros vivos. Entendeu? E eu ficava indignada porque nenhum conseguia seis nomes. E alguns não conseguiam nenhum. E falava: “Gente! Tem que ir à exposição. Jornalista não vai só à guerra cobrir tiroteio. Jornalista tem que ir a shows, ao futebol, à exposição de arte, a desfile de moda, à convenção partidária…” O Carlos Lacerda tinha uma definição que é maravilhosa: “O jornalista tem que ter uma curiosidade universal”. Você não pode dizer: “Esse assunto não me interessa!”. Quando diziam isso pra mim eu tinha vontade de socar. Mas, é claro que a gente não pode saber tudo, né?

Gostaria que você falasse um pouquinho da experiência de O Sol. Você participou ativamente daquele processo.
O Sol foi uma idéia louca do Reynaldo Jardim, um inventor maravilhoso. Nos conhecemos no JB… Ele era diretor da Rádio Jornal do Brasil. Eu ia à rádio para ver o Tom Jobim, que às vezes aparecia lá, e era a coisa mais linda do planeta! Eu saía da Redação e ia espiar o Tom. (risos) Depois Reynaldo trabalhou no jornal, onde criou não só o Caderno B, mas também uma seção chamada Onde o Rio É Mais Carioca, que o Amauri Monteiro fazia. Também fazia o Sérgio Noronha… Esse pessoal era todo amigo. Com o tempo, me aproximei do Reynaldo. Fez tanta experimentação, né? Ele inventou de tudo. Aquele Cultura JS – o suplemento do Jornal dos Sports… Era uma maravilha esse suplemento… O Reynaldo… Nossa! Sofri muito com a morte dele. Mas ele tinha uma mulher espetacular – hoje a viúva dele é uma outra pessoa, está em Brasília. Mas a primeira mulher dele, mãe dos filhos, Edelweiss, era inteligentíssima, engraçadíssima. A gente a chamava de “Váis” ou “Vaizinha”. Era na casa deles que a gente fazia o suplemento. A revista Senhor também. Quando ele assumiu a revista, ela já estava em fase de decadência. A Senhor tinha sido uma maravilha no tempo do Nahum Sirotsky, do Glauco Rodrigues, Carlos Scliar… E aí, o Reynaldo assumiu, com um amigo dele chamado Edson Coelho, que era publicitário, achando que podia segurar a Senhor – e não dava. Eu era a secretária da revista. Houve, sim, uma decadência, pois a revista foi minguando. Ficou menos bonita mesmo, não tão bem impressa, papel de menor qualidade… Mas do conteúdo, é claro, nós cuidávamos.

O Sol era coordenado por jornalistas talentosíssimos, mas os repórteres eram todos estudantes.
Estudantes. Não só de Jornalismo, mas estudantes de tudo. Tínhamos na equipe estudantes de Medicina, Economia, Sociologia. Porque nós fizemos uma seleção assim: “Quem quer trabalhar?”. Até muita gente criticava: “Estão te explorando aí”. Mas todos recebiam. E mais do que os estagiários da Última Hora e de outros jornais… A gente chamava esse pessoal de alunos, pois a idéia era realmente transformar aquilo numa escola de Comunicação. Só que não deu. Era 1967, né? Em 1968 o bicho pegou!

Fazer esse jornal devia ser uma loucura. Ele era diário! Porque não pensaram em fazer semanal?
A gente achava que uma verdadeira escola de Jornalismo era o jornal diário. Jornal diário é que é jornal. E ele buscava um calor também. Ter aquela pressa, ter que fazer pra já…

Nesse formato, conseguia se manter publicitariamente?
Não. Principalmente porque era um jornal atrevido. Muito atrevido. Na forma e no conteúdo. Foi uma experiência absolutamente deliciosa.

Você se lembra de algo pontual que tenha feito e sido especialmente marcante?
Ah, muita coisa! Nossa! Primeiro, o que a gente fez antes de tudo! Com esses alunos selecionados, fizemos um curso. Curso mesmo! A gente conseguiu lançar na Cândido Mendes. E tínhamos os mestres – que a gente chamava de conselheiros. Eram Otto Maria Carpeaux e um outro rapaz, chamado Sérgio Lemos, que morreu pouco depois, um sociólogo. O Carpeaux ligava pra mim: “Ana, quais são as notícias? Quem está fazendo isso aqui?”. Era o que interessava a ele. Depois ia para o repórter: “Fulano, sei sobre o que você vai escrever, mas o que é que você sabe sobre esse assunto?”. E, pronto! Dava uma aula para o cara sobre aquele assunto. Carpeaux era um sábio absoluto. Sabia tudo. Ele escreveu A História Mundial da Música e A História Mundial da Literatura. E sabe o que mais me emocionava no Sol? Era aquela convivência. A gente ia almoçar no botequim do lado… Um dia eu disse assim: “Meu Deus, estou há 20 dias comendo frango assado”, porque era o melhor que tinha lá no botequim. E aí, de repente, aparecia o Gilberto Gil de chapéu de cangaceiro pra almoçar com a gente…

Era um ambiente muito efervescente, não é?
É. Mas tinha também uma coisa que aparece no filme da Tetê Moraes, e era verdade: em determinada hora, eu tinha que começar a fechar o jornal! Minha função era essa! Então, o pessoal da oficina me dizia: “Dona Ana, não desceu ainda nenhuma página!”. Aí, eu pá! “Vamos descer logo umas três ou quatro páginas!”. Reynaldo era quem contratava o pessoal da diagramação, que eram duas moças. Ele só trabalhava com mulher na diagramação! Eu via quando a página podia descer, atendia correndo a oficina… Mas cadê que a página da Marta Alencar estava fechada? Aquilo era tudo doido, não é? Pegava aquele pessoal de jeito – ai, meu Deus do céu! Então, eu era a chata, né?

Mas, e o lance da grana? Como o jornal sobrevivia?
O Jornal dos Sports pagava a nossa folha de pagamento toda.

Foi de fato ficando bem pesado, quando os militares começaram
a arrochar – e aí é que não vinha anúncio mesmo… A gente
ia levar à falência o Jornal dos Sports, se não tivesse acabado.

Como é que esse projeto foi aprovado pelo jornal?
O genro da dona Célia Rodrigues, que era a dona, era o José Guilherme Padilha, que ficou encantado, ficou doido pela idéia. E ele queria mesmo fazer uma escola. Então, foi segurando enquanto podia, até que disse: “Olha, está ficando pesado”. De vez em quando, encontrava com a gente: “Está ficando pesado”. Foi de fato ficando bem pesado, quando os militares começaram a arrochar – e aí é que não vinha anúncio mesmo… A gente ia levar à falência o Jornal dos Sports, se não tivesse acabado. Eles decidiram acabar. Numa decisão da empresa, que iria falir se continuasse com O Sol. Então, aquele jornal, do ponto de vista de negócio, foi a coisa mais doida do mundo. Errada! Mas do ponto de vista da experimentação foi uma maravilha.

Como foi a atuação da censura no jornal O Sol?
A primeira manifestação da censura no Sol aconteceu quando foi pedida a demissão do Editor de Economia porque eles queriam colocar outra pessoa em seu lugar. Felizmente era um rapaz maluquetinho, delicioso. Depois pediram para demitir o Carpeaux (Otto Maria Carpeaux). Aí nós dissemos: “vamos fechar o jornal!” E o Carpeaux disse: “Não façam bobagem. O importante é que o jornal resista. Eu saio, e vocês ficam aí pelo menos 15 dias mais”. E foi mais ou menos isso. Mas veio a ordem direta. Saiu o Carpeaux!

Durou quanto tempo?
Ai, meu Deus, eu nunca sei a data… Acho que uns quatro ou seis meses. Foram tantas edições… Uns 170 números, algo assim. (risos) Um dia encontrei um rapaz numa festa que a gente fez para reencontrar essas pessoas. E ele disse: “Ana, você não lembra de mim chegando à Redação exausto de Volta Redonda?”. Tinha ocorrido uma rebelião por lá e ele foi cobrir e conseguiu entrar onde estavam os operários. Ficou de refém, e só depois conseguiu escapar. Aí, voltou para o Rio, depois daquela experiência terrível. Pois eu havia esquecido; a gente que não sofreu, esquece… Bom, ele disse que entrou na Redação e eu disse bem assim: “Tudo bem. Você está bem, está inteiro. Não te bateram?”. “Não, mas…”. “Então tá bom, não vai me contar suas agruras, não. Vai pra máquina escrever, pois o jornal tem que fechar! Não tá faltando nenhum pedaço… Tá tudo bem!”. Ele brincou: “Você foi de uma ruindade comigo…”. Eu respondi: “Desculpe. Desculpe. Mas eu tinha que fechar o jornal”. (risos) Ah, tem uma história engraçada também. O Carlos Heitor Cony gostava de ousar. Fez um trabalho maravilhoso lá. Ele era editor de Polícia. Fazia os meninos escreverem as notícias como se fossem folhetins, apurando direitinho, todos os dados. E um dia tinha um telegrama idiota sobre uma chuvarada que deu na Grécia. E o Cony fez uma chamadinha assim: “Chove paca na Grécia”. De noite, eu recebo a visita do chefe da oficina: “Dona Ana, eu não vou fazer essa manchete”. “O quê?”. “A senhora autorizou uma barbaridade dessas?”. E eu não tinha visto a chamada! Mas não podia dizer isso a ele! Aí parei, e disse: “Autorizei, claro. Não está lá embaixo?”. “Então, eu posso botar isso?”. “É pra botar, essa é a manchete”. Aí, no dia seguinte fez o maior sucesso! Quem colocaria um título assim em jornal, né? Até que alguém me contou muito tempo depois: “Ô Ana, sabe o que está correndo no Rio de Janeiro? É que aquela manchete só saiu porque você não tinha visto”. (risos) E era esse mesmo o caso! (risos)

E quando vocês ouviram pela primeira vez a música de Caetano Veloso?
Não me lembro. No Sol, a gente discute muito se a música foi para o jornal ou não.

O próprio Caetano não reconhece, não é?
Mas o Gilberto Gil, que é esperto, disse: “inconscientemente, foi”. (risos) Porque o Caetano dizia: “Não, quer dizer, talvez…” Mas ele ia lá buscar a Dedé. Dedé era nossa repórter e eles se casaram. No filme O Sol aparece até o casamento da Dedé e do Caetano. O Sol era encartado (no Jornal dos Sports) e quando ele passou a sair sozinho a gente usou a música dele na nossa publicidade no rádio. O locutor falava e aí tocava a musiquinha dele. É verdade, ele cedeu. Ele cedeu pra gente, como cedeu para o filme da Tetê Moraes e não cobrou nada.

Você adaptou Pedro Mico, do Callado, para os quadrinhos. Foi difícil?
Ah, eu pedi ajuda! Eu não sabia como é que era. Era leitora de quadrinhos, continuo gostando de quadrinhos, mas não a esse ponto. Mas aí, a Leila Name, da Editora Nova Fronteira, me ajudou muito, e também o meu neto Pedro, que ia fazer o texto, mas depois, preguiçoso, só fez uma parte. Então, eu corrigi o texto do Pedro e fiz o resto. Foi bom porque é outra linguagem e experimentar novas linguagens é uma coisa muito boa, completamente diferente. Mas Pedro Mico é teatro. Se fosse um romance, eu ficaria apavorada, porque a linguagem é completamente diferente. Mas no teatro, repare, as falas, os diálogos já são os balões. Pedro Mico foi a peça de Callado que fez mais sucesso. A peça foi encenada muitas vezes e teve até um filme com Pelé… (Ana Arruda dá uma pausa) Callado não teve sorte para o cinema, oh, meu Deus!… Quando ia estrear Madona de Cedro, a Leila Diniz ligou lá pra nossa casa e disse: “Callado, não vá ver o filme, não. A história no filme é uma porcaria”. O Pedro Mico foi um horror. O Ipojuca Pontes resolveu inventar coisas. Há cenas que são um absurdo completo, não têm nada a ver. Mas Callado disse no dia da estréia: “Pelé, estou muito contente. O Pedro Mico tem a tua cara”. Mas a peça fez muito sucesso, só que era sempre com ator branco pintado. Callado ficava horrorizado. Pintavam o cara de preto. Por isso que eu acho maravilhosa A Revolta da Cachaça, que o Callado escreveu sobre isso. É uma peça sobre um ator negro que está furioso porque só faz papel de motorista, de garagista, e ele queria um papel principal. E o amigo dele, que é dramaturgo, promete uma peça em que ele seria o protagonista. Mas ele nunca acaba de escrevê-la. Então, é muito engraçado, porque a peça seria sobre a Revolta da Cachaça e ele entremeia esse fato histórico que se deu no século 17 com a situação dos dois amigos, do ator e do escritor.

Você é leitora de biografias? Este é um gênero um pouco em moda. Por isso mesmo, há bobagem demais sendo escrita? Coisas ruins estão sendo lançadas?
Eu acho que não tem importância que seja ruim ou bom. É comum ter muita biografia aí – e que tenha muito livro. Por exemplo, poesia. Poesia é uma coisa na qual encontro certa dificuldade. Eu só gosto de poesia muito boa. E toda semana eu recebo um livro de poesia não tão bom. Mas, não é bom que sejam publicados esses livros? As pessoas não têm o direito de se manifestar? Eu acho que essa montanha de biografias – porque está na moda – tem esse aspecto positivo. O que eu acho horrível são as biografias só confessionais. A mulher que escreve a biografia dela só pra dizer que o pai a molestou quando ela era menina. Quer dizer, eu acho que é desnecessário, mas esse é um problema meu. Se há muita gente que gosta de ler isso, e se há pessoas que querem contar isso, tudo bem, entende? Agora, o que me interessa nas biografias que escrevo é contar mais a História do Brasil, não tenha a menor dúvida. Todas as minhas biografias são assim.

Você não acha que falta nas universidades, nos cursos de Jornalismo, maior enfoque na História da profissão e da sua prática?
Eu dei essas disciplinas várias vezes. Um dia um aluno que era líder do diretório estava lendo um jornal na minha aula. Aí eu parei e disse: “Eu já lhe dei presença. Então, se você quer ler jornal, fora! Se você quiser ficar, eu tenho muito o que fazer. Mas lendo jornal enquanto estou aqui trabalhando você não vai ficar”. Ele saiu. Aí ficou todo mundo rindo… “Ô professora, ele é do Diretório Acadêmico”. Deixei passar. No outro dia, encontro com ele no corredor. “Escuta, você quer ser líder estudantil? Então, precisa ter vocação política. Sem conhecer a História do País – porque o que eu estou dando é a História do Brasil através da História da Imprensa – vai ficar mais difícil”. “Ah, mas esse negócio de Primeiro Reinado… E eu lá quero saber disso? Quando chegar em 1930, assisto à aula”. Veja só! Eu estava dando naquela aula, da qual ele saiu indignado, os dados sobre uma imprensa interessantíssima, que é a imprensa desaforada do Primeiro Reinado! Coisa deliciosa, com Cipriano Barata… Disse assim: “É a História do seu país, meu filho.” Na outra aula, ele estava e nunca mais faltou. Nem leu jornal em sala. (risos)

Dá para fazer uma comparação do estudante de hoje com aqueles estudantes que faziam O Sol?
Ah, mas quem foi fazer O Sol era um pessoal diferente. Eles já sabiam que aquele seria um jornal experimental. Era todo mundo politizado. Ali havia todas as facções, inclusive as de luta armada. Eu só fui saber depois, porque ninguém ia perguntar quem é quem, imagina! Todo mundo era de esquerda. Era antiditadura. Todos, todos. Como eles tinham posição política, tinham interesse nas coisas. Quer dizer, era uma amostragem diferente. Não sei se os estudantes em geral eram daquele mesmo perfil. Os que foram até aquele projeto tinham muito engajamento. De certa forma, era uma amostragem falsa do que estava acontecendo. Não eram representantes absolutos daquela geração.

Como foi a sua experiência na Tribuna da Imprensa. Você ficou quanto tempo lá?
Ah, pelo que eu me lembro… Quando houve a greve dos jornalistas, em 1962, houve um pacto, que o Chagas Freitas autorizou. Ele era o presidente do sindicato dos donos de jornal e fizeram um pacto. Quem for demitido de um jornal não pode ser admitido em outros. Um pacto cruel pra deixar a gente na rua mesmo. O Hélio Fernandes disse: “eu não faço esse pacto!”. Soube que eu estava demitida, e me chamou. Eu nunca tinha feito Economia, e ele me botou nesta editoria. Foi ótimo pra mim… Fui lá para a Confederação da Indústria dos Jornalistas, já encontrei uns seis economistas amigos…

Ia lhe perguntar isso… Como uma aluna que fazia o científico, apaixonada por Matemática, não seguiu esse ramo da carreira jornalística, a editoria de Economia?
Pois é, nunca me interessou porque eu sempre fui muito contra o capitalismo… (risos) O negócio de ficar na Confederação da Indústria… Fazer a minha coluna era muito divertido, porque a Tribuna estava num momento contra o Governo. E o Roberto Campos era o ministro todo poderoso. Então, a gente ficava só fazendo matéria contra o Roberto Campos. Só dando o cacete! O Hélio é uma pessoa incrível. Quando saía uma coisa muito violenta no jornal, ele era preso toda hora, ou simplesmente chamado a depor. Aí apertavam: “Quem escreveu isso?” Ele: “Tudo que sai no meu jornal é de minha responsabilidade”. Ele nunca deu o nome de nenhum repórter na Polícia. Isso é formidável! Em compensação, tem o outro lado. Um dia estourou o escândalo da Mannesmann. Foi um escândalo terrível. Houve uma inundação de ações da Siderúrgica Mannesmann do Rio. Ações falsas. Acho que foi em 1961. Lacerda ainda era o Governador. Lacerda lutou para prender o Jorge Serpa, ele tinha ódio do Jorge Serpa. Aí é familiar, né? O Jorge Serpa teria sido o responsável por esse derrame. Sabe quando o repórter diz: “Essa pauta é quente!”? Cheguei na Tribuna com uma quantidade de informações fantástica. Quando fui entrando, o Chefe de Reportagem me disse assim: “Ana, o chefe está te chamando”. Aí eu entrei na sala do Hélio, e ele disse: “Ana, o assunto Mannesmann não existe para a Tribuna”. E eu empolgada: “Mas, Hélio… Esse é o assunto do dia no Brasil inteiro. É o único assunto da Economia. E eu tenho muita coisa já levantada”. “Eu estou lhe dizendo, pra você saber que a ordem é minha: este assunto não existe na Tribuna”. Eu ainda insisti: “Mas teve desdobramentos, já marquei uma entrevista amanhã”. “Fique em casa três dias, Ana”. (risos) Àquela altura ele já tinha lá o partido dele, de quem ia tomar dinheiro, né?

Então, havia um interesse comercial aí também…
Evidente… Na Tribuna? O Hélio só fazia jogada. Outra decepção que eu tive foi com uma reportagem que ele me pediu sobre a indústria aeronáutica, sobre as companhias de aviação no Brasil. Eu fiquei eufórica porque meu irmão mais velho, Fernando, tinha sido da Aeronáutica, depois tinha saído, foi piloto civil… E aí eu procurei Fernando e ele me orientou dando os nomes de quem eu podia procurar. Eu peguei um material ótimo, e era uma série de reportagens. Saiu a primeira! Eu estava toda orgulhosa porque saiu com destaque, com meu nome – porque a gente usava muito pseudônimo quando era para atacar o Governo. Eu tinha mais duas matérias já escritas. Saiu a segunda. Aí o Hélio me chama. “Ana, acabou, viu? Você pode engavetar”. “Mas como assim?”, perguntei. “Não vai sair mais nenhuma”. Ele já tinha tomado dinheiro das companhias de aviação!

Então você ficou com uma reportagem nunca publicada…
Não dava tempo de chorar, já tinha outra pra fazer… Eu vinha fazendo um monte de matérias, uma atrás da outra. Recentemente descobri tantos artigos e coisas minhas que não lembrava que eu tinha feito…

Isso pode vir a ser editado?
Não. Não pretendo. Vou continuar fazendo o mesmo: biografias de mulheres.

Você trabalhou no Jornal de Vanguarda, com Fernando Barbosa Lima. Fale um pouco dessa experiência.
Ah, na televisão! O Jornal de Vanguarda era meio revista. Eu fazia a parte de costurar os textos. Eu fazia os textos de ligação e as notícias. E uma coisa muito boa do Jornal de Vanguarda era o Cid Moreira. Cid ainda não era famosérrimo, mas era um excelente locutor, e o Cid me ensinou muito porque eu não tinha muita experiência com a linguagem da televisão. Então eu escrevia o texto que ele ia ler, e o Cid chegava antes e lia… E ele falava: “Ana, essa palavra aqui é melhor mudar, está um pouco longa”. E ele me ensinou muito. E outra história fantástica do tempo da televisão é que o Newton Carlos, que participava, falava no programa. Um dia chegou pra mim e disse: “Ana, você me dá licença, depois eu vou te falar o que vou apresentar hoje no programa, mas é que agora eu tenho que descer porque falaram que tem dois rapazes que estão querendo conversar comigo lá embaixo”. Isso era dia 10 ou 12 de dezembro de 1968. E o AI-5 foi no dia 13. E eu disse: “Como é que é, Newton? E você vai descer assim, sem saber o que é?”. E ele: “Por quê? Você acha que pode ser alguma coisa? Será que vão me convidar para ser paraninfo?” Eu disse: “Newton, fica quieto! Você acha que a essa hora da noite alguém vem à televisão para convidar você?”. Newton é muito ingênuo até hoje… (risos) Então o Cid Moreira disse: “Ô Ana, eu desço para comprar cigarro no botequim em frente e dou uma olhada. Quando ele voltou, disse: “Newton, não são dois rapazes, não. São dois carros cheio de rapazes!”. (risos) Newton fugiu. Eu não lembro quem foi com ele… mas foi alguém da televisão que descobriu uma passagem que tinha no prédio, e ele foi para o outro edifício e depois para o outro. Depois proibiram o Reynaldo (Reynaldo Jardim) que fazia um quadro chamado Barrabás. Ele não poderia aparecer mais. A censura havia chegado ao Jornal de Vanguarda… Aí o Fernando disse: “Tá ficando difícil fazer jornal”. E eu perguntei: “Você vai aceitar isso, Fernando?” Ele disse: “Claro. Eu tenho que manter o jornal”. Tinha anunciante, tinha tudo. Aí ele cortou o Reynaldo.

Como era trabalhar com o Fernando?
Ótimo. Fernando era uma pessoa adorável. Eu trabalhei com ele na Esquire (uma agência de propaganda que ele fundou). Fernando era uma pessoa cautelosa demais. Mas graças a Deus que ele era um homem cauteloso porque ele conseguiu segurar o jornal dele.

Como foi participar da produção do filme A Paixão Segundo Callado, do José Joffily?
Foi muito bom. Era uma idéia da Tessy Callado, filha dele. E nem me lembro como se desenvolveu. Eu não conhecia o Joffily e ele tinha uma vantagem… parece que é bobagem o que eu vou dizer, mas ele não conhecia a obra de Callado. Ele me disse: “Ana, eu não li quase nada da obra de Callado”. Eu disse: “Joffily, não tem importância, porque aí você vai ter um olhar diferente.” E ele fez realmente um filme muito bom. Eu gosto muito. Mas ele pessoalmente é uma pessoa interessantíssima e pegou muito bem. É que o assunto não se esgota, assim como a fotobiografia não vai esgotar. Mas é um bom documentário sobre Callado, porque pegou vários vídeos em que o próprio está dando depoimentos e várias pessoas falando dele também. E a Regina Zappa fez um bom roteiro.

Jornal da ABI – Gostaria que você falasse um pouco de outro projeto que está tocando: a fotobiografia do Callado…
Ana Arruda – É, esse está me dando muita alegria, muito trabalho, muita aflição.

Você chegou a fazer um pedido para lhe enviarem fotos, fez um apelo público…
Foi o Ancelmo Gois. Ele publicou na coluna. E o Arquivo Nacional ofereceu. Agora, eu tive que comprar dos jornais… Comprei fotos do JB e da Folha de S.Paulo, onde Antônio trabalhou anos. Eles não cederam… O Arquivo Nacional me deu de graça, mas os jornais, não. Eu contei a todos do que se tratava. Pedi ao Jânio de Freitas, com quem não falava há anos, para me indicar com quem eu deveria falar na Folha. A moça que me atendeu, secretária do Otavinho, o Otávio Frias, foi da maior gentileza: “Dona Ana, claro, podemos lhe ajudar”. Eu pensei que ela fosse me mandar as fotos. Aí veio a fatura! Quem vai editar a fotobiografia é o Governo de Pernambuco, que, aliás, só depois é que eles me disseram: “Ana, a gente podia ter comprado as fotos, mas elas têm que vir em nosso nome…”. Eu digo: “Veio a fatura em meu nome e eu já paguei”. Em matéria de dinheiro eu sou um fracasso absoluto. (risos) A fotobiografia é uma idéia interessante, porque de vez em quando eu escrevo sobre Callado uma coisa ou outra… E eu tenho um sobrinho, aliás bom jornalista, o Pedro Tinoco, que um dia me disse: “Ah, tia, eu vou fazer a biografia de Callado”. Eu logo reagi: “Tenha modos, menino. Você não vai fazer nuuunca”… Agora ele está me ajudando, já temos uns textos. E eu pensei: “Pô! Mas uma fotobiografia é diferente. Porque nela cabem pequenos textos que várias pessoas podem fazer. E assim estamos fazendo. Já acabamos a pesquisa. O material já foi todo levantado. Nós fizemos uma pesquisa gigantesca. Inclusive todo o arquivo dele, que eu doei para a Casa de Rui Barbosa, eu consultei. Eu doei sem ler, sem olhar, porque aquilo para mim era muito doloroso. Muita coisa eu fui ver só agora.

O livro vai acrescentar algum dado novo sobre a personalidade ou a trajetória do Callado que as pessoas ainda não conhecem?
Acho que muita coisa. As pessoas não conhecem mais nada. Vamos partir desse princípio. Capaz de nem saberem quem foi Callado. Porque nós estamos descobrindo muita coisa, entendeu? Por exemplo, a fase dele em Londres. Eu sabia por alto. Mas teve um livro ótimo chamado Vozes de Londres. E nós descobrimos coisas maravilhosas no jornal e sobre o teatro dele. A Helô, nossa sobrinha, é cenógrafa e foi à Funarte. Tem um material vasto, coisas incríveis sobre a peça dele montada lá em Porto Alegre pela Tônia Carrero – eu nunca soube que o Frankel tinha sido encenado por ela no Teatro São Pedro também. Então, há muita coisa, muita coisa. Claro que não muda o perfil dele. Mas acrescenta informação. A história dele pequeno, das tias, das irmãs.

Qual é a previsão de lançamento dessa fotobiografia?
Essa fotobiografia está me dando muita emoção, porque estou descobrindo uma porção de coisas… Mas não sei ainda qual a previsão. O pessoal de Pernambuco está me cobrando… Agora, eu vou fazer uma viagem para a Europa no final de abril. Então, na metade de abril esse livro tem que estar pronto, no Recife. E o da Berta também. Estou fazendo os dois ao mesmo tempo. Quero entregar tudo antes de viajar. Este ano os dois livros serão publicados.

Como foi exatamente o encontro entre você e o Callado? Como é que foi o início dessa história?
Já contei tanto, mas vou contar outra vez. Callado era já uma admiração minha desde que li Quarup. Inclusive, quando li este livro estava fazendo um trabalho para a Editora Civilização Brasileira. Fiz uma tradução para o espanhol, uma bobagem, estava precisando de dinheiro. Acho que foi em 1965. E aí, na editora tinha um gerente. Era o Coronel Cardoso. Esse coronel virou para mim, e disse: “O Enio está doido. Publicar esse livro de Callado, um livro desse tamanho, que ninguém vai ler. Esse tal de Quarup, uma chatice”. Aí eu mandei: “Eu li, acho que o senhor está enganado. Gostei muito do livro”. Então, desde o início, eu tinha essas notícias sobre ele. Quando houve, eu me lembro bem, a leitura de uma peça, nesse dia eu fiquei suspirando. Ele entrou acompanhado, e eu suspirando. Aí, a mulher do Reynaldo, a ‘Vaizinha’ disse: “Fica quieta, Ana! Ele é muito velho pra você!”. E eu: “Mas ele é maravilhoso, não é, não?”. Foi uma leitura de uma peça do Plínio Marcos. Havia sido proibida, e então fizemos uma leitura do Abajur Lilás. E os ‘caras’ vendo, sabe? Depois, fui trabalhar numa livraria chamada Carlitos, aqui no Leblon, que era de três amigos meus. Eu estava desgostosa um pouco com essa história de jornal e fui pra lá, pensando inclusive em ser sócia. Isso nunca ocorreu porque a livraria acabou. As coisas sempre acabam… Aí, ele ia nessa livraria. De vez em quando, Callado ia lá. “Ah, eu preciso dar um presente, o que você recomenda?”. Ficava nisso. Um dia, ele lançou o Bar Don Juan. Quando saiu, eu li, chorei de montão como não chorava desde que lia os livros lá na fazenda, escondida. Fiquei muito emocionada com aquele pessoal, aquele fracasso, enfim. Aí encontro o Armando Lutzenberger, amigo de velha data. “Pô Armando, gostei tanto do Bar Don Juan!”. E ele: “Ana, liga para o Callado e diz isso. Ele está arrasado, porque os amigos dele, gente de esquerda, está todo mundo xingando, dizendo que este é um livro cheio de deduragem, que ele está traindo a esquerda brasileira, ridicularizando…”. Disse: “Ah! São loucos! Não vi nada disso!”. Era a boa e velha ‘patrulha’, né? “Não vi nada disso no livro”, repeti. Ele reforçou o conselho: “Então, liga pra ele e diz isso”. Eu pensei, não vou fazer isso não, dar uma de enxerida, mulher oferecida… (risos) Mas fiquei dois dias com isso na cabeça até que peguei o telefone e liguei! Estava na livraria: “Olha, eu liguei pelo seguinte: amei o Bar Don Juan”. “Ah, Ana. Que maravilha! Você vai me contar isso em detalhes. Quando é que você pode jantar comigo?”. Marcamos um jantar no Álvarus… E, realmente, estávamos os dois querendo um encontro, não é? E a partir desse dia começamos a namorar, digamos assim, e ficamos nisso seis anos. Durante seis anos… Porque tem uma coisa delicada, mas que todo mundo sabe: a mulher dele ainda estava viva, morando na Inglaterra. Eles estavam separados há tempos, mas não tinham ainda se separado de fato. Ela estava muito doente, e aí nesse meio tempo veio pro Brasil, foi pra casa dele, criou-se uma situação chata. O doutor Márcio Alves, me telefonou, e disse: “Ana, vou te pedir um favor: não liga pra casa do Callado’. “Eu sei, Marcio, não sou doida”. “A Jean está muito mal. Vem aqui em casa quando você quiser falar com ele”. Enfim, os amigos estavam todos muito preocupados com aquela situação. E ela morreu na véspera de eu ser presa. Callado voltou do enterro, e quando chegou no jornal, o avisaram: “Ana foi presa”. Nossa Senhora, que tempos! Ela morreu, passou poucos meses aqui, estava terminal. E nós continuamos.

Você ficou quanto tempo presa?
Você sabe que eu já contei tanto essa história, que me esqueço de quantos dias foram? Foram 40 ou 50 dias… Foram 42 de Doi-Codi e oito de quartel do Exército! Eles botavam a gente lá, no que costumavam chamar de ‘câmara de compensação’. O cara que mergulha não tem que ficar numa espécie de ‘câmara de compensação’? É mais ou menos isso. Diziam que eu ia sair de lá doida. “Não vai sair bem, não. Se sair de lá, vai sair doida”. Mas aí nós nos reencontramos. As visitas foram possíveis no quartel. No Doi-Codi, nem pensar… Callado foi uma vez lá… Ele me levou um livrinho, pois sabia da minha paixão por Joana d’Arc desde os tempos da fazenda, e um relógio de presente de aniversário, pois eu tinha feito aniversário na cadeia, no Doi-Codi. Aí, veio o major, que era metido a ser simpático e amável, sabe aquele tipo? “O relógio; o senhor quer?”, eu perguntei. “Não, o relógio você pode levar, pode ir com ele pra cela. Mas o livro eu quero”. E o idiota ficou três dias olhando as marcações. Todos os livros de Callado, se você olhar qualquer livro que foi dele, é cheio de marcas. Ele tinha um lapisinho, e fazia assim umas marquinhas naqueles trechos que ele achava importantes ou que ele queria usar pra alguma coisa. O cara ficou estudando para ver se aquilo não era uma espécie de código. Agora, por que Callado ia passar código para mim àquela altura? Só me liberaram o livro quando saí, né? Ai, meu Deus! Aí, o julgamento só foi anos depois. Fui presa em 1973, e o julgamento foi em 1977.

Mas você foi presa acusada exatamente de quê?
Todas as coisas que você puder imaginar. Diziam que eu pertencia a uma terrível organização criminosa que tinha feito assaltos… Só não disseram que tinha matado gente. Nunca peguei numa arma, posso garantir a vocês. Agora, de fato, participei de um grupo em que havia uma parte que queria fazer ações… Chegaram a fazer dois ou três assaltos. Metade morreu. Era um pessoal que não tinha cabeça. Aí, o Modesto da Silveira, que é o meu advogado, quando ia ter o julgamento, disse assim: “Olha, Callado: eu acho melhor vocês casarem. Se a Ana for condenada, imagino por uns três ou quatro anos, você não vai poder visitá-la se não estiverem casados. Eles são muito rígidos nisso”. Houve o julgamento, fui absolvida! No julgamento teve um momento tragicômico. Uma semana! Foi um massacre, uma semana, aquele bando… Não era só eu, não. Éramos 13 pessoas. Aquela coisa horrorosa. E duas coisas maravilhosas. Tem que contar as coisas boas, né? O Modesto: “É possível você conseguir cartas de pessoas que te conhecem? Isso influencia muito”. Aí eu fui pedir uma ao Doutor Prudente de Moraes. Ele era diretor de A Noite. Fui lá, ele sempre com sorriso amável. “O que é, Ana?”. Eu contei. “Doutor Prudente, é um pedido chato, imagina, eu vou ser julgada pela Auditoria”. Ele riu. “Qual é a auditoria, você sabe?”. Digo: “Não, não sei nada”. “Sei. E quem é que vai lá depor?”. “Não sei, ainda não tive a coragem de pedir a ninguém, é uma coisa muito séria pedir a alguém para ir à Auditoria depor”. Ele disse: “Eu vou”. Eu quase desmaiei. Disse: “Doutor Prudente, o senhor não vai fazer essa maravilha…”. “Vou! Eu vou”. E o Alberto Dines fez a mesma coisa. Eu fui pedir uma carta a ele, que disse: “Ana, eu vou depor”. Quando o Doutor Prudente entrou, havia o major e dois tenentinhos. Nossa! Eles só faltaram fazer reverência ao Doutor Prudente, que era considerado um dos líderes civis de 1964. O Callado foi assistir. E num dos depoimentos disseram que ele seria um dos líderes do movimento. Tudo mentira, Callado nunca se meteu nessas coisas. Aí, o Osvaldo Mendonça, um dos advogados, tinha aquele monte de ajudantes, disse: “Ana, não se assuste. Eu vou usar o nome de Callado na defesa que vou fazer”. “Faça o que achar certo, Osvaldo”, respondi. E ele disse assim: “Este processo é tão absurdo, que consta aqui que ‘Antônio Callado seria um dos líderes do grupo julgado… ‘. E eu estou vendo o Callado ali, olha só, assistindo a tudo. Ele não deveria estar no banco dos réus?”. Quer dizer, ele desmontou tudo, mostrou que não havia lógica naquele processo… Quando acabou, fui absolvida. Todos nós fomos absolvidos, menos os três que tinham realmente feito bobagens. Até hoje eu tenho pena, mas enfim… Aí, nunca me esqueço disso: o Callado se sentou, tinha uma cadeira, parecia uma cadeira de balanço: “Ana Arruda, quer dizer que quem decide a nossa vida é a Auditoria Militar, é? Você acha isso correto?” Eu disse: “Como assim?”. “Olha, se você fosse condenada, nós iríamos casar. E agora que foi absolvida, não vamos?”. Bem, isso queria dizer que nós iríamos nos casar mesmo.

Callado também teve episódios em prisões…
Teve sim, esteve preso quatro vezes. Mas as prisões dele foram todas anteriores ao meu caso.

Eu fiquei presa sozinha o tempo todo! A cela era enorme, só tinha uma porta
que abriam toda hora, a qualquer momento… e tinha uma janela altíssima
e a luz ficava acesa o tempo todo em cima da cama. O tempo todo.
Fiquei ali 42 dias sem olhar para a minha cara. E… meu pai morreu…

E que marcas essas prisões deixaram no Callado?
As prisões? Eu acho que nenhuma. Ele tirou de letra. Callado era tão racional… Não esquece que ele participou do Bogotazo e, segundo o Joel Silveira, subiu no hotel em chamas para pegar a máquina de escrever e as anotações dele quando já ninguém podia subir. Assistiu ao bombardeio em Londres. Então, ele achava a prisão uma besteira. Ele foi preso uma vez com o Glauber (Glauber Rocha) e outras pessoas, e ele dizia que só a presença do Glauber já dava para ninguém ficar deprimido, nem com medo. No primeiro dia estava todo mundo meio constrangido, e aí… aí tem um detalhe importante. Numa cela com várias pessoas, como é que você vai fazer suas necessidades num lugar onde só tem uma privadinha aberta, onde todo mundo vê? Todo mundo olhando um para o outro e Glauber diz: “Que bobagem é essa? Eu, hein!” E sentou no vaso e todo mundo perdeu o medo. Prisão em grupo… Agora, eu fiquei presa sozinha o tempo todo! É horrível! Só, só, só. A cela era enorme, só tinha uma porta que abriam toda hora, a qualquer momento… e tinha uma janela altíssima e a luz ficava acesa o tempo todo em cima da cama. O tempo todo. Fiquei ali 42 dias sem olhar para a minha cara. E… meu pai morreu…

E você não pôde ir ao enterro de seu pai?
Não, me levaram para o enterro! O Fiúza de Castro chegou lá e disse assim: “Ana Arruda…” ai… que homem mais asqueroso!… O Coronel Fiúza de Castro era o chefe do Doi-Codi. E ele disse: “Ana Arruda, para você ver como nós somos muito melhores do que vocês… eu quero lhe avisar que seu pai faleceu, mas que eu vou deixar você ir ao velório dele. Duvido que vocês fizessem isso comigo se fosse o contrário.” Aí eles estiveram no velório o tempo todo só para me baquear mais. Por exemplo, eu estava com o famoso macacão cheirando a vômito que me deram depois de eu estar presa e sem roupa. Mas quando fui ao velório me deram a minha roupa que eu tinha entrado e falaram: “Pode tomar banho”. Me levaram para o chuveiro com que era todo aberto. Aí ficavam passando uns caras dizendo cafajestagens! E isso antes de ir ao velório do meu pai! Aí eu fui, acompanhadíssima claro, com escolta… Foi uma coisa tão horrorosa porque eu sabia que eu ia voltar! O que adiantava prorrogar? No velório, me perguntavam: “Você não quer ficar mais um pouco?” Eu disse “Não. Eu vou embora. Não tem nada pra mim aí.” Quando eu voltei, eu estava deitada e, de repente, a porta abriu violentamente! Em geral eles abriam a portinhola, jogavam o capuz para eu colocar e aí eu saía. Dessa vez, não! A porta foi aberta com violência e entraram três caras com metralhadora e um magrela… Nunca esqueci aquela cara! Um magrelinho com instrumentos de médico e me tiraram a pressão. E ele falou: “É comunista mesmo! Só pode ser! Filha da puta! Voltou do enterro do pai e está com a pressão boa.” Os caras pensavam que eu pudesse ter uma baixa…

Seu pai soube que você foi presa?
Não, não! A minha irmã Margarida, maravilhosa – oh, Margarida! Na hora que eu entrei no apartamento, ela me segurou e disse: “Ele não soube, Mirta! Eu disse que você estava viajando. Fique tranqüila.”

Como você foi presa?
É outro momento de burrice. A gente tem uns momentos de burrice… Eu estava na Editora Delta trabalhando quando entram dois caras: “Ana Arruda! Você vai nos acompanhar agora!” Eu disse “Como acompanhar agora?” E eles: “Nós estamos dizendo: levanta e nos acompanhe”. Aí, vi que eles estavam num carro. E a Maria Inês Duque Estrada foi maravilhosa. Ela estava na mesma sala e percebeu o que ia acontecer e ela disse: “Ana, você vai sair? O trabalho está no meio! O que é que eu digo para o Guga? Não pode sair assim, não!”. E eu respondi: “Não, eu volto logo, vou só tomar um café com eles e volto logo”. Mas ela desceu com a gente e eu falei com ela baixinho: “Maria Inês, vá embora antes que a situação piore”. Logo que entrei no carro, já começou: me botaram no fundo do Fusca, os caras com as pernas em cima… mas, enfim, é uma experiência que a gente não quer pra ninguém no mundo. Ninguém, ninguém… Eu não falava sobre isso antes. Olha só… isso que eu estou contando a vocês comecei a contar há pouco tempo e aos pedacinhos. E acho que eu nunca fiz um relato tão completo. Porque há um lado… que você deixa de ser gente por um tempo, sabe? É tão esquisito, é tão esquisito…

É algo tão surreal que a própria pessoa se sente meio envergonhada do que sofreu, não é?
É… é. A tal da geladeira, que eu fiquei não sei quantos dias, sabe?… O Modesto (Modesto da Silveira) fez as contas e ele acha que eu fiquei três dias. Mas é uma coisa de uma loucura tão grande porque primeiro nos jogavam lá… Era um cubículo escuro, paredes negras, e de repente eles acendem uma luz no teto fortíssima, uma luz absolutamente forte, pra cegar! Então eles tocavam música alta, um som altíssimo… e aquela luz. De repente apagava e vinha um frio, um frio de tiritar! Frio e calor, luz e escuridão. E você sem noção de onde é. De onde vem. Porque de repente abriam aqui, depois abriam ali, depois ali… Ah, eles queriam te aniquilar… (silêncio). Enfim, até hoje eu não sei se o Fiúza de Castro está vivo ou está morto. Ele é filho de um famoso Ministro da Guerra que foi logo demitido. Esse cara me deu… foi a única vez na vida que tive vontade de matar alguém! Há uma semana eu disse isso e a pessoa que escutava disse assim: “você diz isso no sentido figurado, não é?” E eu respondi: “Não! Se eu tivesse encontrado três pessoas com esse mesmo sentimento eu fazia! Eu saía e matava!” Porque não pode ser pior! Sabe aquele cara cínico? Ele falava: “Está vendo? Essa roupa que a gente põe em vocês, é porque vocês são mulheres. E tem muito homem aqui. É para vocês não ficarem muito atraentes.” Sabe… todas aquelas perversidades… (silêncio). É isso! Corta… (Ana Arruda sorri)

Como foi a sua vida, a partir do casamento com Antônio Callado? Como era a convivência entre dois escritores?
Pra começar, eu não me considerava escritora. Nem era, eu era professora e ele já era um escritor e, para mim, um dos maiores que o Brasil já teve. Era jornalista. Aliás, ele fala muito bem sobre essa relação de jornal e literatura… Ele sempre quis ser dramaturgo e romancista. Jornalista ele foi para ganhar dinheiro e conhecer o mundo. Mas Callado, para começar, era uma pessoa 20 anos mais velha do que eu. E eu sempre recomendo às pessoas essa diferença, porque os homens são mais imaturos do que as mulheres – vocês que me perdoem. (risos) Então, com um homem mais velho, aí dá pra gente conversar… Ele já tinha casado, já tinha tido os filhos dele… E eu dizia que só casaria se eu encontrasse um homem mais feminista do que eu. Encontrei. Callado era uma pessoa que adorava as mulheres e tinha uma solidariedade! No filme do José Joffily (A Paixão Segundo Callado) há um depoimento da Fernanda Montenegro assim: “Callado ouvia a gente! Eu acho que ele tinha um lado feminino.” A Fernanda era muito amiga dele, gostava dele. Nós vivemos juntos 16 anos. E a gente tinha um entendimento muito bom, pois eu cuidava das minhas aulas, ele não interferia no meu trabalho, eu não interferia no trabalho dele… E ele, quando estava escrevendo ficava muito quieto, mas às vezes me chamava: “Ana Arruda! O que é que você está fazendo? Vem pra cá.” E eu falava: “Não… Eu estou jogando paciência. Não tem nada a ver.” E ele: “Eu gosto desse ‘plec-plec’ das cartas quando você joga paciência!” (risos) Ele não sabia nem como era baralho… E eu gosto muito de paciência. Até hoje eu jogo, com baralho… nada de computador. Então a gente tinha essa coisa… E tinha , por exemplo, no fim do dia… eu chegava da faculdade e ele tinha trabalhado nos originais… Era aquele ritual bom: eu ligava a televisão para ver o noticiário; ele levantava, tirava gelo, botava os copos, eu fazia dois drinques e a gente ficava vendo jornal, tomando nosso uisquinho, sabe como é? Jogo de futebol a gente via junto. Ele era Flamengo. Eu sou Fluminense. Então, quando o Flamengo jogava com o Fluminense, a gente ficava quieto, um com o outro. Mas quanto o Flamengo jogava com qualquer outro time, eu torcia contra o Flamengo, porque eu torço contra o Flamengo qualquer que seja o adversário dele. E ele dizia assim: “Ana Arruda! Não vá torcer contra o Flamengo, não, hein?” E eu: “Não, meu bem, claro que não…” Aí o outro time começava e eu ficava “vai, vai!” (risos) Era isso. Era um companheirismo muito bom. Depois eu descobri Maricá. Íamos para a casa de Maricá. Ele adorava o mar, ele adorou a casa de Maricá. Dormíamos e o mar batendo praticamente na porta da casa. Foram tempos muito bons aqueles de Maricá. Agora, eu falo até hoje, vocês estão vendo que eu falo com entusiasmo, eu ainda sou apaixonada pelo Antônio Callado. Fui e sou. Mas ao mesmo tempo, eu nunca fui uma viúva triste. Sabe do que eu gostava dele? Quando ele falava pra mim: “Bobagem… Não seja boba!”. Agora, quando eu queria cair assim, na tristeza e pensava: “O que eu estou fazendo assim na vida, sozinha?” Eu ouvia a voz dele dizer assim: “Não seja boba!”. Foi muito bom, muito bom…

Neste ano, você está fazendo 55 anos de profissão. Já reparou isso? Você começou em 1958 no JB.
É… taí, vou marcar isso.

Nós acabamos de falar aqui sobre seis décadas de jornalismo, de vida acadêmica, de casamento. Tudo valeu a pena?
Vale. Eu acho que eu vivi e estou vivendo… não quero ficar muito velha, não. Eu fico horrorizada! (risos) Comemorei meus 75 anos no ano passado com uma grande festa! Este ano vou ser mais moderada. Então, não sei se pretendo escrever muitos livros mais. Ah, sim! Eu esqueci de dizer que voltei para Araruama! Voltei para a nova infância, né? Com esse mesmo irmão, que era o meu grande companheiro na fazenda de meu pai, comprei um sítio em Araruama muito lindo. E é claro que um dia vou morar lá. Mas não sei quando. Nós temos patos, marrecos, vacas, meu irmão faz queijo… Tem três vaquinhas e ele faz queijo.

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s