Eliane Brum

A repórter do cotidiano

Entrevista a Francisco Ucha e Marcos Stefano – Fotos de Martin Carone dos Santos
Publicada no Jornal da ABI em março de 2012.

Hoje, fala-se muito em crise da imprensa, dos jornais e revistas impressos, de falta de rumo frente à revolução da internet. Você acha que o jornalismo precisa ser reinventado? Ele se afastou do público e não encontra o seu caminho?
Tenho uma visão diferente. Penso que estamos vivendo um momento extraordinário. Com a internet, vêm também coisas muito interessantes. Uma delas é a ampliação da quantidade de narradores. A rede favorece uma horizontalização, todo mundo pode contar uma história. Claro, antes de contar, primeiro precisa construir uma vida e pode-se questionar quando o conteúdo não vale a pena. Mas também há uma ampliação das boas histórias. Isso é uma revolução. Até uns 15 anos atrás, o que não saía na grande imprensa simplesmente, não existia. Hoje, se não sai na grande imprensa, não há problema. É contado em outros meios, em blogs, microblogs, redes sociais, vários meios. Essas outras fontes de informação passaram a alimentar também a grande imprensa.

Como fica a reportagem nisso tudo?
Penso que a reportagem se fortalece nesse momento. Cada vez se torna mais necessário contar boas histórias. Nesse sentido, não há mudança. O que muda são as relações entre a sociedade e a imprensa, na medida em que tu tens várias iniciativas, como a própria Pública (apublica. org), no Brasil, ou a Pró-Pública, no exterior, que estão criando novos caminhos para financiar suas reportagens, publicando-as pela internet. Tu tens um site, divulga o projeto e recebe financiamento independente, de organismos e instituições internacionais ou até doações. Quer dizer, as relações de poder se alteram radicalmente. A reportagem ganha força num mundo cada vez mais novidadeiro, mais mutante, em que novos atores estão surgindo.

A grande imprensa aprendeu a lidar com essa nova situação?
Diferentemente do que muitos dizem, não sei se a grande imprensa está perdida com tudo o que vem acontecendo. Mas, pelo menos, tem sido omissa. A internet é uma realidade com a qual os grandes jornais e revistas ainda não aprenderam a lidar. E penam não porque não estão fazendo uma revolução com seu jornalismo tradicional, mas porque precisam voltar a fazer mais reportagem. Coisa que leva tempo, demanda dinheiro, precisa de seriedade, precisão e muito trabalho. Isso não mudou. Prova é que existe no mercado espaço para revistas como a Piauí, que trabalha com grandes reportagens. As redes sociais confirmam essa importância.

Sua saída da mídia impressa tem a ver com tudo isso? E como tem sido sua experiência com a internet? Dá para fazer textos e reportagens longos?
Saí da Época em março de 2010 para ser independente. Mantenho um vínculo com a publicação somente por meio de minha coluna semanal na internet. Hoje, minha vida de repórter se desenvolve no mundo virtual e essa tem sido uma grande experiência. Sempre ouvi aquela bobagem de que a internet é para textos curtos e leituras rápidas e me questionava por quê. Isso é jogar fora uma chance única. Pela primeira vez não temos as disputas de poder impostas pelo espelho, não temos os limites do espaço, não temos o ônus do preço da impressão e do papel. Não podemos desperdiçar tudo com textos rápidos, superficiais e curtos. Minhas colunas costumam ser longas e tenho feito várias experiências narrativas, como o resgate das grandes entrevistas, cada vez mais limitadas no impresso. Pelo menos uma vez por mês publico grandes entrevistas com cerca de 60 mil caracteres, o que daria quase 30 páginas em revistas. Que veículo daria tudo isso para publicar uma entrevista, ainda que fosse muito boa? Dizem que leitores não lêem textos longos no computador. Mas qual é a pesquisa que diz isso? Não existe. Era um tipo de dogma. Agora, com a internet, podemos medir isso. Eu, por exemplo, sempre acompanho minha audiência. Meu terceiro texto mais lido na coluna é uma entrevista que daria 30 páginas. Os leitores não lêem textos ruins, textos que não respeitam sua inteligência. Estou usando a internet para fazer textos cada vez mais aprofundados, entrevistas mais longas em que as pessoas possam desenvolver aquilo que pensam. Estou muito otimista em viver este momento histórico, sinto-me privilegiada ao presenciar uma mudança tão grande.

Sua opinião não seria uma exceção, já que outras pessoas enxergam o atual momento de modo diferente?
Creio que não. O Twitter é outra ferramenta que se tornou importante para mim e pela qual me comunico com vários outros jornalistas que pensam da mesma maneira. Exemplo disso é o caso de Belo Monte. No canteiro de obras da usina não há ninguém da grande imprensa. A obra está parada, todo mundo em greve. Mas o Ruy Sposati, do movimento Xingu Vivo Para Sempre, está lá, tuitando e informando sem trégua. O Felipe Milanez está em Dourados, em Mato Grosso do Sul, fazendo reportagens sobre a violência contra as lideranças indígenas de forma independente, sem vínculo com nenhum veículo da grande imprensa. Tenho vários amigos jornalistas que saíram da grande imprensa, articularam-se internacionalmente e hoje publicam suas matérias em jornais como o The Guardian e o El País. Quem está percebendo essas mudanças está conseguindo fazer muita reportagem. O que não mudou é a aventura e a experiência fascinante que a reportagem proporciona. Acho ruim generalizar e dizer que a grande imprensa não investe mais nisso. Alguns veículos estão buscando o seu caminho. Há, sim, muitas dúvidas. Mas quando existem muitas perguntas o mundo tende a melhorar. Não vejo toda essa “crise” como algo ruim.

Pode explicar melhor por que você optou por deixar a revista impressa e ficar só na internet?
Não foi uma atitude intempestiva, mas algo pensado, construído, uma transição que eu queria fazer na minha carreira. Tinha um bom emprego, tinha – e mantenho – uma boa relação com a Época e com a Editora Globo; tinha espaço e podia fazer a matéria que achasse mais relevante, tinha a liberdade de escrever sobre o que quisesse. Para muitos jornalistas esse é o melhor dos mundos, um ideal. Mas eu queria mudar, era algo que partia do meu interior. Entre os anos de 2008 e 2010, eu trabalhei na reportagem com a questão da morte. Numa delas, acompanhei uma mulher chamada Ailce, nos últimos 115 dias de sua vida. Não trabalhei com a questão da morte que a imprensa costuma tradicionalmente cobrir, a morte violenta. Mas a morte que a maioria de nós vai ter, que não será com uma bala perdida, acidente, assassinato, mas pela idade, por alguma doença, a morte que é tão calada na sociedade. Foram dois anos mergulhada nisso. A gente perde muito quando se cala sobre esse assunto, porque a morte serve para falar da vida. Por ser tão calada, perdemos muito. Ao mergulhar nesse tema, fiz um profundo confronto com a minha vida. Ao acompanhar a Ailce, uma frase dela me marcou muito: “Quando eu tive tempo, descobri que o meu tempo tinha acabado”, mais ou menos isso. Ela tinha acabado de se aposentar, estava “aproveitando”: viajava, saía para se divertir quando descobriu que tinha câncer e era um câncer incurável. Isso tocou muito forte em mim. Sempre vivi com verdade – as minhas verdades, o que significa também confusão – e sempre com muita intensidade. Não tinha uma vida chata, minha vida sempre foi muito interessante, mas eu queria mais. Descobri naquele instante com essa questão da morte que precisava me reapropriar do meu tempo, pois é a coisa mais importante que temos, talvez a única coisa. Queria ser dona do meu tempo, para trabalhar no domingo e ir ao cinema na segunda, para ficar olhando a chuva cair o dia inteiro se me desse vontade, para experimentar outras coisas. Sou muito curiosa, gosto de contar histórias, mas sou muito “escutadeira”. Queria experimentar outros jeitos de escutar, de contar histórias. Queria ser mais viva ainda. Para isso, não podia ter um emprego com horário fixo, que tivesse que ir todo dia. Queria ampliar meus passos de liberdade.

Mas você também teria essa liberdade se a sua coluna estivesse na Época
Não sei, não competia só a mim. Mas o que mais me diverte na minha coluna é que posso publicar nela entrevistas de 60 mil caracteres. Achei o ambiente perfeito para mim na internet (risos). Sofri muito com essa questão do espaço, que sempre foi um tormento para mim. Meu sonho era que existisse uma revista com páginas que se abrissem como um folder e que desse mais espaço para minhas matérias. A internet é uma forma melhorada desse sonho.

Você já disse que ao fazer uma reportagem já a imagina pronta, diagramada e publicada. Depois de escrever, ainda continua participando da produção da matéria? Interfere na diagramação, na escolha de fotos?
Continuo acompanhando de perto. Aprendi cedo a dominar de certa forma o processo inteiro. Não digo que o jornalista deva dominar o trabalho em todas as etapas, mas ao menos deve conhecer. Para mim, a matéria não está pronta quando termino de escrever, só quando o leitor ler. Ainda mais: a cada leitura haverá uma interpretação diferente do texto e a criação de algo novo, do recomeço do ciclo. Com essa consciência, nunca terminei de escrever, entreguei o texto para o editor e fui embora. Nunca. Tanto no Zero Hora quanto na Época, após pensar na pauta, conversar com o diretor de Redação, sentava com os fotógrafos, com os diagramadores – agora chamados de designers – e trocava mais idéias. Fotos, títulos e até legendas têm que dialogar com o texto. A diagramação deve surgir a partir da veia da história. Quando você fala sobre a literatura da periferia ou movimentos como o hip hop não pode usar o mesmo formato. Precisa mudar a estética. Sempre me diverti muito com isso. Trabalhei com poucos profissionais, principalmente na fotografia, mas gente excelente. Todo mundo se sentia autor também da matéria. Isso ajuda na percepção. Há coisas que eu não enxergo, mas o fotógrafo enxerga. Antes de ir para a rua, tu só tens uma idéia. Torce para que dê tudo errado e fique mais interessante. Quando voltamos, fazemos uma reconstrução coletiva.

Esse parece ser um ideal para o jornalista…
É um caminho pelo qual lutar, apesar de que muitos preferem o mais fácil, terminam de escrever e vão embora. Eu aproveito, já que sou eu mesma que fecho minhas matérias há mais de dez anos. Depois que edito, a reportagem passa para o diretor de Redação dar uma olhada e para a revisão. Fico junto, pois apesar de ler centenas de vezes, sempre passa algum erro. Na Época, os momentos de revisão eram gratificantes. A equipe era boa e tinha muito amor pelas palavras, para ver o melhor, discutir entre um termo e outro. Eu peguei o costume de só ir embora quando a matéria desce, ou seja, vai para a gráfica. Assim, passei a ser sempre a que vai embora por último. Aprendi que preciso cuidar da matéria até o fim. Depois, ela segue impressa na publicação para cada leitor. Aí, já não é mais minha, é do mundo e cada pessoa a interpretará do seu modo.

Para mim, ser jornalista nunca foi um emprego.
Não é apenas trabalho, não é o que eu faço, é o que eu sou.

Por que esse cuidado quase literário com a reportagem?
São fruto de várias influências. Primeiro, tudo que faço é com convicção pessoal. Acredito profundamente no que escrevo. Para mim, ser jornalista nunca foi um emprego. Não é apenas trabalho, não é o que eu faço, é o que eu sou. A minha forma de me expressar é pela palavra escrita, especialmente, pela reportagem. Sou repórter porque quero saber como as pessoas sentem as suas vidas. Em minha opinião, se existe algo importante para ser apurado é aquilo que dá sentido à vida das pessoas. A rigor não existe um sentido inerente à vida, há um caos. Mas eu procuro descobrir como as pessoas constróem sentido, reinventam tudo várias vezes, mesmo com muito pouco. Isso é transformador, porque só existimos pela narrativa, por aquilo que contamos e pelo que é contado da gente. Então, tu escutares a história das pessoas é algo muito grande, muito sério e de muita responsabilidade. Como respeito muito essa responsabilidade, sempre perguntei muito, sempre me propus ouvir. Ser jornalista é documentar, é contar a história cotidiana, a história contemporânea. O que a gente produz é documento histórico. Seja uma nota ou uma matéria de 20 páginas. Mesmo que um documento histórico sobre a nossa incompetência. Não estamos imprimindo papel para embrulhar peixe no dia seguinte. Produzimos documentos que vão influenciar as pessoas agora, que vão ajudar as pessoas no futuro a entender esta época. Isso constrói a minha vida.

Como foi a experiência de ser curadora de uma série de programas sobre a reportagem no fim de 2011?
A idéia do evento foi, primeiro, fazer uma homenagem ao Audálio Dantas, por toda a sua trajetória. Era a primeira edição de uma série chamada Repórter, exibida no programa Jogo de Idéias, do Itaú Cultural e que vai para diversas televisões públicas, comunitárias e universitárias. Fiz a curadoria e o objetivo é discutir a reportagem, com a participação de profissionais de diferentes gerações para debater o que é ser um repórter, quais são os princípios, quais são as ferramentas, em que errou, o que aprendeu. Além do Audálio, tivemos o Ricardo Kotscho, o José Hamilton Ribeiro e dois repórteres que construíram sua reputação na internet: a Natália Viana, criadora da primeira agência de jornalismo investigativo independente, a Pública, e o Leonardo Sakamoto, do Repórter Brasil, que ganhou visibilidade fazendo reportagens sobre o trabalho escravo no Brasil. Também trouxemos uma repórter que está em situação de rua, a Rosângela Ramos.

Esse primeiro programa teve o resultado que você queria?
As conversas foram muito legais. Sou suspeitíssima para falar sobre isso, levar aquelas pessoas para falar sobre reportagem foi maravilhoso, mas eu fiquei decepcionada com o público. Um evento gratuito, com aquele nível de jornalistas, deveria lotar.

Você esperava muitos estudantes de Jornalismo, não?
Eu sempre espero. Sou muito otimista. Houve coisas interessantes. Por exemplo: três estudantes vieram de Natal exclusivamente para o evento. Eram três moças que estudavam na Federal de lá. Mas o público que estava lá era bom! Não em termos de quantidade, mas de qualidade! E houve o público da internet, pois o programa foi transmitido ao vivo pela internet.

Fale um pouco desse projeto em que a Rosângela está envolvida em Porto Alegre.
Ainda pouco conhecido, o projeto é fantástico: um jornal impresso chamado Boca de Rua, de Porto Alegre, que está completando dez anos. É um dos poucos jornais no mundo, talvez o único, feito por moradores de rua, desde a concepção da pauta, entrevistas, fotos. E ainda vendem o jornal. Por isso, dizem que são jornalistas e jornaleiros. O trabalho é bancado por uma organização não-governamental, a Agência Livre para Informação, Cidadania e Educação (Alice). No começo, poucos repórteres conseguiam escrever. Por isso, gravavam os textos, que depois eram passados da linguagem oral para a escrita. Agora não. Muitos, como a Rosângela Ramos, escrevem suas matérias. Eles têm um jeito próprio de fazer os textos, usam gírias próprias, cumprem pautas que acham relevantes. É um jornal mesmo. Entrevistam autoridades, fazem denúncias sociais. O que chama a atenção, que é ao mesmo tempo trágico e muito bonito, é que muitos dos primeiros que começaram a escrever para o jornal estão mortos. Morreram por ter levado um tiro, por overdose, por doença. Para cada um que morre, eles preparam outro para o lugar, para que o sonho viva e as pessoas possam viver por conta dessa denúncia constante. É uma história que se mantém viva pela narrativa. Eles se apropriam de sua própria realidade, contam essa realidade e transformam a realidade. Cada jornalista-jornaleiro tem uma cota e fica com parte do dinheiro, como uma forma de sobrevivência. Pela palavra escrita eles rompem o silêncio e acabam com esse muro de separação, fazendo conhecida sua realidade em outras esferas sociais. Esse tipo de história estamos divulgando com a série Repórter.

Como você desenvolveu suas convicções em relação ao jornalismo?
Fui educada por meus pais, especialmente por meu pai, para ter muito cuidado com a vida e com as pessoas, fazendo o melhor possível, independentemente do que for. Seja escrever, seja varrer a sala da minha casa. Não é arrogância. A vida é muito preciosa para fazermos mais ou menos. É uma questão de personalidade, de caráter, de visão.

Notícia não tem natureza. A notícia é uma escolha social, política e econômica.

Mas especificamente em relação ao jornalismo, o que te inspirou a ver a profissão dessa forma, trabalhar com tanto esmero?
Acho que minhas inspirações vieram de histórias. Muito mais do que de pessoas famosas, conhecidas, elas vieram de pessoas anônimas. Como repórter, quis contar histórias de gente supostamente comum. Deixe-me explicar melhor: somos a história contada. Quando a imprensa deixa de contar a história da maior parte dos homens e mulheres que constróem o País, parece que eles não fizeram nada de importante, mas não é a realidade. O mesmo ocorre quando tu escolhes contar a história dos empreiteiros e não dos pedreiros, quando tu escolhes quem é que merece ter a história contada se é apenas quem quebra algum recorde, é uma celebridade, faz seu primeiro milhão. Isso não é natural, é fabricado, uma convenção social. Notícia não tem natureza. A notícia é uma escolha social, política e econômica. E quando tu deixas de contar a vida da maior parte das pessoas, estás dizendo que a vida delas não é importante. Isso tem um efeito enorme na vida das pessoas e na forma como as pessoas olham pra si mesmas. A minha opção é de contar a vida de quem parece comum, não é famoso, mas tem muito a dizer. Por isso, digo que sou uma repórter de “desacontecimentos”. Eu me interesso menos pelo que quebra a rotina e mais pelo que tece a vida cotidiana de todo mundo. Mais pelo que nos torna semelhantes e não diferentes. Apesar de que, mesmo no que é comum, achar que todos temos diferenças. E me interessa essa singularidade e também aquilo que nos aproxima. Não é somente uma escolha ideológica, tem a ver com minha trajetória.

Essa escolha vem de família, da sua criação?
Meus avós paternos e maternos eram da “colônia”, como se diz no Rio Grande do Sul, eram agricultores. Sou descendente de italianos; por parte de pai, a minha é a segunda geração alfabetizada. Meu pai foi o único na família dele que estudou entre 12 irmãos e uma das histórias que me fundam e que é muito marcante para mim é justamente a da primeira professora do meu pai. Ele morava no interior, em Ijuí, num povoado rural chamado Barreiro, e a professora do lugar era uma mulher chamada Luzia de Figueiredo Neves. Essa mulher tem uma história interessantíssima: o pai dela era filho de um grande proprietário de terras, de uma família tradicional no Estado, a Andrade Neves. Ele era sobrinho-neto do General Andrade Neves com uma escrava da fazenda. E no final do século 19, quando a escrava engravida, esse homem, chamado Sabino, que foi educado para ser general, advogado, rompe com a família. A escrava morre e ele cria a filha como professor de povoados rurais. Assim, ele chega ao povoado rural onde a família do meu pai vive. E a Luzia, que é filha de uma escrava com um estancieiro, torna-se a professora do meu pai. Ele sempre conta que foi quem nos arrancou da cegueira, a cegueira das letras. Todo ano, no dia de Finados, meu pai leva flores ao túmulo dessa professora. E eu o acompanho, viajando para Ijuí. Essa é uma das histórias que me constituem.
Outra coisa marcante é que sou filha temporona. Antes de mim, meus pais perderam outra filha. Quando eu nasci, meus irmãos já eram bem mais velhos. Dessa forma e com meus pais professores, trabalhando manhã, tarde e noite, fui criada pela empregada. Eu dormia no quarto dela, que era uma mulher muito amarga. Só se transformava quando ouvia novela de rádio. Quando ela ouvia novela de rádio, chorava, ficava amorosa e acho que até me amava um pouco. Tudo isso fez com que eu prestasse atenção, desde cedo, no poder das histórias. Como contar e ouvir têm o poder de mudar vidas. Na casa dos parentes, em vez de brincar, eu ficava quietinha, sentada num canto, enquanto eles pitavam, passando a cuia de chimarrão de um para o outro, e comendo bolachas com enfeite branco em cima. Conversavam e eu ficava ouvindo as histórias. Essas foram as primeiras coisas que me influenciaram a escrever e, depois, a me tornar jornalista. Mais tarde, aprendi a ler. Acho que estou viva porque me tornei capaz de ler. A infância, para mim, foi árida, passada num lugar sofrido. Quando aprendi a ler, passei a viver várias histórias diferentes, ir a outros mundos, conhecer pessoas. Trancava-me no quarto com cinco livros e não saía nem para comer. Não demorou para começar a ler livros de adultos. Ainda bem que meus pais tinham muitos. Quando não tinha mais opções, ia a uma livraria. Lá, trabalhava uma moça chamada Lili, até já escrevi sobre ela. Quando percebeu que eu adorava ler, deixou-me ficar num cantinho com livros que eu não precisava pagar. Por isso, para mim, a vida só é possível na palavra escrita. Antes de qualquer autor, qualquer escritor ou jornalista me influenciar, quem me influenciou foram essas pessoas: a Luzia, que eu nunca conheci, mas para quem sempre dou flores; a mulher que cuidou de mim e se transformava ouvindo novelas de rádio; meus tios e suas histórias fantásticas, meu avô, que falava sobre Pedro Malasartes e seus tesouros e fantasmas. A família da minha avó também é cheia de fantasmas que andam pela casa. Claro, há vários autores que eu admiro, mas sou tão influenciada por eles quanto pelas pessoas que eu escutei em 24 anos de reportagem. Cada uma me transforma, acrescenta muito em minha vida. Muitas vezes eu estive diante de analfabetos e tive vontade de me ajoelhar, a pessoa fazia literatura pela boca. A linguagem oral do brasileiro é muito rica, cheia de invenções, de achados.

Sempre fui de uma sensibilidade extrema, andando por aí em “carne viva”.

Para usar outro termo na moda: você sofreu bullying na infância? Por que se auto-exilou? E só para esclarecer: o sofrimento é por causa do lugar onde morava?
Creio que meu comportamento teve várias razões. Sempre fui de uma sensibilidade extrema, andando por aí em “carne viva”. Minhas primeiras lembranças são das dores das pessoas ao meu redor, as diferenças em suas vidas. Fui sensível, mas também braba. Não era o tipo de criança que sofria bullying, era briguenta. Carrego essas duas personalidades dentro de mim. Outro ponto é que minha família foi marcada pelo luto. Minha irmã teve uma morte repentina, muito traumática, especialmente para minha mãe. Isso alterou a vida de todos. Meus pais venderam a casa que tinham construído e foram morar num tipo de apartamento, em cima da casa da minha avó, um lugar escuro. Como todos trabalhavam, e muito, cresci sozinha. Via a vida como impossível. Tanto que comecei a escrever aos nove anos uma poesia, ou pelo menos uma tentativa. Acordei, num domingo de manhã, com um sentimento de profundo desespero. Todos estavam dormindo e o dia estava nublado. Abri a janela do quarto e comecei a escrever. Não parei mais.

O que te impressiona na vida de pessoas anônimas?
O que me fascina é como as pessoas dão sentido à sua vida. Em 1999, eu fazia uma coluna de reportagens chamada A Vida Que Ninguém Vê, ganhou um Esso, depois virou livro e ganhou o Jabuti. Saía todo sábado e nela eu escrevia só sobre “desacontecimentos” e gente que jamais seria notícia. O retorno era enorme e aprendi a importância que tem esse tipo de jornalismo. A pauta não era totalmente definida, mas sempre montada a partir de coisas que enxergava e intuía. Hoje, aprendi a racionalizar tudo isso e percebo que foi a verdadeira porta de entrada no mundo da reportagem.

Como era o retorno dos leitores?
Recebia cartas e telefonemas. As pessoas diziam: “O que tu escreveste sobre tal pessoa mudou minha visão. Percebi que minha vida não é desinteressante, mas importante”. Então contavam suas histórias e algumas viravam matéria. Uma dessas histórias foi a do Vanderlei. Não sei onde ele está hoje, mas naquele tempo, eu o encontrei na ExpoInter, a maior feira agropecuária do Rio Grande do Sul. Todo ano havia leilão de gado, premiação de cavalos e… vinha o Vanderlei. Saía de Uruguaiana, na fronteira do Brasil com a Argentina, e trazia um cabo de vassoura. Viaja com os bichos, de carona nos caminhões. O cabo de vassoura era o cavalo dele e ele o fazia passar por todos os trâmites burocráticos, pela inspeção veterinária e passava os dias da exposição cavalgando no cabo de vassoura. O rapaz copiava todos os movimentos do Freio de Ouro, o concurso em que os cavalos competiam. Todos o chamavam de “louquinho da ExpoInter”. A gente sempre precisa classificar, rotular, quem nos incomoda, né? Certo dia, cheguei nele e perguntei: “Vanderlei, tu és louco?”. Ele me respondeu: “Eliane, tu achas que eu não sei que o meu cavalo é um cabo de vassoura? Pensa: tu achas que algum dia eu terei condições de ter um cavalo? Minha vida não fica muito melhor se eu acreditar que meu cabo de vassoura é um cavalo é?”. Essa história representa muito bem aquilo que busco. O Vanderlei apenas radicaliza a busca que é de todos nós. Todos temos um cabo de vassoura, mas precisamos transformá-lo em um cavalo de raça. Isso não é ruim, pelo contrário, talvez seja o que mais me fascina no ser humano.

Conte como você começou na editoria de polícia.
Eu cursava História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Jornalismo na Puc, mas achava que não seria jornalista porque era muito tímida e não gostava de ler jornal, achava chato, burocrático. Até que, no último semestre de faculdade, tive que fazer o estágio. Peguei um professor chamado Marques Leonam, que ajudou a mudar meu rumo. Ele trouxe reportagens que nos surpreenderam. Finalmente, vi que aquilo em que acreditava era possível ser feito. Ele era apaixonado por reportagem e nos deixava apaixonados também. Pudemos escolher um tema para fazer uma grande reportagem e eu escolhi falar sobre filas. Todas as filas em que a gente entra desde que nasce até morrer. Hoje não é um tema muito comum, mas naquele tempo, para o jornalismo do final dos anos 1980, era uma coisa bem surpreendente e pouco aceita. Mas o Leonam achou maravilhoso e me deixou fazer. Uma amiga minha inscreveu o texto num concurso que acontecia nas universidades do Sul, o Set Universitário. Havia um júri formado por jornalistas e publicitários e apresentávamos o trabalho a eles. Na minha vez, os jornalistas disseram que o que eu fazia não era jornalismo. E os publicitários diziam que, sim, era. Não sei se foi porque havia mais publicitários que jornalistas ou eles eram mais persuasivos, mas o fato é que ganhei. O prêmio foi um estágio no Zero Hora. Fiquei um mês no jornal, saí, mas eles me chamaram como freelancer para cobrir as eleições de 1988. Era um trabalho miúdo, mas eu gostava. Eu contava um monte de histórias pequenas e acabei ficando no jornal por onze anos. Nesse tempo, cobri muito Geral e Polícia, que eram ligadas. Mas fazia mais de Geral.

Que reportagens eram essas que o professor te trouxe?
Eram textos fascinantes, alguma coisa do Joel Silveira. Naquele tempo não tínhamos acesso a esse material. Não passavam na faculdade, não havia internet e encontrar livros, mesmo em sebos, era muito difícil. Só tive acesso mesmo a obras de jornalismo literário e do New Journalism norte-americano muito depois. O primeiro texto do Gay Talese, por exemplo, só fui ler em 1995, bem depois de formada.

Uma vez você disse que esse professor costumava escrever: “Quando o jornalista é mais importante que a notícia, um dos dois não é verdadeiro”…
Quando eu escrevo na primeira pessoa, aí me assombro…

Mas o mestre também não pode errar de vez em quando? Como essa frase se aplica a você?
Acredito que essa é uma frase muito importante. Mas a questão não está na terceira pessoa, mas na primeira. A terceira só mascara a identidade do narrador. A história a ser contada deve ser importante e universal, não as peripécias do jornalista. Ela não pode ser voltada para o umbigo. A tua presença só se justifica na reportagem pelos episódios que contas e não pelo “eu”. O fato contado é que deve ser importante, não porque tu estás nele.

O que você acha da reportagem feita na televisão?
Eu não acompanho. Gosto de pouquíssima coisa na tv. Vejo o programa Profissão Repórter, do Caco Barcellos, o Globo Rural, às vezes. Prefiro ler.

Você costuma dizer: “A melhor coisa que pode acontecer é a realidade virar nossa pauta de cabeça para baixo”. Por quê?
Sempre me chamam para palestras em faculdades de Jornalismo e costumo repetir isso nessas ocasiões. Não é somente uma frase de efeito. A melhor coisa para o jornalista é sua pauta dar errado. Quando tu pensas numa pauta, tens uma idéia fixa, que já vem de algum lugar. Mas a realidade é muito mais complexa. Na rua, descobrimos que tínhamos somente o ponto de partida. Aí, realmente nasce o jornalismo, do espanto. Temos que ir às ruas, não podemos perder a capacidade de nos espantar e receber o novo. O novo é extraordinário e, provavelmente, ainda não foi contado. Falar sobre ele é a função primeira do jornalismo. Fazendo isso, conseguimos histórias muito melhores para ser contadas. Outra coisa que costumo dizer nessas palestras é que a primeira idéia que temos normalmente é ruim. A segunda, provavelmente, também. Tu precisas te provocar, colocar no lixo uma após a outra, até encontrar algo melhor. Só depois sair e encontrar o novo. Quando escrevo, eu o faço como leitora também. Gosto de me surpreender, encontrar coisas novas pelo caminho e não tenho medo de, vez ou outra, fazer um pouco dessa caminhada no vazio.

Quais são suas regras na hora de formatar uma pauta?
Simplesmente evito regras. Cada texto tem um jeito, tu tens que descobrir que texto é aquele e o que a história pede.

O bom repórter sempre enfatiza a observação e o “sujar os sapatos”, como essenciais ao jornalismo. Pode falar um pouco sobre isso?
Para mim, são os dois elementos naturais ao jornalismo: olhar e escutar. É escutando que a gente apreende o mundo, é pela escuta que tu te espantas, que vem o novo. Eu, quanto mais velha fico, menos perguntas faço. Não quando é para publicar uma entrevista, claro. Mas na hora de apurar. Vou dar um exemplo concreto: há dois anos, fiz uma matéria sobre um casal de mulheres que, pela primeira vez no Brasil, conseguiu registrar os filhos no nome delas. São duas psicanalistas. A Carla engravidou por inseminação artificial e a Michele disse para o juiz que não poderia adotar filhos que sempre foram dela. Ela tinha sonhado, desejado, acompanhado esses filhos. Não interessava a gestação biológica. Eram delas de uma forma muito mais ampla, mais subjetiva. O juiz aceitou os argumentos e as duas se tornaram mães. Mas no começo, quando entrei na sala da casa delas, encontrei-as tensas, preocupadas, pois iam falar sobre um assunto delicado. Queriam saber por onde começar e eu perguntei por onde queriam começar. A Michele começou a falar sobre uma história de sua adolescência, muito importante, mas sobre a qual eu jamais saberia perguntando. Na hora, até a Carla se espantou, pois não sabia daquilo. Era um elemento fundamental para um bom texto sobre elas. Muitas vezes, as perguntas se transformam numa forma de controle. Quando tu começas a perguntar para um lado e não para o outro, já estás direcionando a história que tu queres ouvir. E eu preciso descobrir qual é a história que as pessoas querem contar. Essa é a minha primeira curiosidade. É pela escuta que tu apreendes o ritmo que as pessoas falam, as palavras que elas usam. O mesmo aconteceu com a Ailce. Nos quatro meses que passei a seu lado, nunca mencionei a palavra câncer. Só assim eu descobri que ela morreu sem pronunciar o nome da doença que a mataria. Se eu tivesse chegado e perguntado: “Como tu lidas com o teu câncer?”, eu jamais saberia algo vital da história dela. Eu teria minha história, poderia ser boa, mas não a dela. Quando digo escuta, refiro-me à escuta ampla. Não só das palavras, mas do silêncio, dos quase-ditos, dos não-ditos. Às vezes, o que a pessoa deixa de dizer é tão importante quanto aquilo que ela disse. Outras, ela pára de falar, aí cometemos o equívoco de tentar dizer algo e esquecemos que, no silêncio, ela diz coisas que precisamos ouvir. É a escuta dos gestos, das estruturas móveis, do olhar, da roupa, de como estão as unhas, tudo mexe com toda a complexidade do real. É dessa escuta que precisamos nos reapropriar como instrumento da reportagem. Hoje, muitos jornalistas se deixaram reduzir a portadores de aspas em série: “fulano disse, cicrano afirmou”. Reduzimos a complexidade do real, o que é criminoso. Sujar o sapato na rua e aprender a observar é essencial. O que eu mais gosto é de não ter pauta. Por exemplo, a matéria que eu fiz de Roraima, “A guerra do começo do mundo”, que está no livro O Olho da Rua. Tudo começou num dia em que eu estava na Redação, com aquela cor amarela, toda desenxabida. E o pessoal começou a falar para eu ir para Roraima. As matérias de que eu mais gosto são as em que eu vou para um lugar sem saber o que vai acontecer, sem ter um objetivo que não seja o de me perder. A gente precisa se perder e aí vai começar a se achar.

Mas quando você faz uma matéria, como a Enfermaria entre a vida e a morte, sobre uma enfermaria de cuidados paliativos, também publicada em O Olho da Rua, faz várias citações de autores. Quando estuda sobre o tema?
Na verdade, sempre estudo muito. Quando fui para Roraima, li muito sobre o Estado. Mas não gosto de ir com uma idéia fixa. Normalmente, quando chego no lugar, mudo a pauta pelo que vejo e escuto. No caso que tu citaste, eu ia escrever sobre a morte. Eu li tudo o que foi possível sobre o assunto, fosse bom ou ruim, coisas que valeram a pena ou não. Tentei entender a história da morte, a antropologia da morte; como é que a morte foi vista ao longo dos séculos, ao longo da história. Os livros que as pessoas que tinham câncer estavam escrevendo. Precisava dessa preparação. Só posso perder algo que tenho. Essa perda é uma decisão, uma escolha. Se, de cara, tu já não sabes nada, começa perdido. E em vez de estar na condição de adjetivo, prefiro estar na de um verbo.

Só ler algumas matérias, como a sua sobre a questão da morte, já causa angústia. Como você agüentou essa pressão? Na hora de escrever a dor dá lugar ao prazer?
Eu acho que as duas coisas estão juntas. A vida tem de tudo um pouco. Mesmo profunda, não é só dor, senão não há saída. Tenho uma dificuldade muito grande com limites. Essa é uma questão que eu tenho tentado melhorar. Tive problemas na matéria da meditação, que me levaram ao hospital. A matéria da morte me arrebentou, mas de outra maneira. Levei anos para elaborar tudo que aconteceu, mas reconheço que ganhei muito também. Por exemplo, a capacidade de transformar a minha vida de uma forma muito profunda. Perco uns pedaços por aí, mas depois me recomponho. É importante se aprofundar no objeto de sua investigação, mas deve haver limites e reconheço que preciso aprender a lidar melhor com eles.

Naquela matéria sobre a meditação você ficou com três hérnias…
Na cervical. Tive que sair de licença médica depois para me tratar. Lembro que havia intervalos e tempo para dormir. Mas, no total, foram mais de 100 horas na mesma posição. Para quem não tem o hábito é fatal. Tente ficar cinco minutos parado, na mesma posição, a cabeça pesa, o corpo não agüenta. No sexto dia, comecei a sentir dores terríveis, mas não queria parar. O mestre me mandou “aceitar a dor” e obedeci. Sou muito obstinada. Nos últimos dias, consegui esquecer a dor. Ela continuava lá, mas eu estava em outro lugar. Quando voltei para casa, não conseguia mais sequer amarrar os cadarços do tênis.

Mas enquanto você estudava sobre a morte, também escrevia um livro e fez um documentário. Como foi isso?
Eu tinha topado fazer a matéria e falar sobre a Gretchen era um sonho antigo. Penso que boas histórias encontram a gente e não o contrário. Quando elas nos encontram, não nos deixam em paz até serem contadas. Quando a Gretchen fez 25 anos de carreira, eu quis fazer uma matéria: uma mulher que passou a vida inteira rebolando Brasil afora deve ter muito a dizer sobre o País. Queria acompanhar a Gretchen, mas não consegui fazer essa pauta. Quando ela completou 30 anos de carreira, não estava mais pensando no assunto. Já tinha deixado para “depois”. Mas encontrei o Paschoal Samora, que é um diretor de documentário e amigo meu e surgiu a oportunidade de trabalharmos juntos. Minha idéia era acompanhar um pouco a Gretchen pelo País, ele adorou e a produtora em que trabalhava, a Mixer, bancou o projeto. Quando falamos com a Gretchen, descobrimos que ela seria candidata nas eleições, quer dizer, ficaria muito mais saborosa a história. Mas precisava ser feita naquele ano, por causa da campanha. Tive que juntar as duas coisas. Também levar junto o projeto do livro O Olho da Rua, que já estava em andamento.

Sua rotina devia ser uma loucura…
Eu sempre trabalhei muito, isso me deixa viva. Com a Ailce, havia uma rotina. Eu ligava para ela todos os dias, mais ou menos no mesmo horário, depois do almoço. Ia à casa dela uma vez por semana e passava a manhã, a tarde ou o dia todo com ela. Na sexta-feira, acompanhava o que se chama de “visitão” na enfermaria do hospital, que é quando toda a equipe visita paciente por paciente. Chegou a época em que eu tinha que viajar para acompanhar a Gretchen em Itamaracá, Pernambuco. Foram duas vezes e, como eu não tirava férias há cinco anos, aproveitei. Mesmo assim, ficava ligando para a Ailce de lá. Só que complicou, pois eu fui ficando dividida, angustiada. Na segunda oportunidade, durante a campanha política, a Ailce já havia morrido e eu estava terminando o livro. Levei as provas e ficava revisando. Enquanto toda a equipe ia descansar, eu ia revisar. Andava cheia de dicionários e vocabulários de todo tipo por causa desse trabalho. E mandava aos poucos pelo correio. Mas reconheço: o ano foi bem difícil.

Esse não foi seu primeiro documentário. Como você decidiu fazer cinema?
Durante a vida, a gente vai se abrindo para novas experiências e mudando junto. Acho que os documentários surgem de algo que eu não poderia fazer como reportagem impressa. Eu tinha que contar a história, mas tinha que encontrar um jeito de contá-la. A oportunidade aparece e você faz, não é algo tão planejado, como uma carreira. No caso da Gretchen, eu não consegui fazer como reportagem. Uma História Severina, minha primeira experiência em documentário, foi realizado em 2005. Eu acompanhava essa história e já tinha feito várias matérias sobre a anencefalia, até uma sobre o primeiro caso a ir para o Supremo. Várias mães pobres dependiam dos serviços públicos de saúde para interromper a gestação anencéfala e eram obrigadas a entrar na Justiça. Só que o processo era tão demorado, que o bebê acabava nascendo antes da decisão judicial. Houve a ação para que as mulheres que tivessem feto sem cérebro pudessem interromper a gestação sem a necessidade de entrar com ação judicial, porque esses fetos morrem em 100% dos casos, ou antes do fim da gestação, ou horas, no máximo, dias depois da gestação. Quando a ação chegou ao Supremo, o Ministro Marco Aurélio de Melo deu uma liminar determinando que enquanto não fosse julgado o mérito elas poderiam interromper a gestação. Mais tarde, em 2004, a liminar foi derrubada e até agora o Supremo não analisou o mérito. Naquela época, um dos ministros disse: “Mas quem são essas mulheres, a gente nem sabe se essas mulheres existem”. Essa frase me indignou. Como um ministro do Supremo está julgando o destino de pessoas, de seres humanos e faz uma pergunta dessa? Eu e uma antropóloga de Brasília, a Débora Diniz, que também acompanha essa questão, conversamos por telefone e resolvemos fazer um documentário para mostrar quem eram as tais mulheres. Não sabíamos como fazer o documentário, mas começamos levantando no SUS quem eram as mulheres que tinham interrompido a gestação durante o período em que a liminar vigorou, para contar seus depoimentos. Ao ouvi-las, mais de 40 delas, encontramos Severina, internada no dia do julgamento da liminar. Caiu a liminar e ela foi colocada na rua, com sua barriga. Apesar de ser analfabeta, agricultora e pobre, ela tinha enorme senso de dignidade. Queria o filho, mas sabia de sua condição, e por isso era terrível suportar a gestação. Acompanhamos tudo, inclusive, o longo dia seguinte, que os ministros do Supremo não sabem que existe por causa de suas decisões.

Hoje você está trabalhando em algum novo documentário?
Eu particularmente, não. Apenas acompanho o trabalho do meu marido. Ele está desenvolvendo um projeto para falar sobre uma linda história de amor. Bem, não um amor convencional. Mas não posso contar mais, por enquanto.

Quando a Coluna Prestes saía de um vilarejo, deixava uma terra arrasada. Pior foi
quando comecei a ouvir histórias de saques, de estupros, de tortura e de morte.

Como foi reconstituir a trajetória da Coluna Prestes, um de seus primeiros, mas mais marcantes trabalhos?
Foi em 1993 e eu estava com 26 anos. A primeira grande reportagem da minha carreira. E ela foi fundadora, bem seminal. Eu me apaixonei pelo Brasil e pelo povo brasileiro nessa reportagem, pela diversidade, pelo ritmo, pelas palavras. Era uma gaúcha que tinha saído muito pouco do meu Estado. A primeira vez que andei de avião, por exemplo, foi aos 22 anos e já no jornalismo. Até então, não passava de uma guria do interior que foi para Porto Alegre. Mas não descobri apenas o Brasil, descobri também minhas possibilidades, exercitando meus limites. O mito da Coluna Prestes ainda era muito forte, muito mais presente do que hoje, até por conta do processo de redemocratização que o País atravessava. Para mim, também era muito forte. Quis refazer a Marcha porque era apaixonada pela História. Mas queria ir além do que estava registrado nos livros de História; queria conhecer o cotidiano e o lado humano da aventura, as dificuldades de atravessar o Brasil na época. Eu queria saber as histórias miúdas e imaginava encontrar coisas pitorescas e engraçadas. Mas quando comecei a ouvir as pessoas, deparei-me com histórias muito diferentes. A Coluna sempre andou pelos lugares mais distantes para escapar das pesadas tropas governistas. Dessa forma, passava por lugares de difícil acesso e também os mais pobres. Quando refiz a Marcha, 80 anos depois, continuavam sendo lugares muito pobres. Imagine só um número de pessoas bem maior do que a população local chegando num vilarejo, precisando comer, vestir, querendo levar o jegue, o burro, o cavalo. Quando a Coluna Prestes saía do vilarejo, deixava uma terra arrasada. É lógico, mas ninguém pensa. Nem eu pensava. Pior foi quando comecei a ouvir histórias de saques, de estupros, de tortura e de morte. Antes de viajar, liguei para a Anita Leucádia, filha do Prestes com a Olga Benário, para pedir informações. Ela contou que pensou com o pai em refazer a jornada também, mas desistiram, pois as testemunhas daquele período estariam mortas ou velhinhas demais. Ofereceu dar uma entrevista no lugar. Eu fiquei morrendo de medo achando que não iria encontrar ninguém vivo e ninguém que se lembrasse. Mas, por fim, decidi arriscar. Ao contrário, as pessoas lembravam de tudo, porque aquilo tinha mudado a vida delas. Em qualquer lugar que chegava, pedia para falar com o morador mais antigo e era muito bem recebida. Parece que eles estavam esperando para contar aquela história, que nunca tiveram oportunidade de fazer isso. Só encontrei essa realidade porque estava aberta para recebê-la. Ali, aprendi a escutar de verdade.

Como você reagiu às críticas a esse trabalho depois de publicado?
Eu entrevistei 100 pessoas e dei a ela o nome de A História do Povo do Caminho, que não era nem de um lado e nem do outro. Eles não eram nem governistas e nem rebeldes. Eles não sabiam o que estava acontecendo, só moravam lá, no caminho. Essa consciência só havia em cidades maiores; nas menores, nem jornal chegava. Era algo explosivo e houve uma grande repercussão negativa quando a matéria foi publicada, o que foi extremamente difícil para mim. Eu era uma jovem repórter, que começava a contar histórias e elas eram postas em dúvida. Penso que faltou respeito. Não é uma única versão, mas é uma versão importante que torna a história da Coluna Prestes mais complexa, que torna a História do Brasil mais complexa. Que mostra que a História é feita de homens e não de heróis. A versão do povo do caminho enriquece, complexifica, alarga o entendimento. Mas eu tomei pau de tudo quanto era lado. Porém, em 1997 ou 1998 foram abertos os arquivos de Juarez Távora, pela Fundação Getúlio Vargas, e aí foi revelada uma grande quantidade de correspondência, inclusive do comando da Coluna Prestes, com relatos de estupros, saques, torturas e crimes. Tanto que o próprio comando estava preocupado com o que ocorria. Só então a imprensa falou sobre o outro lado. Só quando documentos oficiais, dos letrados, apareceram. A História oral foi rejeitada. Mas me preparou para agüentar o tranco. Não tem nada mais brutal para um repórter que leva a sério o que faz do que ser colocado em dúvida.

Alguma crítica te marcou mais?
Não, mas até na Redação alguns foram contra mim. Fui pelo jornal Zero Hora e depois escrevi o livro. Até colegas de Redação e o Sindicato dos Jornalistas, partidos políticos e historiadores do Brasil inteiro me criticaram. Saíram algumas resenhas bacanas, na Folha de S. Paulo e no Jornal do Brasil, mas outras foram bem violentas.

Isso nos leva a outra história interessante: a do Brasil desconhecido dentro do próprio Brasil. A grande violência do interior, nos garimpos, na Amazônia, onde poderosos fazem o que querem e estão acima da lei e têm a conivência de parte do Poder Público. Onde até o Governo Federal parece não ter poder para mudar essa situação. A grande imprensa fala muito pouco sobre isso. Como você disse, cabe a blogs e redes sociais divulgar. Qual seria o papel da grande imprensa nesse cenário?
O Brasil é muito grande, muito complexo e também muito vacilante. Não é só a violência que não é contada, a delicadeza também não tem espaço. Há coisas incríveis acontecendo no Norte, a Amazônia é multifacetada, mas pouco é mostrado. O problema é que não temos uma imprensa nacional, apenas aquela do Centro-Sul, de Brasília, São Paulo e Rio, que às vezes vai para outros lugares. Não é só a distância, a questão é de olhar. Porque a periferia de São Paulo, algumas vezes, torna-se tão distante quanto a Amazônia. As distâncias são subjetivas. Há exceções, mas a imprensa em geral existe para a classe média do Centro-Sul. Com a internet, isso começa lentamente a mudar. Hoje, há muita gente contando várias histórias que a gente não conhecia antes. Há jornalistas indo para esses lugares e contando histórias. Há pessoas desses lugares documentando suas histórias em vídeo, escrevendo livros, na internet.

Você também tentou retratar essa questão do desconhecimento da periferia com matérias, como a da Brasilândia e do envolvimento dos jovens da periferia com o islamismo.
Sim. A literatura da periferia é um movimento que eu acompanho com muito interesse, especialmente, em São Paulo. A riqueza do que está sendo produzido é tamanha, que é um privilégio acompanhar. Outro exemplo, além desses dois, é o trabalho do Sergio Vaz, criador da Coperifa. Quando eles realizaram a primeira Semana de Arte Moderna da Periferia, eu fiz uma matéria para a Época, houve mais algum veículo que noticiou e o resto ignorou. Mas a internet divulgou, o evento repercutiu e sempre que uma nova ação é realizada todo mundo vai para cobrir. A relação está mudando.

Quais são seus próximos livros em pauta?
O próximo é uma coletânea da qual participo. É um livro que foi publicado em outubro do ano passado, na Itália, sobre os 40 anos dos Médicos Sem Fronteiras. Eles pegaram nove escritores de diferentes partes do mundo e cada um foi para um projeto dos Médicos Sem Fronteiras. Eu fui fazer a doença-de-Chagas, na Bolívia. O título é Dignidade! e será lançado em junho no Brasil.

E a sua aventura no Saara? Quando será publicada?
Ainda não sei. Agora eu estou num momento de pensar. Essa é a história de Toco Lenzi, um aventureiro que está fazendo o Saara a pé e eu fiz a primeira etapa com ele. Nessa primeira etapa ele foi puxando um riquixá com mantimentos. Fiquei 20 dias andando, acompanhando seus passos, numa solidão absoluta. Passávamos dias sem encontrar ninguém… de repente encontrávamos beduínos.

Era perigoso? Você ficou com medo?
Eu não me sentia em perigo lá. A gente saía de manhã e quando chegava meio-dia o calor era absolutamente insuportável. Então, a gente parava de caminhar. Nós nos cobríamos e… em volta, um milhão de moscas! É uma coisa que ninguém fala; só quem vive lá, sabe. Ficávamos cobertos de moscas. Depois andávamos mais um pouco, mas chegava cinco da tarde e a gente parava para montar a barraca, porque depois que baixava o Sol a temperatura ia para negativo! Então, nessa hora já tinha que ter comido e com barraca para se proteger. E é engraçado: nos primeiros dias não senti sede. Mas você tem que tomar água o tempo inteiro porque há a desidratação. Eu bebi pouco e fiquei desidratada e à noite passei muito mal. Mas aprendi.

Seu trabalho exige muitas viagens. Como as concilia com a sua vida familiar?
Eu não separo a vida profissional da pessoal. Para mim, tudo é pessoal, no sentido que a vida é uma só e nela há de tudo. Não faço essa separação na minha cabeça e nem no meu cotidiano. Agora, trabalho em casa. Eu moro com o João, que também trabalha em casa, então a gente tem uma vida muito boa. Embora eu trabalhe muito, eu cozinho ou ele cozinha, temos nossos espaços, cada um com seu escritório. Ele é noturno e eu sou diurna, acordo muito cedo. E eu tenho uma filha que tem 29 anos, minha única filha, que é psicanalista e mora em Porto Alegre, e já tem a vida dela. Costurar essa colcha é difícil, mas dou meus pulos. Recentemente, fui para Amsterdã participar de um festival de documentários em que o filme da Gretchen foi exibido. Minha filha foi comigo. Fui lançar o livro na Itália; o João foi comigo.

Você enveredou para a ficção ao publicar Uma Duas. O livro tem um realismo bem fantástico, com cenas quase de terror. Por que a opção por fazer um texto assim?
Não foi uma escolha planejada. O livro aparece também por causa desses dois anos que trabalhei com a morte. O confronto com a morte foi tão profundo que em determinados momentos percebi realidades que só a ficção suporta. Precisava criar outra voz para mim, para dar conta dessas realidades que não estavam me deixando mais dormir. Quem me acompanha no jornalismo vê que é uma voz muito diferente. Foi uma necessidade interna muito profunda e uma entrega muito profunda. A diferença é que quando eu faço uma reportagem, eu me esvazio totalmente, inclusive, dos meus preconceitos, dos meus julgamentos, da minha visão de mundo, para ir em direção ao outro, ser preenchida pela voz que é do outro, pela história que é do outro. Se eu vou cheia, não há espaço para eu ser preenchida. Eu preciso me esvaziar. A ficção foi um processo muito semelhante, só que no sentido oposto. Eu tive que me deixar possuir por mim mesma ou pelos outros eu. E achei isso uma experiência assustadora. Eu adoro literatura de terror, cinema de terror, ficção científica. E a possessão no cinema é sempre pelo alienígena, pelo espírito, pela entidade, pelo demônio. Mas eu descobri na ficção que o mais aterrorizante é ser possuído por si mesmo. Essa possessão é uma possessão de dentro. Durante todo o tempo em que depurei os abismos, a impressão foi de viver na ficção, na história. Um processo difícil para mim e para quem convivia comigo. Eu não estava bem e sempre me alterava. A reportagem é mais rápida. A ficção mais demorada e mais avassaladora. Para piorar, depois que terminei e enviei para a editora, fui para a Bolívia, fazer o texto do livro dos Médicos Sem Fronteiras, outro momento chocante também.

Quantos livros lê por mês?
Leio sempre, todo dia, mas geralmente um por vez. Há vezes que eu vou ler cinco minutos e caio dura na cama. Mas procuro manter um hábito, uma vez por semana. Eu tinha o sonho de ter uma banheira. Não é jacuzzi não, mas uma banheira normal. Compramos um apartamento e na reforma, em 2005, consegui a banheira. Assim, uma vez por semana, vou para minha banheira com vinho, chocolate, água e um livro. Só saio quando termino o livro. Quando viajo, isso não acontece, mas na rotina de casa leio pelo menos um livro por semana. Digo pelo menos, pois tento ler mais um pouquinho todo dia. Os livros eletrônicos são mais fáceis de adquirir, não se esgotam e são mais baratos. Por isso, tenho lutado e alguns de meus livros estão sendo lançados em formato digital. A minha única reclamação com relação aos dispositivos de e-books é que não posso levá-los para a banheira (risos).

Você ainda é tímida pra falar em público?
Um pouquinho, né? Sempre dá um frio na barriga. Eu sou muito para dentro, então essa coisa de me expor tem um custo. Mas me esforço, treino, busco disciplina para encarar.

Como é para você, que é uma escutadeira, estar do outro lado, ser a faladeira?
Um pouco aflitivo de vez em quando. Quando as pessoas não gravam, não anotam, eu fico muito aflita. Tem gente que me entrevista e não anota e nem grava nada. Eu penso: “Meu Deus, como vai lembrar depois?”.

No site da Época, na página em que está sua coluna, há um espaço onde aparece uma relação das notícias mais lidas do site. Geralmente são de celebridades, futilidades, escândalos. Perceber que as pessoas buscam o raso na internet não te aflige?
Não sei, mas essa classificação depende do momento. Semana passada, duas colunas minhas estavam entre as mais lidas. Uma teve mais de 100 mil acessos só na primeira semana. Outra, Meu filho você não merece nada, teve mais de meio milhão de acessos, é muito variado. Há aqueles leitores que sempre lêem, que sempre comentam e há aqueles flutuantes, conforme o tema.

Você já se arrependeu de ter escrito alguma coisa?
Eu sempre me arrependo. É que acho que poderia ter escrito melhor.

Descobri na ficção que o mais aterrorizante é ser possuído por si mesmo.

De não ter dado uma opinião ou de ter dado uma informação errada?
Não que não possa acontecer. Eu não vejo problema nenhum em se arrepender, em reconhecer um erro. Mas eu trabalho muito nessa coluna, não é uma coisa que escrevo sem pensar. Leio, releio, penso, estudo. Há umas que me dão um trabalho infernal. Para fazer as colunas sobre Belo Monte, tirei dinheiro da poupança e fui lá. Só consigo escrever sobre essas coisas ouvindo as pessoas e vendo. Cada uma é diferente da outra. Então é bem trabalhado, não é um texto que eu sento no domingo à noite e escrevo. Domingo à noite, eu já estou na quinhentésima revisão, de manhã passo mais três horas revisando. Eu sou super-obsessiva.

Além dos acessos, há outros tipos de repercussão?
O que é bom é que todo mundo pode comentar o meu texto. É muito raro eu pedir para retirar algum comentário. Só faço isso se ele é ofensivo. Se alguém diz que “a Eliane escreve mal”, beleza, eu deixo. Ou “a Eliane não sabe o que está falando”, tudo bem. Acho que os comentários são auto-explicativos, as pessoas se revelam muito naquilo que escrevem. Nesse ca-so, eu deixo escrever. Eles têm todo o direito de escrever e de comentar na minha coluna. Aliás, no fim a relação se inverte. Na internet, o leitor é um escritor também e tem uns comentários muito interessantes que me fazem pensar em coisas que eu não tinha pensado.

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