Eliakim Araujo

Eliakim Araujo em sua residência. Foto de Francisco Ucha.
“É importante estar sempre na luta, nunca se acomodar”

Entrevista concedida a Francisco Ucha
Publicada no Jornal da ABI 370, de setembro de 2011

Vamos resgatar um pouco da sua história? Como foi o seu início profissional?
Eliakim Araujo – Hoje, me preparando para a entrevista, fui mexer numa gaveta e resgatei minha primeira carteira de trabalho, eu tinha 20 anos. E o meu primeiro contrato foi com a Rádio Continental, como redator, no dia 1º de junho de 1961. Fiz 50 anos de profissão! A Rádio Continental era do Rubens Berardo. O chefe do jornalismo era o Paulo Goldrajch, um grande criminalista, mas também um grande jornalista. A gente estudava junto desde o vestibular e falei:
“Paulinho, eu precisava trabalhar, ganhar algum”. E o Paulinho me botou como redator.
Mais tarde, ainda na Continental, peguei a renúncia do Jânio, em 1961, e a anunciei na rádio! Então, passei a ser redator e locutor. Eu redigia e ia para o microfone. Tudo era muito precário, mas muito bom de aprendizado. Tinha um rádio-escuta, e as informações sobre o Jânio eram de que ele pegou um avião e ia para Viracopos, quando renunciou em agosto, logo depois daquela cerimônia em que ele condecorou o Guevara. E a gente fazia muito de improviso, do jeito que o telex chegava! Eram poucas as agências de notícias e eu ia para o microfone e lia em cima do telex! Muito legal.

Você nasceu em Guaxupé. Quando entra o Rio de Janeiro na sua vida?
Eliakim Araujo – Meus pais são pernambucanos. Papai era funcionário do Banco do Brasil no Nordeste e para ascender no trabalho viu que tinha que se mudar. Então, de Pernambuco conseguiu transferência para São Paulo, de São Paulo para Minas, e eu nasci em Minas. Sou o único mineiro da família! Depois ele veio para o Rio. No banco, os colegas dele eram quase todos nordestinos e o Rio de Janeiro era uma cidade de funcionalismo público. E papai era um desses milhares de nordestinos que vinham através do banco ou através do funcionalismo público. Eu era muito pequeno, vim de carona. Papai trabalhava na agência de Madureira e ali ficamos. Nós éramos seis irmãos. De Madureira fomos para a Tijuca, já garoto, adolescente. Na Tijuca, fiz o ginásio no Colégio Batista e o clássico no Lafayete. Daí, fiz a Faculdade de Direito, não fiz Jornalismo. Fui para a Faculdade Federal de Direito em 1961. Sou da última turma da FDB, que no ano seguinte passou a ser UFRJ. E eu peguei o golpe nesse período, exatamente no quarto ano da faculdade.

Então, você já trabalhava na rádio?
Eliakim Araujo – Sim, eu entrei na rádio no primeiro ano da faculdade, mas não fiquei lá nem um ano, porque eles não pagavam salário, não pagavam nada. No dia da renúncia do Jânio pagaram um pouquinho. Consultei um advogado, Cláudio Jorge, que era um advogado trabalhista e todos entraram com uma ação. E a emissora não mandava advogado, e o juiz determinava na hora. Então uma dívida que era de 60 mil, passou para 142 mil, e eu ganhei seis meses depois. Tanto que, com esse dinheirinho, comprei o meu primeiro fusquinha. Aí, com essa experiência de rádio, fiquei um pouco afastado. Voltei dois anos depois para a Rádio Eldorado, que era uma emissora do Estadão no Rio de Janeiro. Uma coisa curiosa: entrei na vaga do José Carlos Araújo. Aí a Globo comprou a Eldorado no período em que eu estava lá; o José Carlos foi fazer ponta no Esporte e eu entrei nessa vaga que surgiu via Orlando de Souza, o chefe dos locutores e amigo do José Carlos, que tinha sido meu colega. A partir daí nunca mais larguei.

Detalhe mais como você passa de redator para locutor. De onde vinha essa vocação?
Eliakim Araujo – Entrei na Rádio Continental para ser redator. A gente pegava o telex e transformava em texto. Eu estava na faculdade, gostava de escrever. Mas apareceu uma vaga de locutor, e falei: “Por que não posso ser locutor também? Vou fazer um teste”. Então passei a acumular as duas funções. Por que eu dou para isso? Não sei, seria uma vocação? O que me lembro é que desde garoto gostava de ficar imitando os locutores de rádio. Tinha um professor de Química que era meio surdo, e as aulas eram num anfiteatro. A turma era muito sacana, e eu ficava lá atrás imitando a Rádio Relógio Federal: “ao terceiro sinal, dez horas e doze minutos”, e a turma inteira “Pi! Pi! Pi!” (imitando as batidas do relógio da rádio) O professor ficava doido. Ninguém queria saber de Química, eram todos do ramo de letras. (risos) Desde pequeno eu gostava muito de ouvir rádio, escutar noticiário. Lembro dos prefixos dos noticiários da Rádio Nacional. Isso é coisa de maluco, só um cara muito maluco é que guarda isso! Acabei indo fazer Reportagem Ducal na Rádio Continental. Ducal era uma loja de roupas famosa. Mas sempre fiz redação também. Mesmo na Rádio JB eu participava do fechamento do jornal. Era uma novidade. Naquele tempo, locutor era locutor e redator era redator. Ana Maria Machado, chefe de jornalismo da Rádio, gostava de sentar comigo e a gente fechava o jornal juntos. Dava palpite aqui e ali, às vezes sentava para escrever. Depois, quando cheguei na Globo, a Alice Maria me pediu: “Quero que você escreva também”.

Na Globo você foi contratado com essa condição?
Eliakim Araujo – Não com essa, mas já começava um processo de renovação. O padrão era Cid Moreira, o locutor puro, nato, muito bom, excepcional. (Sergio) Chapelin, que tinha sido meu colega na Rádio JB, era o locutor standard. Eu vinha da Rádio JB, onde havia um programa de debates às 9 da manhã. Quando saí do Noturno, em 1980, tentamos fazer uma rádio all news, que era uma novidade – como hoje faz a CBN –, e eu fiquei encarregado de coordenar a rádio. Então, saí dali e fui para o horário matutino, que era das 6 às 10, e ali criamos um programa de debates com o Paulo Goldrajch, que foi o meu primeiro entrevistado. Tudo de improviso. Comecei o programa e disse: “Se você quiser participar, faça uma pergunta, nosso convidado é o advogado Paulo Goldrajch” e o tema era o linchamento de Macaé, um acontecimento horrível que tinha ocorrido, de violência. Foi um monte de telefonemas. Aí chega o Carlos Lemos, o Diretor da Rádio: “O que é isso que eu ouvi aí? Gostei! Vai continuar amanhã”. E eu disse “Mas Lemos, não tenho estrutura, foi tudo de improviso”. “Pega uma pessoa do jornalismo para trabalhar com você”. Aí eu chamei o André Luiz Azevedo para ser o meu produtor. O debate das nove horas foi um programa que marcou muito. Então quando eu saí e fui para a Globo, fui com esse know-how todo, que já tinha adquirido na rádio. Foi por isso que a Alice Maria falou que queria que eu redigisse, que tivesse uma participação maior. Funcionou até certo ponto, porque na Globo é impossível ter liberdade total. Você pode ir até a página cinco, dali em diante não pode. Certas expressões que você usa… por exemplo, não podia dizer que Pinochet era ditador. “Ditador Pinochet, de jeito nenhum, não se diz aqui. É o Presidente Pinochet.” “Mas ele é ditador!”, eu dizia. “Mas não pode”. São as regras da Globo, que sempre existiram e sempre existirão.

O jornalismo não era a sua meta na faculdade?
Eliakim Araujo – Não, eu entrei para fazer curso de Direito.

Você se via como advogado?
Eliakim Araujo – Não. E achei que eu tinha vocação, porque todos da minha turma foram fazer Direito.

Quando você decidiu?
Eliakim Araujo – Eu não decidi. Foi o acaso que me levou à rádio. Até o primeiro ano fui um bom aluno de Direito, com notas altíssimas, grandes professores. Mas eu fazia política, e a política foi roubando o tempo do estudo. Aí veio a rádio, misturou com a política e fui deixando o curso em segundo plano. Mas concluí, fui até o final, consegui me formar em Direito. Mas a partir dali eu percebi que o meu negócio era o jornalismo, era o que estava na veia e segui em frente.

Quando você começou na Rádio Jornal do Brasil?
Eliakim Araujo – Comecei na Rádio JB em janeiro de 1965 e fiquei até maio de 1983. Você entrava como locutor puro. De três em três horas trocava o locutor. Era música e informação. O Chapelin entrou junto comigo, dois ou três meses antes. Éramos os garotos da rádio. Havia veteranos lá, Jorge da Silva, Alberto Cury, só tinha estrelas, e nós éramos novinhos, eu e o Chapelin temos exatamente a mesma idade. E ali entramos e começamos a revolucionar, porque havia um estilo impostado de voz e a gente começou a mudar isso. O titular era o Cury, mas quando apresentávamos o jornal como um dos locutores substitutos, começamos a dar um tom mais informal na transmissão da notícia. Comentário não tanto, porque rádio é pauleira. Mas era um modo mais interpretativo, passar alguma mensagem nas entrelinhas, isso eu fiz muito na época da censura, e o público entendia isso. Você pode ler exatamente o que está escrito, mas consegue interpretar só com a inflexão de voz, as pausas. Isso a gente fez muito.

“Quando saí do estúdio, Alberico Sousa Cruz, que estava de plantão, me disse: ‘Mas como é que você faz isso?’ ‘Fiz isso porque não concordo com o que está escrito’. Mas tiveram que me engolir, porque se me demitem por um negócio desse eu ia botar a boca no mundo.”

Você era rebelde?
Eliakim Araujo – Eu gostava da rebeldia. Uma das grandes rebeldias que fiz na Globo foi que aos sábados eu apresentava o Jornal Nacional no lugar do Cid, eu e eventualmente o Léo Batista, e era uma época em que a Globo estava baixando a porrada no Brizola, e eu sou brizolista… e a Globo inteira sabia disso. Então, no sábado, eu li: “O editorial de O Globo, amanhã”. E li o editorial que era porrada no Brizola; porrada aberta, e ficava puto de ter que ler aquilo. Mas uma vez chegou um desses editoriais: “O jornal O Globo publica o seguinte editorial…” Então, levantei o papel e, ao invés de ler no teleprompter, li com o papel levantado na mão para mostrar que aquilo ali não era eu, era o que estáva escrito no editorial de O Globo. Era uma maneira que eu achava que podia funcionar. Quando saí do estúdio, Alberico Sousa Cruz, que estava de plantão, me disse: “Mas como é que você faz isso?” “Fiz isso porque não concordo com o que está escrito”. Mas tiveram que me engolir, porque se me demitem por um negócio desse eu ia botar a boca no mundo, ia ser ruim para eles! Os conflitos na Globo eram quase que permanentes. Tivemos conflitos quando da morte do Tancredo, por exemplo, que eles queriam que eu desse a notícia da morte do Tancredo, e tinha que estar lá o dia todo de plantão. O Tancredo morreu em 1984, e nessa época eu estava me separando e me casando com Leila. Havia um conflito grande com minha ex-mulher e com os filhos, que eram garotos, adolescentes. E aconteceu de eu ter que ficar de plantão. “Você não precisa fazer nada. Você fica à disposição. Quando ele morrer, você vai ler a notícia da morte do Tancredo”. Um dia os meninos me chamaram. “Pai, quero ir para o sítio”, nós tínhamos um sítio na Serra. “Então vai com o fulano”. “Não, nós queremos ir com você, só confiamos em você para nos levar”. Peguei o telefone, liguei para a Alice Maria e disse “Eu preciso ir para Friburgo, em três horas estarei de volta”. Ela disse “Você não vai”. “Eu vou, Alice. São meus filhos”. E ela: “Em primeiro lugar está a sua obrigação com a empresa”. “Não, em primeiro lugar estão os meus filhos”. E eu fui levar. Quando voltei, estava suspenso. “Agora você volta para o seu horário. Vai ler o falecimento do Tancredo quem estiver no horário”. Ele morreu no domingo à noite… quem leu foi o Sérgio, que estava no Fantástico. Foram vários os conflitos que aconteceram, mas eu gosto disso; isso sempre me alimentou. Nunca me incomodou. Eu acho que é importante estar sempre na luta, nunca se acomodar!

Havia conflitos na Rádio JB?
Eliakim Araujo – Não. Foi uma casa maravilhosa. Foi a melhor casa que eu trabalhei na vida. Não me lembro de conflito, nunca. Com os colegas eu discutia política, mas com a direção, jamais. Era espetacular. Peguei a JB ainda no prédio velho, caindo aos pedaços, só tinha um banheiro para o andar inteiro, mas era uma coisa louca, era um sonho trabalhar na Rádio. O pessoal do jornal diz isso. Os remanescentes do jornal se encontram uma vez por ano, e sempre me convidam. O Lemos é quem coordena. Mas não dá para ir, estou longe. Era um sonho trabalhar na época naquela empresa, em todos os sentidos. O relacionamento com a direção; jamais fizeram nenhum tipo de sacanagem como a Globo fazia, jogar um contra o outro… mas nas empresas fazem isso de modo geral. O JB era aquela coisa correta, honesta. Isso eu digo e assino embaixo. E os colegas, os chefes, tudo! Ajuda financeira, gente ferrada, precisando de dinheiro… Eu me lembro que era Chefe dos locutores e um rapaz estava em péssima situação financeira, e fui ao Dr. Osvaldo, que era o diretor financeiro, fiz uma carta, e ele: “Está aqui o dinheiro, ajuda ele”. “Mas como é que ele vai pagar?” “Paga em trabalho”. Ou seja, ele nunca pagou. Eles tinham essa coisa de caráter, uma coisa meio social até. A história do JB é muito rica. Aquele restaurante velho lá na Rio Branco, entre o PTB e a UDN, tem histórias espetaculares. Tinha o restaurante popular, que era o do pessoal do PTB, macacão, a turma da rotativa, e tinha o pessoal da toalha, que eram os chefões e tal. E a gente se divertia muito. Era uma grande empresa, tenho muitas saudades. Mas se acabou tão lamentavelmente. A Globo matou o JB.

Mas houve problemas administrativos. Eles erraram muito.
Eliakim Araujo – Erraram porque não fizeram televisão, foi o primeiro grande erro. Mas houve também o tempo em que o Jornal do Brasil mandava no mercado. Eu me lembro que o grande faturamento do JB eram os classificados, e O Globo nem chegava perto. Numa certa época O Globo começou a fustigar, começou a convidar os corretores, levava-os para uma churrascaria na Tijuca, fechava aquilo; eram festas enormes. Enquanto o JB cobrava 50 por anúncio, eles cobravam 50 e davam 3 de bonificação. Foram matando o JB e não se percebeu isso. Aí veio a mudança para o prédio novo. Foi a grande catástrofe. Aí entra o erro de administração. Foi uma pena, era uma senhora empresa. Eu lamentei o dia em que saí. Fui no Dr. Brito, e nunca tinha ido até ele, só encontrava no elevador. “Mas por quê?”, ele perguntou. “Estou indo para a Globo”. “Você nem precisa me dizer quanto é; eu não posso cobrir”. Eu ia ganhar quase quatro vezes mais na Globo. Mas era uma coisa de amor. As pessoas trabalhavam com amor no JB, tanto na rádio como no jornal. No jornal então, foi o melhor time numa certa época.

Como você vê os jovens jornalistas hoje que estão em grandes empresas?
Eliakim Araujo – Mudou a mentalidade. Na época, havia não só talento, mas uma coisa mais romântica. Hoje a coisa é mais imediatista. As pessoas querem sobreviver, segurar o emprego. Vestir a camisa, amor ao time, isso não existe mais. Parece romântico isso, mas é verdade. A gente gostava de vestir a camisa, de competir com O Globo, de dar uma notícia na frente, havia isso. Era uma coisa romântica, mas ao mesmo tempo dependia muito do talento. O sonho de qualquer profissional era trabalhar no JB. Hoje inverteu, e o sonho de qualquer pessoa é trabalhar na Globo. A Globo cooptou as principais cabeças pensantes e levou para lá.

Quando você entrou na Globo?
Eliakim Araujo – Em 1983, pouco depois do escândalo da Proconsult.

Você passou todo o período da ditadura militar na Rádio Jornal do Brasil…
Eliakim Araujo – Eu entrei, e a ditadura começou em 1964.

Como foi conviver com a ditadura como jornalista na principal rádio do País?
Eliakim Araujo – Na rádio eu estava dando os passos iniciais, e quando veio o golpe eu me afastei da faculdade completamente. Ia lá só fazer as provas. A repressão não foi tão violenta naquele período. A repressão começou mesmo em 1968. Aquele foi um período de cassações, punições e prisões políticas. Mas alguns colegas nossos, o Brandão Monteiro, por exemplo, foi bastante massacrado. Eu respondi a um inquérito policial militar, mas na faculdade, não ao nível de um IPM.

“Nós fizemos uma resistência, mas não deu. Tínhamos coquetel molotov e mais algumas coisas. E quando houve o golpe no dia 1° de abril o Exército entrou, os tanques entraram e fecharam a Faculdade. O Exército nunca tinha entrado na Faculdade. Lá havia um slogan: “Aqui Polícia não entra”. A gente botava a Polícia para fora. Mas naquele dia a coisa foi feia…”

Como foi o inquérito?
Eliakim Araujo – Era mais administrativo. Na Faculdade de Direito, o chefe da comissão era um coronel, mas quem mandava era um professor chamado Teófilo de Azeredo Santos. Ele era o presidente da comissão. Chamava a gente e ficava questionando o que é que nós tínhamos guardado. Porque no dia 1° de abril nós tínhamos na faculdade um arsenal de coquetel molotov, nada de mais, bobagem. (risos)

Vocês iam resistir?
Eliakim Araujo – É, nós fizemos uma resistência, mas não deu. Tínhamos coquetel molotov e mais algumas coisas, mas não era vasto, eram algumas coisas. E quando houve o golpe no dia 1° de abril o Exército entrou, os tanques entraram e fecharam a Faculdade. O Exército nunca tinha entrado na Faculdade. Lá havia um slogan: “Aqui Polícia não entra”. A gente botava a Polícia para fora. Mas naquele dia a coisa foi feia, e o Exército fechou. E descobriram que havia essas coisas escondidas. Tomaram conta do Centro Acadêmico e aí começou um inquérito para saber quem é que comprou a gasolina, quem é que fazia os coquetéis. Era esse o inquérito, mas não cheguei a ter problemas, porque eu já estava afastado do cargo, estava no quarto ano. Por isso é que a minha convivência na faculdade junto com a Rádio foi praticamente imperceptível. Uma coisa não se conectava com a outra.

Mas depois de 1968 você e seus colegas da Rádio não tiveram problemas com a repressão?
Eliakim Araujo – A Rádio foi sempre muito resistente. Eu estava feliz em trabalhar lá por isso também, porque a gente resistia. Tenho guardado o jornal do dia 13 de dezembro de 1968, quando foi decretado o AI-5. Essa fase foi sensacional. Eu me lembro que nós estávamos lá, o Alberto Cury, que era o chefe dos locutores da rádio, foi convocado para ir à Agência Nacional, pois ele ia ler um comunicado muito importante, às 9 horas da noite. Era o AI-5. E eu estava lá, não só porque estava no meu horário, como porque eu ia ler a edição final do Jornal do Brasil Informa, de meia-noite e meia. Quando saiu o AI-5, foi lido por Alberto Cury, com aquele vozeiraço, o Exército ocupou as Redações. Foram quatro militares para o JB, dois para a Rádio; foram em todos os jornais do Rio. Lembro que lá para a Rádio JB foi um cidadão chamado Major Fico. Nunca esqueci esse nome. Depois ficamos todos amigos, os censores e os censurados. No Brasil tudo acaba em festa. Porque, com aquela convivência diária, o cara acaba vendo que são todos brasileiros, são todos irmãos. Então, ocuparam a Rádio e quando chegou a hora de ler o jornal da meia-noite e meia, que eram laudas pequenas, de rádio, eu recebi o jornal – o Fico estava lá, de farda verde oliva – o Dr. Nascimento Brito desce, e ele, que nunca tinha entrado na Rádio no tempo em que estive lá, entra no estúdio com o Major, e eu já estava folheando as notícias, passando uma vista de olhos. Ele me pede o texto do jornal. Eu passei. Os dois em pé e eu sentado, na bancada do microfone. E o Dr. Brito, com toda aquela elegância, passa o texto para o Major Fico e diz: “Por favor, seja rápido, porque o jornal tem que entrar no ar à meia-noite e meia”. Passava vinte minutos da meia-noite! O Major tremia feito vara verde. Foi no primeiro dia. Então ele pegou aquele calhamaço. Eram 15 minutos de pau puro, era um jornalaço, e a mão do Major tremia! Ele não leu coisa nenhuma. Ele nem sabia por que estava ali. Não sabia qual era a função de um censor. Aí, todo tímido, passou para o Brito o calhamaço de textos e eu li o jornal na frente do Dr. Nascimento Brito e do Major do Exército. Eu também nervoso, é claro, com o dono da empresa ali na minha frente junto com um cara de farda que até aquele momento eu pensava que era um pusilânime… mas era um ser humano como outro qualquer. São passagens muito interessantes que a gente teve na Rádio JB. Isso nós estamos falando de 1968. Daí começou um período de repressão grande, eu já não estava no movimento estudantil, me dedicava à Rádio, e começaram aquelas grandes passeatas dos cem mil, veio a morte do Edson Luís em abril de 1968, e nós, da janela da Rádio, que ficava no quinto andar da (avenida) Rio Branco, no prédio velho, víamos os conflitos! Eram todos ali na frente, você participava do conflito, subia e lá de cima você via o pau rolando. Uma vez, um fotógrafo do jornal ficou ali tirando fotos e eu disse para ele: “Rapaz, outro dia eu peguei uma pedra e joguei lá de cima e acertei um pm”. E o fotógrafo disse: “Não faça isso, vai deixar mal a gente”. Realmente, a gente às vezes comete alguns excessos, alguns arroubos da juventude.

Você nunca teve um grande problema com a repressão e a censura?
Eliakim Araujo – Censura sim, a Rádio foi para o gancho, foi pendurada três dias uma vez, mas isso tudo foi coisa genérica. Exatamente na época da passeata do Edson Luís de Lima Souto, o pau quebrando, e o repórter foi à rua gravou o pessoal da multidão gritando “Assassinos! Assassinos!”, subiu isso, foi para a Rádio, e o editor que fazia a edição da matéria botou o repórter explicando o confronto, e deu um sobe som final no “Assassinos”. E isso aí foi o bastante, a Rádio JB foi suspensa três dias.

Nem só de texto vive a reportagem…
Eliakim Araujo – Na edição você pode fazer o que quiser.

Quando começou o programa Noturno?
Eliakim Araujo – Começou no prédio velho e seguiu no prédio novo. A gente se mudou em 1973 da Rio Branco para aquele prédio bonito da Avenida Brasil. Mas começou no prédio velho. Começou muito em função de um rapaz chamado Simon Cury, que era muito criativo, muito inteligente. Nós éramos muito amigos. E ele tinha idéias mirabolantes. E dizia: “Vamos fazer um programa hoje só com nome de mulheres”. Daí ele ia para a biblioteca e pesquisava músicas com nome de mulheres. Ele vivia de música e fazia um programa de uma hora contando a historinha de cada mulher daquelas. Eu, neste caso, era um locutor. Fazia junto, mas ele era o homem das idéias, e ele se dedicava. A grande cabeça era ele. Se o Simon fazia uma entrevista, se eu fizesse as perguntas ia ficar estranho com toda a minha formalidade. Ele dizia assim: “Fulano, você gosta mais de Nova York ou de Paris?” Daí dava uma história enorme. Se eu fizer isso, não tem sentido. É o contexto. E o Simon era um mestre nisso. O Noturno durou até 1980, quando passei a ser coordenador da Rádio, então quem continuou foi o Luís Carlos Saroldi, que morreu recentemente.

Você gosta mais de Nova York ou de Miami?
Eliakim Araujo – (Risos) O Simon era assim: “Gosta mais de arroz ou de feijão?” O entrevistado adorava, ele deixava o cara à vontade. Eu sei que os entrevistados saíam de lá felizes da vida. Noturno foi um sucesso. Eu emprestei a marca da minha voz, mas todo o processo de criação era do Simon Cury.

Qual era o seu horário de trabalho?
Eliakim Araujo – Na época do Noturno, eu chegava às seis e meia da tarde e fazia o noticiário. Eram quatro os grandes noticiários da Rádio JB: sete e meia, meio-dia e meia, seis e meia e meia-noite e meia. Nessa altura eu já era chefe na Rádio, Chefe dos locutores. E ficava para o da meia-noite e meia. Nesse intervalo, fazia o Noturno. Isso durou alguns anos, até 1980, quando a Rádio inventou essa história do all news. Isso foi uma idéia do Carlos Lemos, que vinha embalado pelo sucesso da Rádio Cidade, outra aposta dele que estourou: a Rádio Cidade explodiu. Isso foi em 1977. Então em 1980 ele disse: “Quero fazer a mesma coisa com a rádio AM. Não quero mais música, só notícia”.

A Rádio Cidade era mais descontraída, tinha muito humor…
Eliakim Araujo – Era do mesmo grupo. Ele queria que fizesse a mesma descontração. Claro, não igual, mas que levasse para a rádio AM, que era uma rádio formalíssima, um tipo de descontração com a notícia. Que na Cidade era música, e na JB era a notícia. É o que a CBN faz hoje, e faz muito bem.

A Band News está fazendo a mesma coisa.
Eliakim Araujo – Hoje em São Paulo existem várias. Mas estamos falando de 1980. Os ouvintes estranharam. A gente fez uma coisa mui-to simples, uma pizza – chamava de pizza – blocos de 15 minutos de notícia. Então se colocava 13 minutos de notícia e 2 de comercial. Na segunda faixa de 15 minutos, você repetia, ou eventualmente colocava alguma coisa nova e tirava outra, e ia girando, renovando as notícias. Isso se faz também em televisão; a CNN fez isso. Mas quando nós implantamos isso na Rádio, o ouvinte tradicional ligava e dizia “Mas o que é isso? Vocês estão repetindo a notícia?” Eles achavam que a Rádio não podia repetir notícia. Era um escândalo, uma vergonha para a Rádio JB, que era a mais ouvida em Ipanema e Leblon. Era uma rádio de elite, realmente. Não sei se deu certo, porque três anos depois eu estava na Globo.

“Alice Maria me chamou para almoçar e eu era folgado e disse: ‘Alice, até entendo que você está me chamando porque a tv precisa de credibilidade, depois do escândalo da Proconsult, quando o Brizola acabou com o Armando’. E a Alice ficava vermelha feito um camarão… Mas isso já foi uma espetada, não é? ‘Vocês estão precisando de credibilidade e foi a Rádio JB que brilhou'”

Na época, não entendia por que nenhuma emissora te contratava para ser apresentador de jornal de televisão…
Eliakim Araujo – Aí veio a Alice Maria e me levou. Mas tem um detalhe: quando o Chapelin foi para a Globo, em 1972, agradou logo de cara; era bonitão, 32 anos. Mas precisavam de uma outra pessoa na época. E a Alice Maria pediu ao Sérgio uma indicação. Ele disse: “Tem o Eliakim”. Eu fui lá, fiz o teste e fui aprovado. Era para eu ter entrado na Globo em 1972! Tanto que o Boni viu o teste e me disse: “Arranja outro nome, porque ‘Eliakim’ não é nome de televisão”! (risos) Mas veja o que era o amor pela Rádio… optei por permanecer na Rádio JB, até porque o salário da Globo não era tão compensador como era o meu como Chefe dos locutores. A Rádio estava muito bem, me deram um aumento bom, que equilibrava, e eu continuei lá. Talvez por isso não me chamaram mais; só voltaram a pensar no meu nome em 1983, logo no início, em março, abril. Alice Maria me chamou para almoçar e eu era folgado e disse: “Alice, até entendo que você está me chamando porque a tv precisa de credibilidade, depois do escândalo da Proconsult, quando o Brizola acabou com o Armando (Nogueira)”. E a Alice ficava vermelha feito um camarão. Hoje ela ainda está lá, meio tímida. Mas isso já foi uma espetada, não é? “Vocês estão precisando de credibilidade e foi a Rádio JB que brilhou”, eu disse. Foi a Rádio que sustentou o Brizola. Quando a Proconsult preparou o golpe, foi a ela que denunciou. Foi o Procópio Mineiro, que era o editor de Jornalismo, e o Pery Cotta. Os dois é que peitaram. A Globo dava o resultado do interior, onde Brizola perdia, e deixou de lado os resultados da capital, onde Brizola disparava. O que a JB fez? Um esquema simples. Eram 25 Zonas eleitorais na cidade, se não me engano. Contratou 25 estagiários e cada vez que saía um boletim novo, uma urna nova, o cara pegava uma ficha de telefone e passava o resultado para a rádio. Tudo era contabilizando. Tudo manual. No final do dia, o Brizola estava disparado. Esse foi o esquema. Era a primeira vez que se computava voto via computador, daqueles antigos. E o computador se programa como você quer. Esse foi o golpe da Proconsult, programou de um jeito que o Moreira saía na frente, até que num certo momento eles iam dar o golpe. Como seria esse golpe a gente não sabe, só sei que Moreira seria o vitorioso. Isso foi no final de 1982. Então, quando Alice Maria me chama no início de 1983, estava querendo trazer um pouco da credibilidade da Rádio JB para a Globo. Teve aquele pega na televisão, do Brizola com o Armando Nogueira, que era o Diretor de Jornalismo. Brizola entrou e disse: “A Globo está mentindo”. “Deputado, o senhor não pode dizer isso, o senhor não pode duvidar da nossa apuração”. E o Brizola: “É verdade, porque a Rádio JB mostrou isso, isso e isso”. Aquilo foi uma vibração!

E o Brizola estava em último lugar nas pesquisas, no início da campanha, e foi um vendaval.
Eliakim Araujo – Eram quatro candidatos. E o que o Brizola carregou de voto de legenda. O PDT fez uma festa espetacular. Deputado estadual ele levou de montão. Uma vez, estava conversando com o Brizola – e ele era um grande papo – e eu disse: “Governador, como é que deixam entrar tanta gente sem expressão no Partido?” Era Juruna, Agnaldo Timóteo… Ele disse: “Eu vou lhe contar uma história. Você vai dirigindo um caminhão. Aí, na estrada, pedem uma carona. Sobe aí na boléia. Mais adiante tem outro. Aí a sua boléia está cheia. Mas eles não vão ficar. Mais adiante, você vai selecionar quem fica e quem sai”. Não sei se algum dia ele fez isso. Mas ele era uma figura desse tipo.

Que lição se tira dessa atuação do Procópio Mineiro e do Pery Cotta à frente da equipe da Rádio JB durante as eleições de 1982?
Eliakim Araujo – A lição que fica do episódio da Proconsult é o exemplo de compromisso com a verdade assumido pelos jornalistas Procópio Mineiro da Silva e Pery Cotta, Diretor de Jornalismo e Editor de Política da Rádio JB. Os dois tiveram peito de enfrentar o poderio da Globo e da Proconsult, mesmo sabendo que internamente suas cabeças estavam em risco! Sobretudo o Procópio, recentemente falecido! Ele merece entrar para o hall da fama daqueles jornalistas que não se rendem e colocam a busca da verdade em primeiro lugar. Sua contribuição para a democracia foi inestimável, naquele momento ainda inseguro da vida nacional.

Você não acha que, por ser líder de mercado, a Globo não se torna um alvo fácil?
Eliakim Araujo – Completamente. Primeiro porque a Globo tem história, tem antecedentes. Mas fiquei sabendo, por exemplo, que a Globo dá a seus funcionários um seguro-saúde de ótima qualidade. Na Record os funcionários têm direito a um seguro-saúde. Aí o que ela fez? Montou o seu próprio seguro-saúde. Então, os funcionários pagam para a própria Record. O dinheiro sai por aqui e volta pra cá. E oferece um péssimo serviço. Os funcionários estão reclamando. Mas sem dúvida que o líder vai ser sempre visado. Se você é um líder que tem uma história bonita, é diferente. Agora, a Globo tem uma história pesada, política. Mas com os funcionários eles são bem legais! Tem aquela coisa que falei, de jogar um contra o outro.

Mas aí são algumas pessoas que estão lá dentro…
Eliakim Araujo – Mesmo porque é televisão, que é um negócio que mexe com a cabeça das pessoas. Não só o pessoal de vídeo, mas os da retaguarda também.

Como uma grande empresa de comunicação consegue driblar a ditadura?
Eliakim Araujo – No período crítico, era difícil driblar. Você driblava com alguns artifícios, pequenas artimanhas que a gente fazia muito na Rádio JB. Todos tinham essa consciência, a equipe toda, e a gente fazia tudo para driblar. E a ditadura era tão burra que a gente sabia o que acontecia. Chegava uma nota na Redação, tínhamos um livro preto… não sei onde está esse livro… alguém tinha esse livro guardado. Era um livro de folhas soltas. Ligavam, alguém atendia: “Ordens do Primeiro Exército: é proibido divulgar a morte de fulano de tal”. Então, com isso, já sabíamos que alguém tinha morrido nos porões da ditadura. E os caras davam os nomes! “Proibido divulgar a morte de fulano, morto em tiroteio com as forças de segurança esta manhã”. Os caras faziam isso. Essa era a chamada censura direta. Depois que acabou esse período, veio a chamada autocensura: “Vocês podem anunciar o que quiser, mas com cuidado”. Aí a coisa foi melhorando; estamos falando do período de Geisel. Foi afrouxando um pouco.

Mesmo assim aconteceram os atentados, os ataques terroristas, os incêndios às bancas de jornais.
Eliakim Araujo – Teve a bomba do Riocentro. Dia do Trabalho. OAB. Mas aí era a própria resistência da direita, do Exército, tentando manter o status quo; não tinha interesse em mudar o quadro, que estava muito bom, confortável para eles. E o Geisel já estava falando em abrir. Depois entrou o maluco do Figueiredo, enfim.

Você acha que o Armando Nogueira tinha condições de fazer alguma coisa a mais e não fez?
Eliakim Araujo – Essa coisa é muito controvertida. Os que defendem o Armando acham que ele fez o que era possível dentro daquele quadro. Ou seja, ele foi apenas um instrumento. Então ele deveria renunciar e denunciar isso? Ou deveria manter o emprego? É aquela história, você tem uma posição política, mas precisa sobreviver. Essa é a grande polêmica. Um cara de extrema esquerda ter que trabalhar na Folha, que ajudou a ditadura? Quanta gente de esquerda estava na Folha. Quantos comunistas trabalharam em O Globo. O Dr. Roberto tem aquela célebre frase: “Eu adoro trabalhar com comunistas, que são excelentes profissionais”. A ideologia ia até um ponto, mas você tem que levar a comida para os seus filhos em casa. Essa é a grande contradição do jornalismo. Com a sua vontade de lutar, batalhar pelo seu ponto de vista, mas ao mesmo tempo você sabe que vai entrar em choque com o dono da empresa, porque o jornalismo corporativo é aquela coisa, você pode ir até aqui, mas daqui em diante está mexendo no interesse do patrão. Tem o interesse corporativo e o interesse político, que muitas vezes se entrelaçam.

A Globo sofreu censuras em novelas, tinha gente de esquerda lá que fazia ótimos textos, Dias Gomes, Gianfrancesco Guarnieri…
Eliakim Araujo – Exato. Tinha um monte de gente. Mas a novela é interessante, porque foi um caminho que se achou para driblar a censura. Como o jornalismo estava visado, os autores de novela conseguiram encaixar muita coisa. Nos programas de humor também, e a censura deixava passar. Não deixava passar no noticiário, que era uma coisa mais forte, na música também não.

É aquele negócio do equilíbrio.
Eliakim Araujo – Exatamente, achar o esquema.

Você começou a apresentar o Jornal da Globo sozinho?
Eliakim Araujo – A Globo vinha de uma experiência com Renato Machado, Beliza Ribeiro e Luciana Vilas-Boas. Eles tinham esse jornal que era interessante, era uma coisa nova. Mas houve alguma coisa que deu errado. Não sei se foram problemas pessoais, não sei exatamente o motivo, mas envolvia romances… essas coisas. Só sei que o programa degringolou e chegou um dia em que eles gravaram e foram embora. Deixaram gravado naquele dia com antecedência. No dia seguinte, o técnico trocou e botou a gravação do jornal do dia anterior. Aí o negócio explodiu e eles resolveram encerrar o jornal. Botaram o Humberto Filho para segurar uns 15 dias, um mês mais ou menos, enquanto contratavam alguém. Eu entrei junto com uma mocinha chamada Liliana Rodrigues. Depois entrou no lugar dela a Leilane Neubarth, que está lá até hoje, na Globo News. A Globo tem isso, de fidelidade. Mantém a pessoa. Acho isso legal na Globo. Só saí da Globo porque eu quis. A gente podia estar lá até hoje. Nós pedimos para sair, porque não estávamos felizes lá, por causa daquele ano eleitoral, 1989, do Brizola com o Collor. O Brizola foi candidato em 1989. Podia ter ido para a final com o Collor, mas perdeu em São Paulo, por um décimo. Essa história eu sei toda. O Brizola ganhou em várias capitais. Era o Collor, Lula, Brizolla, Covas, não sei se o Maluf estava, era um grupo grande. O Brizola tinha tudo para disputar com o Collor a final. O Brizola teve 0,5% no colégio eleitoral de São Paulo. Se tivesse tido 1% – pode ver as estatísticas – ele ganhava do Lula e ia para a final com o Collor, e aí a história seria outra. Eu fiz o debate, seria outra história. O Collor acabou com o Lula no debate da Globo; Lula foi péssimo. Eu falei isso para o Lula.

Então você teve, já na Globo, a experiência de dividir a bancada com uma jornalista?
Eliakim Araujo – No Jornal Nacional era só homem. Eu dividia a bancada, aos sábados, com o (Fernando) Vanucci e com o Léo (Batista). E eventualmente fazia nos dias de semana com o Cid e o Sérgio. Só dividi a bancada com mulheres bem depois. A Valéria foi a primeira que sentou na bancada. Hoje há ótimas profissionais, principalmente essa nova geração da Globo News. A Globo hoje não precisa mais buscar ninguém de fora, ela tem o seu laboratório. Hoje ela forma os rapazes e moças. Naquela época, ela teve de buscar o Sérgio fora, teve que me buscar fora, todos vieram de fora. Começou com o Cid, que é o pai de todos. O Cid entrou em 1969.

Como era sua relação com o Cid Moreira?
Eliakim Araujo – Era muito boa. O Cid era uma figura interessante. Estava acima do bem e do mal. Era amicíssimo de Armando, jogava tênis com ele. O Cid é uma figura muito engraçada.

Você deixou muitos amigos na Globo?
Eliakim Araujo – Deixei, mas eu não diria muitos amigos. Quando você sai, as pessoas não querem mais se aproximar, sobretudo porque a gente saiu em 1989, houve os atritos de que falei, mas a gente sentia que houve uma certa maldade; eu e a Leila (Cordeiro) sentimos isso. Quando nós começamos a ficar juntos, Armando e Alice foram contra. “Isso não é bom”, diziam. Porque na época eram determinados: dois no Jornal da Globo, dois no Jornal Nacional, dois no Hoje e um no Fantástico. Havia sete profissionais, só. Para ser um desses sete, tinha que ir chegando devagar. Era difícil. Então começamos a reunir os locutores lá em casa; os sete, para discutir por que a gente não tinha um retorno da direção. Nós trabalhamos mecanicamente todos os dias, anos e anos, e ninguém dizia: “Olha, você está ótimo”, “Você precisa melhorar nisso”. Esse foi o mote que levei para essa reunião com a direção.

Você reuniu os sete?
Eliakim Araujo – Digo os nomes deles: do Hoje, Leda Nagle e Marcos Hummel. Do Jornal Nacional, Celso Freitas e o Cid. Do Jornal da Globo, eu e Leila. E do Fantástico, o Sérgio Chapelin. Fomos lá para casa, tomamos muito uísque, eu morava numa cobertura ali na Fonte da Saudade. E começamos a conversar, e fui ouvindo as coisas de cada um. Alguns reclamavam que não tinham camarim para botar um espelho, e a minha reivindicação era não ter mais que ler os editoriais da Globo, que quando botasse o editorial que descesse alguém da administração para ler, por causa daquele incidente de que falei. Ninguém acreditava que aquilo fosse em frente. Todo mundo foi para suas casas. Eu sentei e, numa máquina Olivetti, bati um tratado de três ou quatro páginas, com o resumo daquela reunião. Passei para todos lerem; todos concordaram e assinaram.

Todos assinaram?
Eliakim Araujo – Os sete assinaram. Um dia de semana, quando acabou o Jornal Nacional, subimos todos para uma reunião que já estava previamente marcada com a Direção de jornalismo. Armando não apareceu. Fomos recebidos por Alice Maria e pelo Alberico. Eles ouviram, surpresos. Acabamos de ler aquilo; Alice não falou nada, Alberico falou “Tudo bem, está entregue”. “Não vamos discutir?” “Não, deixe aí o papel, nós vamos ler”. “Mas nós queríamos dialogar sobre isso”. “Deixe aí, que está entregue”.

“Esse papel ficou com eles e nós descemos frustrados. Depois começou a retaliação. Me tiraram de junto da Leila, no Jornal da Globo.”

Quais foram as reivindicações?
Eliakim Araujo – Eram várias coisas. Uns queriam aumento de salário, mais conforto, na época não tinha camarim, nem maquiadora; cada um passava seu pó no rosto. Pois bem, esse papel ficou com eles e nós descemos frustrados. Depois começou a retaliação. Me tiraram de junto da Leila, no Jornal da Globo. Eles souberam que foi feito lá em casa, souberam que fui eu que escrevi e botaram a Leila para o jornal Hoje, e eu fiquei no Jornal da Globo. Armando chamou nós dois e disse “Eu não quero dois talentos como vocês superpostos. Vou separar vocês. Nós vamos treinar pessoas novas e vocês vão passar a experiência que têm”. E separou a gente, que já estava casado há uns quatro, cinco anos. Botou Fátima Bernardes para trabalhar comigo, e a Márcia Peltier para trabalhar com a Leila no Hoje. Afastou Marcos Hummel; Leda foi colocada no Bom Dia Rio às seis da manhã, o Celso perdeu o Jornal Nacional, foi para o Fantástico com o Sérgio. Isso durou exatamente um mês. Nessa altura, fizemos saber à Rede Manchete que estávamos insatisfeitos. Daí a Manchete levou a gente. Fomos fazer o principal jornal na Manchete.

A Manchete estava começando?
Eliakim Araujo – Não. A Manchete estava no pico. Ela começou em 1983. Estava dando a grande virada com Pantanal e A História de Ana Raio & Zé Trovão. O jornal dava dois dígitos de audiência, porque pegava uma carona no Pantanal, que entrava em seguida, chamava audiência de expectativa. Esse foi o motivo da nossa saída, a retaliação interna na Globo. Todos os sete foram retaliados. Eu soube depois que o Armando chamou o Cid e disse “Como é que você assina um negócio desses?” “Eu assinei porque todo mundo assinou”. “Você vai tirar o seu nome daqui”. “Não tem problema”, e riscou o nome dele. Isso eu soube, eu nunca vi esse papel riscado. Nós outros fomos para a casa de Leda Nagle e comemoramos ali o desfecho daquilo. Nós fomos para a Manchete, a Leda foi no nosso vácuo e saiu junto para apresentar o Jornal da Tarde.

E quanto tempo vocês ficaram na Manchete?
Eliakim Araujo – Fiquei três anos. A Manchete teve uma fase muito boa, mas sempre lutou com grandes dificuldades financeiras. O pagamento era sempre um sofrimento. O Dr. Bloch movimentava os bancos, cada vez era um banco que pagava, foram se atolando em dívidas, até que venderam para um aventureiro chamado Amilton Lucas, que era um parceiro do Collor. Ele chamou a gente para conversar, “Eu quero que vocês continuem” e tal, mas nessa altura fizemos saber ao Sílvio Santos que a gente não estava feliz, e o Sílvio ligou para a gente num dia à meia-noite. “Vocês estão querendo sair da Manchete? Mas o SBT é aqui em São Paulo… vocês são cariocas…” “Não, tudo bem, a gente está a fim”. “Então passa lá na segunda-feira. Compra a passagem que eu te reembolso na segunda-feira”. O Sílvio é assim. Compramos a passagem numa sexta-feira, pegamos a reunião na segunda. Primeira coisa quando começa a reunião: “Fulano!”. Aí vem um cara com um pacote de dinheiro. Era o dinheiro da passagem, e dá em notas, em cédulas. O Sílvio é assim, cumpriu a palavra. Então, em 1993, estávamos desembarcando em São Paulo.

Você conhecia São Paulo?
Eliakim Araujo – Não. Mas São Paulo era uma cidade hostil, uma cidade difícil. A mudança foi dura. É verdade que a gente foi morar em Alphaville, que era um lugar de sonhos. O Sílvio pagou pra gente o aluguel de uma casa lá. Era gostoso. Alphaville é um oásis. E a gente trabalhava na Vila Guilherme. Eram enchentes fantásticas na Marginal, foi muito duro. Depois o SBT mudou para a Anhanguera e melhorou. Mas foi pouco tempo. No SBT ficamos de janeiro de 1993 até 1997.

Como era trabalhar numa empresa em que o telejornalismo é tão instável?
Eliakim Araujo – Na época não era não, esteve muito bem. O Boris Casoy estava dando bem, o Aqui Agora era um sucesso de mídia, dava audiências altas. Por causa do Aqui Agora a Globo mudou um pouco sua linha editorial, passou a ser mais policialesca. E nós tínhamos o Jornal do SBT, que entrava depois do Jô, que era muito bom, muito bem redigido, muito criativo, tinha um bloco de dez minutos que entrava antes do Jô e um de 20 minutos depois do Jô. Era uma equipe muito boa, Alberto Vilas era o editor. Foi uma boa casa para trabalhar. O Sílvio jamais se meteu, jamais houve censura, nós tínhamos liberdade total para trabalhar, e era um jornal muito de comportamento. Para o fim de noite não havia coisa melhor, linguagem leve. Mas, de repente, o Sílvio começou a enlouquecer. Porque quando o jornal principal não dá dois dígitos ele acha que é um desastre. O Boris começou a despencar…

Por quê?
Eliakim Araujo – O Boris é uma figura meio controvertida, é um cara de linha conhecida, criou aqueles chavões; alguns nem foram criados por ele, mas ele copiou, como o “Temos que passar o Brasil a limpo”. Essa frase não é dele, é do Brizola, falada num debate. Ele copiou e a imprensa achou que era dele, e passou a ser dele. Só dizia o que interessava, mas o público custa, às vezes, a sacar. Ele só criticava o que interessava, jamais criticou certas coisas. Batia no PT sem dó nem piedade e não tinha o mesmo tipo de tratamento com os demais partidos. Acho que foi uma figura que cansou, não diria que foi uma coisa específica. Ele fez muito sucesso na época, era considerado um justiceiro, mas era tudo um jogo. Aqueles comentários que fazia era tudo escrito; nada era improvisado. Os editores faziam os textos e ele fazia os comentários. Isso agradou muito na época. Chegamos no SBT, ele já estava lá, foi muito gentil conosco, mas havia sempre uma rivalidade porque ele dividia, nunca se misturou com as outras Redações. Ele fez o mesmo também na Record: chega, monta a equipe dele e divide com uma parede. Isso ele fez no SBT, quando brigou com o Marcos Wilson, foi para a Record e fez a mesma coisa. Os repórteres são dele. Muitas vezes, num evento só, havia dois repórteres do SBT, um da Redação e outro do Boris.

Então ele não confia nas outras equipes?
Eliakim Araujo – Não. Uma vez, o Sílvio pediu a ele: “Eu quero que o casal do Jornal do SBT faça o sábado para você” e ele “De jeito nenhum. Eles não têm a mesma formação, minha equipe tem um tipo de formação, o lado de lá é outra formação”. Ele era uma figura assim. Agora, por que caiu? Eu acho que ele cansou, e as pessoas perceberam que ele não era tudo aquilo. A história dele foi aos poucos sendo levantada, e agora recentemente a gente viu a revista O Cruzeiro, de 1967 ou 1968, que aflorou aí, com o pessoal do Comando de Caça aos Comunistas, que tem a foto de todos, e está lá a foto dele. Tem várias figuras conhecidas lá. Aí o Sílvio foi acabando com tudo, nunca gostou de notícia, Sílvio gosta de shows. Nesse entretempo surgiu a chance de vir para cá. E aqui ficamos, três anos na CBS.

Como foi essa história? Por que o SBT manteve um jornalismo misturando o Jornal do SBT com o CBS Telenotícias?
Eliakim Araujo – Nós tínhamos um contrato com o Sílvio que durava mais um ou dois anos. Quando a gente veio para cá, ele disse: “Eu não vou terminar o contrato de vocês, vou emprestar vocês para a CBS”. Então ele ficou ligado à CBS por nossa causa. Começamos a operar aqui em outubro; em dezembro ele estava aqui e ficou apaixonado pela CBS, ficou encantado!

Ele não conhecia?
Eliakim Araujo – Não. Ele veio e disse: “Vocês fazem 24 horas de notícia com esta equipe apenas? Meu Deus! Eu pago uma fortuna de jornalismo lá!”. E ele viu como o americano trabalha. Ele queria comprar a CBS! Chegou a fazer uma proposta para comprar aquela estrutura ali, mas eles não venderam. E nós ficamos emprestados à CBS. Mas ele não pagava. E eu disse: “Sílvio, cadê o nosso salário?” A gente ganhava bem no SBT. A moeda estava pau a pau com o dólar, e a CBS disse: “Nós pagamos a metade, o Sílvio paga a outra metade”. O Sílvio nunca pagou. E por causa disso ele conseguiu fazer essa mistura de jornalismo, que era uma coisa terrível: entrava com um pedaço gravado pelo Hermano Henning e misturava com o nosso aqui, era uma coisa muito louca. Claro que o canal não faturou no Brasil, que era um canal em português para vender no Brasil. Então a CBS vendeu o canal para um grupo mexicano, que rapidamente esvaziou e vendeu o que restou para a NBC. E o canal acabou, tanto em espanhol quanto em português. Mas o nosso, em português, era muito interessante. Enquanto o espanhol tinha uma estrutura de 150 pessoas, nós tínhamos 50 e fazíamos um produto tão bom, ou melhor, do que o falado em espanhol. Era isso o que pessoal da direção dizia. Era uma equipe muito boa. Alguns estavam aqui, outros vieram do Brasil, chefiados pelo Marcos Wilson.

Quantas horas vocês ficavam no ar?
Eliakim Araujo – O canal era 24 horas. O sistema era rotativo, nós ficávamos em torno de oito horas por dia. É o sistema americano. Você chegava às duas e saía às nove, dez horas da noite. Você vai atualizando as notícias, como aquela história que fizemos na Rádio JB. Só que aqui já era com computadores, nós estamos na era da tecnologia. Aquilo era misturado randomicamente pelo computador, um negócio sensacional. O computador avaliava o que era velho, o que era novo – não sei como funcionava essa tecnologia – e ia criando seqüências de meia hora de notícias. No fim de um certo tempo, começamos a pensar em criar programas, se não íamos ficar só em notícias. E logo depois entrou no ar a GloboNews em Miami. Essa foi uma das causas porque acabou também; nessa altura a Globo fez uma parceria com a NBC que tinha comprado o que restou, o espólio.

Essa idéia da CBS de fazer um canal em português não era muito exagerada? Tinha público?
Eliakim Araujo – Na época tinha, hoje é ridículo você pensar nisso, porque desde que a Globo chegou aqui, acabou. Quando chegamos, ao lado da CBS, das 24 horas de notícias, em duas meia horas entrava noticiário em português aqui. Era um sucesso, às duas e meia da tarde e às seis e meia da noite. A gente fazia para o canal espanhol, o CBS Telenotícias em espanhol. Estava indo bem o negócio. Mas no Brasil não vendia. Houve erros de administração também, e o canal não rendeu. Mas havia público. Anos atrás havia outra realidade em Miami . Eram exibidos vários programinhas brasileiros, de meia hora aqui, meia hora ali. Quando chegou a Globo, acabou com tudo isso. Como a presença da Globo é muito forte, ela matou toda a produção local. O anunciante não quer veicular num canal de visibilidade pequena e pagar quase o mesmo preço que paga para ter um anúncio na Globo.

Por isso é que tem tanta propaganda ruim veiculada na Globo, em Miami?
Eliakim Araujo – Exatamente. A produção do comercial não pode ser alta senão vai ficar mais caro do que o que o anunciante paga para veicular seu anúncio na Globo! Nós estamos trabalhando com isso aqui. Eu e a Leila temos uma produtora e fazemos a mídia na Globo. A gente cria o comercial, produz, e fica ótimo.

Vocês não se assustaram com essa mudança do Brasil para os Estados Unidos?
Eliakim Araujo – Nos assustamos. Mudar de país… isso tudo foi meio no susto! “Vamos? Vamos!”. Metemos tudo no caminhão e não olhamos para trás. No dia 30 de setembro de 1997 a gente estava desembarcando aqui, com malas, bagagens e dois filhos pequenos. O Lucas, com 5 anos, e a Ana, com 13. Foi uma mudança radical e não estamos arrependidos. É verdade que ao final do projeto CBS a gente deveria ter voltado para o Brasil. A gente teria espaço na televisão brasileira. Hoje não tem mais.

Mas valia a pena voltar, com a família aqui e a violência no Brasil aumentando assustadoramente?
Eliakim Araujo – Isto aqui é um paraíso. Todo dia a gente anda 40 minutos aqui na rua, vamos a pé ao supermercado. A gente ganha menos do que ganhava quando estava no Brasil. Mas temos uma qualidade de vida excepcional. Para ter esta qualidade de vida no Brasil, uma casa como esta, tem que ter milhões. Em Ipanema você não compra mais nada bom com 500 mil reais. E profissionalmente hoje a fila já andou. Leila tem um potencial espetacular. É a melhor repórter ao vivo que já vi na vida. Você abre o microfone dela ao vivo em qualquer evento e ela faz miséria. Mas não estamos arrependidos, acumulamos uma experiência que eu considero muito boa, porque a gente amadureceu. Se a gente fosse hoje para o Brasil, seria uma supernovidade, pela maneira como iríamos trabalhar. A gente conhece muitos brasileiros aqui porque trabalhamos muito com eles. E não há ninguém, em sã consciência, que pense em voltar. E quando alguém tem que voltar, você sente o clima de derrota. Volta por algum motivo, eu não falo do pessoal que volta deportado. Esse é o pessoal mais humilde, que volta porque não tem documento. Todo dia volta gente.

Você é cidadão americano?
Eliakim Araujo – Há muito tempo. Você é obrigado a ser. Você mora aqui, declara imposto de renda. O Green Card saiu rápido. Como a gente tinha o aval da CBS, que é uma empresa americana, o Green Card saiu fácil. Depois de cinco anos, você fica pendurado no Green Card, você é meio cidadão. Aí acaba fazendo a cidadania para gozar de alguns direitos, como aposentadoria e outras coisas. De fato, se voltar, é um grande choque. De lá para cá foi um susto. Agora, daqui para lá vai ser um choque. Mudou muito, mudou tudo.

Pensando assim, não foi a melhor coisa que aconteceu para a sua família?
Eliakim Araujo – Pode ter sido. Talvez financeiramente não, lá a gente ganhava muito mais. Mas a gente está bem. E quando se tem família a gente dá muito valor a isso. A minha filha, Ana Beatriz, é muito dedicada, com 27 anos já tem um baita currículo. Cursou Jornalismo na Florida International University, em Miami. Saiu uma ótima profissional e imediatamente estava empregada em jornalismo, que é uma coisa difícil aqui. Trabalhou nos principais jornais como estagiária, primeiro, e depois empregou-se em um jornal da Virgínia, o Roanoke Times. Um ano depois foi contratada pelo Star News, de Wilmington, Carolina do Norte, que é da rede do The New York Times. Inquieta e sempre procurando novos caminhos, ela foi aprovada em concurso para o programa de bolsas Erasmus Mundus, patrocinado pela União Européia. O primeiro ano ela cursou na Dinamarca e o segundo na Polônia, onde está agora. Nas férias de verão, fez um estágio de seis semanas na Organização Mundial de Saúde, em Genebra. Ela sonha com a carreira diplomática, nos Estados Unidos ou no Brasil. Tomara, né? Já o Lucas, o caçula, chegou com cinco anos e foi alfabetizado em inglês, mas fala o português corretamente, sem sotaque. Está no segundo ano da University of Central Florida-UCF, cursando Computer Engineering e Computer Science. Além dos dois, tenho outros dois do primeiro casamento. O Alexandre é publicitário e mora em São Paulo e o Frederico, que mora na Flórida, onde trabalha como músico, é baterista.

(Nesse momento chega Leila Cordeiro, esfuziante, que é convidada a participar do papo.)

Dá para comparar os telejornais brasileiros com os americanos?
Eliakim Araujo – É uma diferença… Para começar, aqui você tem apresentadores com mais de 60 anos: a Diane Sawyer, que é a principal hoje.

Leila Cordeiro – A Diane Sawyer é a minha “ídala”, é a melhor apresentadora do mundo, não tem igual a ela. Os americanos não escondem as coisas. Quando teve o terremoto no Japão, eles compararam às imagens de Nagazaki e Hiroshima, botaram a tela dividida. E a Diane tem o tom certo! Não é uma boa apresentadora porque sabe ler, não, é porque ela sabe interpretar a notícia, dando uma opinião só com o olhar, só com uma palavra. Então, ela pegou aquela coisa, ficou consternada, acompanhou tudo, fez matérias maravilhosas! A mulher chega lá, está descabelada, não está preocupada se está com maquiagem, se está com óculos, nada. É um show o que ela faz, todo dia dá um show de jornalismo. Apesar de a televisão brasileira ser boa, mas em conteúdo… No Brasil estão usando agora o Skype. Aqui, desde que o Skype entrou no ar, eles botam os repórteres para aparecer. Não tem aquela coisa engessada, do cara ter que aparecer todo arrumadinho. A Globo agora começou a soltar as amarras. Você tem que ler naturalmente, tem que olhar para a pessoa e conversar ou conversar com o telespectador. Na Globo as coisa funcionam porque aquelas pessoas foram criadas ali, naquela mentalidade. É uma coisa corporativa. É uma máquina, e as pessoas são as peças daquela máquina, mas que só funcionam ali. Se saírem dali, não funcionam

(Veja no YouTube entrevistas de Diane Sawyer: com Malala Yousafzai; com Barack Obama)

Eliakim Araujo – Você sabe? Aqui as emissoras de notícias assumem abertamente suas posições políticas, não é como no Brasil, onde fingem ser isentas, mas no fundo sabemos que defendem com unhas e dentes seus interesses. Nos Estados Unidos você tem a direitista Fox News, criação do tal Rupert Murdoch, que está agora enrolado até o pescoço com o escândalo do semanário inglês. Murdoch é um velhote malandro que decidiu criar um canal para atender ao grande público que forma a classe média americana. Seus âncoras do Prime Time e seus comentaristas assumem que são oposição a Obama, detestam imigrantes e não aceitam qualquer restrição ao porte de armas. São direitistas raivosos, mas competentes, especialmente Bill O’Reilly e Sean Hannity. Na outra extremidade, você tem a MSNBC, de orientação liberal e abertamente simpática aos democratas. Não dá pra dizer que seja de esquerda, mas tem idéias muito mais modernas que os concorrentes da Fox. No centro, podemos dizer que está a CNN, que é a pioneira no segmento de jornalismo nos canais a cabo e se gaba de ser a maior rede de notícias do mundo. Tenta passar uma linha política isenta e até certo ponto consegue. Sua preocupação maior é com a notícia e não se notam comentários tendenciosos de seus analistas.

Mas a CNN não estava em crise, sobretudo por causa da Fox?
Eliakim Araujo – Ela perdeu audiência. Por incrível que pareça, a audiência líder é da Fox. Nos outros canais abertos, você vê um jornalismo bastante imparcial. Eu não sinto aquela coisa pré-concebida. É claro que eles têm a visão americana do conflito na Líbia, mas eles também dizem que o Governo americano apoiou Kadafi a vida toda. A CBS, que é uma emissora tradicional também, não tem canal a cabo, é bastante imparcial. Isso eu acho legal. No Brasil, você vê nitidamente aquelas coisas de cartas marcadas. O brasileiro pode ter calor humano, pode ter tudo, mas o apresentador é formal, frio, 3 por 4. Aqui o cara levanta, aparece a gravata solta, é tudo natural. Se tiver que beber água, bebe.

A que se deve isso?
Eliakim Araujo – Não tem nada a ver com essa coisa de calor humano, não. O brasileiro pode ter calor humano, pode ser mais latino, tudo isso pode ser, mas ali na telinha é outra história. Leila tem uma expressão, que é a seguinte, os caras são meio atores, todo mundo aqui é meio ator, o povão fala na rua interpretando: “I’m so sorry!” Eles são assim. E isso é na televisão também. A Diane Sawyer é uma atriz.

Vocês já faziam isso no Brasil?
Leila Cordeiro – Fazíamos muito. Mas as pessoas pensavam que a gente fazia porque era marido e mulher. Não é nada disso! É porque ele sabia fazer e eu sabia fazer.

Mas naquela época ser marido e mulher não atrapalhou?
Leila Cordeiro – Na época, sim, porque não existia isso. Agora, toda hora tem marido e mulher. Naquela época não tinha. Podia ter um tico-tico-no-fubá que ninguém soubesse, mas que moravam juntos éramos nós dois só. E nós fazíamos aquele jornal sob muita pressão. Porque tinha neguinho doido para derrubar a gente. Saímos de lá por isso; estava demais. Então, quando pedimos demissão da Globo, já tinhamos acertado com a Manchete. Aí fomos ao Boni e pedimos a liberação do nosso contrato, que ele não queria dar. Ele sugeriu que a gente ficasse seis meses de férias viajando. Falamos: “De jeito nenhum, a gente não é marajá. Marajá de jornalismo não existe”. Depois, quando voltássemos, já teríamos perdido o lugar e já teria perdido a Manchete também. Fizemos o distrato e saímos no carro do velho Bloch, que estava lá esperando a gente na porta da Globo. E fomos para a Manchete assinar o contrato. Mas aí eles começaram a criar problemas, porque começaram a desconfiar. Eu não entendi essa, porque eles foram tão ingênuos. O Alberico falou: “Então jura prá gente que vocês não vão para a concorrência”. A gente falou “juro!”. Mas não foi o Alberico que liberou, foi o Boni. Ele se convenceu quando falei que não havia mais clima para ficar ali, que a gente queria ir embora, fazer outras coisas. Não tinha sentido a emissora prender a gente.

E a sua visão de quando recebeu a proposta da CBS?
Leila Cordeiro – Eu fui a primeira a empacotar tudo e vir embora para cá! Porque a gente já conhecia Miami e eu estava pensando nos filhos. Queria que eles viessem e tivessem a chance de estudar aqui, de morar em outro país. E quando surgiu essa oportunidade, falei “Temos que ir!”. Até por nós mesmos. O SBT não tinha ninguém no exterior, nem a Band, só a Globo tinha.

“Ninguém mais quer saber de ler livro de papel. Agora, tudo é nos tablets.”

E como vocês receberam a chegada da internet?
Leila Cordeiro – O computador veio para melhorar muito a vida da gente, mas por outro lado veio para acabar com muita coisa tradicional. Você vê esses tablets? Ninguém mais quer saber de ler livro de papel. Agora, tudo é nos tablets. As escolas daqui já estão colocando os tablets. Tudo em e-books!

Eliakim Araujo – Olha aqui! (mostrando o notebook) Nossa empresa distribui uma newsletter, que é um resumo das notícias do dia com nova roupagem, com o texto nosso, mas como a gente pesquisa vários jornais do mundo, a gente faz uma coisa bem legal.

Como é esse trabalho?
Eliakim Araujo – A nossa empresa é contratada para fornecer uma newsletter diária, de segunda a sexta, para distribuir para quatro, cinco mil pessoas, clientes e funcionários.

Vocês disparam daqui para esses cinco mil endereços?
Eliakim Araujo – A gente dispara daqui. Evidente que a gente não vai para a rua pesquisar a notícia. As notícias estão aí. Você precisa pegar a notícia, ter critério de escolher de acordo com a vontade do cliente. As pessoas adoram. A gente bota vídeos, é um negócio muito bonito.

A internet dá tantas ferramentas de graça, que você pode fazer centenas de projetos sem gastar um tostão.
Eliakim Araujo – É uma revolução. Você grava na sua câmera, aperta e põe lá na hora. Temos vídeos modernos, bons, no YouTube. O que a gente queria era fazer uma coisa daqui de Miami para o Brasil, um programa de qualidade mostrando como o brasileiro vive aqui. Não é nenhuma novidade, mas mostrar com o nosso jeito de fazer. A gente tem condições de produzir um programa de meia hora, semanal, com qualidade e um custo baixíssimo. O nosso estúdio é aqui em casa, com equipamento de primeira.

Porque vocês não aproveitam as ferramentas do YouTube para apresentar projetos?
Leila Cordeiro – A gente até pensa nisso, mas para fazer isso é um trabalho… Como já fomos de televisão, se não fizermos uma coisa decente as pessoas já vão dizer: “Hum, que decadência”.

Foi mais ou menos o que aconteceu com diversos projetos constrangedores apresentados na TV Uol…
Leila Cordeiro – É… Quer dizer, estão fazendo uma bobagem aí. Para não fazer um trabalho decente é melhor não fazer. Com os vídeos, a gente tem uma produção boa e grande. Fizemos o Conexão América. Mas são vídeos editados, de oito minutos, dez minutos, que a gente fez com reportagem, roteiro, faz tudo bonitinho. Tem muita coisa que a gente fez agora. Pesquisa Conexão América, Eliakim Araujo e Leila Cordeiro no YouTube; lá tem vários vídeos.

Há vários canais pagos no Brasil, e muitos deles, só de notícias. Vocês já foram sondados para fazer algum programa daqui de Miami, como o Conexão América, por exemplo?
Leila Cordeiro – A gente já tentou fazer coisas daqui. O Eliakim chegou a fazer para a Record um programa parecido com o 60 Minutes em português, mas a gente não queria só isso, a gente queria muito mais. Porque temos condições de fazer reportagem. O Conexão América que tínhamos aqui era excelente, muito bem produzido. A gente conseguiu exibir o programa, só que numa emissora local, que ninguém via.

Vocês mostraram esse trabalho para alguém no Brasil?
Leila Cordeiro – Conversamos com várias pessoas, mas o problema é que eles acham que, para fazer qualquer coisa aqui, têm que manter uma estrutura deles, porque não querem perder o controle. Eles não conseguem entender que não precisavam ter nenhuma estrutura aqui! Nós já temos! Era só a gente fazer, mandar para eles botarem no ar. Não tem mistério. Nós fomos falar com o (Johnny) Saad, da Band; ele recebeu a gente, sentamos à mesa dele, com aquela vista maravilhosa. Mas eles não conseguem ter essa visão, isso é uma coisa impressionante. Eles preferem Nova York. Miami é um lugar que não interessa. Têm um certo preconceito; pensam que aqui é um lugar de sacoleiros, de cubanos, uma coisa cafona, brega. E não é nada disso. É uma visão equivocada, distorcida. Há muito investimento de brasileiros aqui. A gente tem 64 programas feitos. Sendo que, num deles, nós fomos a Nova York fazer uma cobertura onde estiveram presentes vários Governadores brasileiros, além do Bill Clinton e do velho Bush. Ninguém do Brasil cobriu isso, e a gente cobriu tudo em Nova York.

Quando aconteceu isso?
Leila Cordeiro – Em 2007. Na verdade, eles têm medo porque não é um mercado que conheçam, nenhuma emissora conhece Miami. E acham que é caríssimo, que tudo é um escândalo de caro. Só que não sabem que a gente consegue fazer isso baratíssimo.

Vocês acham que o jornalismo de papel vai acabar?
Eliakim Araujo – Dizem que tem até data marcada. Mas eu acho que vai acabar, e você não precisa ir muito longe. No Rio, a Tribuna da Imprensa e o grande Jornal do Brasil, que acabou há um ano, já viraram ‘online’. As pessoas agora lêem pela internet. Eu leio o The New York Times online. O The New York Times está numa crise brava.

Leila Cordeiro – Guardadas as devidas proporções, acho que vai ser mais ou menos o que aconteceu entre o rádio e a tv. Quando a televisão surgiu, a rádio foi ficando para trás. Mas a rádio não morreu, se renovou. Teve um período, logo que a televisão surgiu, que o rádio foi para baixo. Pode ser que aconteça isso também, que os jornais descubram uma forma de fazer alguma coisa interessante. Esse negócio de computador, depois que a gente acostuma… Olha, é melhor ficar sem televisão do que sem computador!

O jornalismo diário impresso não teria de mudar a forma de se apresentar? Ter opinião?
Eliakim Araujo – Não sei. Eu leio tudo no computador. Acabaram aquelas enciclopédias fantásticas. Antigamente havia aqueles vendedores da Barsa. O cara vinha com aquele calhamaço e lhe convencia a comprar. Mas o papel, aqueles livros, além de serem pesados, no caso das enciclopédias, se desatualizam com muita facilidade. E na internet você corrige na hora. Então, acho que o papel como suporte está condenado. É uma questão de tempo. Mas evidentemente, tem gente tradicional que não acostuma, gosta de pegar no jornal, sentir o papel. Mas o pessoal mais jovem, não.

Como foi a criação do site Direto na Redação, que acabou de completar dez anos, e porque você e a Leila decidiram criar esse espaço na internet?
Eliakim Araujo – O Direto da Redação surgiu num período de entressafra. O projeto CBS Brasil fora desativado e estávamos em busca de alguma coisa que pudesse nos manter na mídia, mesmo morando fora do Brasil. Como a internet estava estourando naquele momento, com o aparecimento de vários sites de jornalismo de opinião, como o No Mínimo, decidimos entrar na onda. Convidei alguns amigos que trabalharam conosco no projeto CBS Brasil e tocamos em frente. O curioso é que a primeira newsletter foi distribuída no dia 3 de agosto de 2001, quando eu estava em São Paulo me restabelecendo de uma cirurgia de hérnia. E a postagem foi toda operada a partir de um desktop de um amigo em Atibaia, o que veio reforçar a importância da internet, como instrumento de conexão entre o editor e os colunistas sediados em várias partes do mundo.De lá pra cá, o website cresceu. Houve mudanças no time de colunistas, mas a bandeira da liberdade de opinião tem sido mantida através dos tempos. Atualmente são doze colunistas e eles não recebem um tostão; escrevem pelo prazer de não serem pautados ou censurados. Por isso podemos nos dar ao luxo de não aceitar patrocinadores. Também não recebemos verbas de partidos políticos, como alguém já insinuou. A despesa de manutenção é quase zero, e quando é preciso investir em nova paginação encontramos sempre amigos que topam trabalhar para o DR em troca de uma referência no site ou um pequeno banner. O diretodaredacao.com recebe cerca de 30 mil visitantes por mês, o que dá uma boa média de mil visitas ao dia.

3 comentários sobre “Eliakim Araujo

  1. Obrigada por essa bela, franca, rica e detalhada entrevista com o meu pai. Obrigada pelo interesse e pelas perguntas inteligentes. Ele dá detalhes aí que eu não sabia… é como se eu tivesse uma nova oportunidade de perguntar mais sobre as fascinantes histórias dele. Ainda estou no processo de ler a longa entrevista e muito emocionada. Tão precioso isso! Abraços, Ana

  2. Pingback: Quem foi Eliakim Araújo? – MetaJornalismo

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s