Juca Kfouri


Ele não desiste nunca

Um dos mais importantes jornalistas esportivos do País, Juca Kfouri abre o verbo para falar de sua trajetória como militante político e de sua caminhada na profissão, com a exatidão de quem tem uma memória prodigiosa e a coragem de quem não se intimida diante do poderio dos donos do esporte no Brasil.

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Entrevista concedida a Celso Sabadin e Francisco Ucha.

Publicada no Jornal da ABI em março de 2011

Antes de entrarmos no assunto da sua carreira jornalística, gostaríamos de falar um pouco sobre sua família, sua criação e de seu envolvimento em atividades clandestinas durante a ditadura militar…
Engraçado, estou vivendo isso de uma maneira muito especial. No dia 15 de dezembro de 2010, houve uma homenagem ao velho Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, o braço-direito de Marighela. Depois que Marighela foi morto, Toledo virou o número 1 da ALN (Aliança Libertadora Nacional), e algumas vezes o servi como motorista ou levando comida e roupa pra ele, essas coisas. Eu tinha uns 19 ou 20 anos e estava na chamada Liga Auxiliar da ALN. Devo muito a ele o fato de estar vivo, porque eu tinha entrado na Faculdade de Ciências Sociais e tinha sido liberado do Exército por excesso de contingente. Ele então me convenceu a me alistar para aprender a ser guerrilheiro. Isto em 1969. Fui dispensado em 1968, entrei na faculdade em 1969 e me alistei como voluntário da Infantaria do Centro de Preparação de Oficiais da Reserva-CPOR. Em 1970 fui convocado para servir no CPOR. Tudo bem, vou lá, tiro medida para fazer farda, tem o trote, faço teste físico, e acontece o convite para trabalhar na Editora Abril. Este convite aparece porque no Departamento de Documentação-Dedoc eu tinha um amigo que sabia da minha paixão por esporte, e que eu tinha mania de fazer arquivos. E tinha mesmo! Tenho até hoje material daquela época de basquete, Corinthians, Pelé etc. Eu não tinha a menor intenção de ser jornalista: queria fazer carreira universitária. Tinha vagamente a idéia de fazer uma tese de mestrado ou doutorado sobre futebol como fator de integração e não como fator de alienação porque era essa a visão que a esquerda tinha do futebol. Pois bem, vou até a Abril e sou entrevistado pelo Paulo Patarra, Hamilton Almeida Filho, Roger Karman, Maurício Azêdo… – foi o Maurício que me deu meu primeiro frila dentro da Abril, fazendo a seção de testes da última página da Placar – e o Cláudio de Souza, que foi quem criou o nome Placar. Passei na entrevista e avisei que tinha um probleminha: o CPOR. Eles falaram que ou me livrava do CPOR ou o emprego não seria possível. Para resumir, o salário no Dedoc, na época, era alguma coisa na casa hoje de uns 3 mil dólares, um bom dinheiro para um moleque de 20 anos. Eu namorava desde os 15 anos, queria me casar, queria sair da minha casa porque eu temia muito que as minhas atividades subversivas colocassem em risco o meu pai, que era Procurador de Justiça, minha mãe e meus irmãos. Morria de medo de um dia o Doi-Codi levar todo mundo da minha casa. Então, falei: “É esta a chance!”. Nessa altura o Marighela já tinha morrido e eu fui conversar com o Joaquim Câmara Ferreira. Se ele não me liberasse, não tinha conversa. Ele me disse então a frase que eu publiquei no meu blog em sua homenagem: “Não tente resolver o problema dos outros antes de resolver os seus”. Ele sabia que não fazia sentido pegar um menino e submetê-lo a bucha de canhão.

Qual era exatamente a sua atividade na ALN?
Eu era motorista, ajudei a tirar gente do Brasil. Um caso muito difícil foi o do Carlos Knapp, que tinha um problema na perna. Ele era o Washington Olivetto dos anos 60, tinha a melhor agência de propaganda de São Paulo, e uma Mercedes Benz que ficou com o Delegado Sérgio Fleury. Tirei muita gente também de dentro da Abril, como o Sérgio Capozzi, Jânio de Freitas, um bando de gente. Este era o meu trabalho. Nunca peguei em arma e nem sequer andei armado. Entregava e levava coisas; enfim, era o que eu podia fazer com aquela idade. Tinha absoluta clareza, fruto da indignação da ditadura, e de minha formação familiar, porque a minha prima mais velha, Maria Moraes, que era a “ídola” da minha juventude, era também militante de esquerda, casada com Norberto Nering, que foi morto no Doi-Codi, durante a Copa do Mundo de 1970. O irmão dela, meu primo irmão João Carlos Kfouri Moraes, era professor de Filosofia da Usp e membro da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Enfim, eu tinha essa formação. Meu pai era um liberal, um democrata, mas eu tinha muita influência desta prima e de meus primos, e achava que era indigno não fazer alguma coisa. Consegui sair do Exército graças ao meu avô paterno, Salomão. Eu tinha pedido para ser dispensado, e precisei falar que tinha entrado na Faculdade de Economia, o que era mentira. Sim, porque se eu dissesse a verdade no CPOR, que tinha entrado em Ciências Sociais, ia ficar um tremendo mal-estar. Eles me dispensaram do CPOR mas me mandaram para a PE, Polícia Especial. Eu, com 1,86 metro de altura, fiz teste de motorista fardado para dirigir caminhão da PE. Não passei no teste do caminhão porque o cara mandava mudar a marcha sem usar a embreagem. Não consegui. Meu avô Salomão era amicíssimo do gerente da Antarctica em São Paulo, o Senhor Bittar, que era avô de um fotógrafo famoso da Folha de S. Paulo, João Bittar. O Senhor Bittar fornecia refrigerantes e cerveja de graça para o Comando do I Exército. Ele pediu para o Major Ivan que me liberasse da PE, o que aconteceu em março de 1970.

Só a liberação já foi uma aventura!
Ah, foi! A dispensa foi uma aventura… Comecei a trabalhar na Abril e fazia o Curso de Ciências Sociais à noite.

“Morria de medo de um dia o Doi-Codi levar todo mundo da minha casa.”

Mas eles não souberam que você era estudante de Ciências Sociais?
Souberam sim, e quando descobriram eu levei um esporro do tenente do CPOR, dizendo que eu tinha mentido. Eu falei que fiquei com medo de eles acharem que era coisa de esquerdista, mas eu queria muito fazer o CPOR mesmo. Eu tinha uma desculpa verdadeira porque meu pai tinha feito. Meu pai era oficial de Cavalaria. Então, eu dizia que era por isso. Eles engoliram meio sem engolir, tanto que não me dispensaram integralmente: mandaram eu me apresentar na PE, que era uma forma de me castigar.

E como foi trabalhar na Abril e estudar ao mesmo tempo?
Bom, comecei a trabalhar na Abril de dia e a estudar de noite. Um belo dia, ou uma bela noite, o Professor Gabriel Cohn marca uma prova para uma quarta-feira. “Mas professor, quarta-feira tem Brasil e Romênia!”, eu falei. Era a Copa do Mundo de 1970. A classe me dá uma tremenda vaia e o professor propõe resolver o caso democraticamente. Foi naquele dia que eu aprendi que a minha classe tinha 21 alunos, pois a votação deu 20 a 1 pela manutenção da prova. Acabou a aula, eu saí da classe e peguei no braço do professor: “Mestre, eu não venho fazer a prova. Eu vou ver o jogo”. Olha, eu cursei Sociologia 1, 2, 3 e 4 com ele, e esta foi a única vez que o vi irritado. Irritadamente ele falou: “Tudo bem, tudo bem, você vem na sexta-feira, pega uma classe vazia e faz a prova sozinho”. Fiquei com fama de alienado. Para muita gente naquela época cada gol do Brasil atrasava a revolução em dez anos! Eu discutia com os caras, dizia que isso era um absurdo! Eu dizia: “vocês estão permitindo que a ditadura roube da gente as coisas mais íntimas. Ela já me invade, já não tenho telefone em casa para não ser grampeado, tenho medo de perua Chevrolet porque o Doi-Codi usa, a gente vive achando que está sendo seguido. Vocês estão malucos. Não é assim! Quer dizer que o Hino do Brasil não pode me emocionar mais? Eu me emociono com Hino, e agora não pode mais? O Hino brasileiro é o Hino da ditadura? Não! Eles nos usurparam isso tudo.” Em 1971 foi pior. No Pan-Americano de Porto Rico, Brasil e Cuba fizeram a decisão do basquete. Quando eu falei para os caras que eu ia torcer para o Brasil, teve gente querendo me matar. Imagina torcer contra a ilha do “Comandante”!

Bom, 12 anos depois do caso da fatídica prova do Professor Cohn, em 1982, vivíamos o Governo Franco Montoro, primeiro governador eleito em São Paulo em muitos anos. O Diretor do Arquivo do Estado era o Professor José Sebastião Witter, que eu havia conhecido quando ele era professor da Escola de Altos Estudos da Universidade de São Paulo-Usp. Ele me telefona, eu já era Diretor da Placar, e me diz: “Estamos reunindo um grupo de pessoas para fazer uma enciclopédia do futebol brasileiro. Te interessa participar?” “Nossa, se interessa!” “Então vamos nos reunir quarta-feira às 10 da manhã”. Quarta-feira, 10h20, quem entra na sala? O Professor Gabriel Cohn. Fazia tempo que eu não o via. “Mestre, que surpresa vê-lo aqui!”. Ele foi entrando na sala e me disse assim: “Surpreso, seu viadinho? Porque você é tão preconceituoso quanto seus colegas, que me impediram de ver Brasil e Romênia na Copa de 1970”. “Peraí, professor! Quem marcou a prova foi você, porra, não fui eu.” “Claro que eu marquei, eu sou desligado, não atinei que era o dia do jogo. Mas estava certo de que você ganharia aquela votação que você perdeu. Agora o problema não é esse, Juca. Saiba você que eu sou tão corintiano ou mais do que você, e que não acredito em sociólogo no Brasil que não tenha os fundilhos das calças puídos pelas arquibancadas.” Nunca me esqueci desta frase! E ele continuou: “E você é tão preconceituoso quanto aqueles caras, porque nós passamos quatro anos juntos na faculdade, Juca, e eu sabia muito bem o que você fazia, e você nunca falou de futebol comigo. Você também achava que futebol não era assunto para aquele espaço, que nas Ciências Sociais não se falava de futebol.” Esse cara, o Gabriel Cohn, é de alguma forma responsável por eu ter virado jornalista. Porque no meu último trabalho, no quarto ano das Ciências Sociais, mais ou menos concomitantemente com o convite que eu vou receber para sair do Dedoc e ser Chefe de Reportagem da Placar, eu fiz um trabalho sobre Émile Durkheim com a arrogância de um moleque de 23 anos, cujo título era Émile Durkheim, um conservador, e esculhambava com ele, esculhambava, esculhambava. O Gabriel corrigiu o trabalho e fez uma observação. Ele deu 9,5 e me disse: “Você tem certeza de que não quer ser jornalista?”. Eu perguntei o porquê e ele disse que “Isso aqui é muito mais uma resenha de um jornalista que um trabalho acadêmico. Se isso aqui fosse um pré-trabalho de mestrado, ou coisa que o valha, você seria arrasado. Quem é você para escrever assim?.” Isso aconteceu em novembro de 1973. Em março do ano seguinte eu já estava fazendo pós-graduação em Política, e decidido a seguir carreira universitária. E o Dedoc da Abril era um lugar absolutamente adorável de se trabalhar porque o que menos tinha ali era jornalista. Tinha gente formada em História, Economia, Letras, e malucos como o Zago, a Irede Cardoso, o João Guizzo – que foi um dos que a gente teve que tirar do Brasil –, Celso Ming; enfim, aquilo ali era uma microuniversidade. Todos tinham interesses variados que não se esgotavam nas revistas da Abril. Aquele meu trabalho só reafirmava para mim mesmo a minha intenção de seguir carreira universitária.

Mas você não passava mais tempo na Placar que no Dedoc?
Sim. Mas aí é a velha história: apaixonado por futebol, moleque, metido, com uma turma mais velha… eles meio que me adotaram. Eu era da turma que achava que a solução contra a ditadura era a luta armada, mas nessa altura a luta armada já era uma loucura. Enfim, minha prática, minha militância política era muito mais próxima daqueles grupos que saíram da luta armada, mas que foram para o combate. Eu acabo entrando para o Partido Comunista um pouco antes da morte do Vlado, e muito pela influência destes meus colegas mais velhos. Na verdade eu sou convidado para ser Chefe de Reportagem da Placar para minha grande surpresa, pois eu nunca tinha feito uma reportagem na vida! Placar tinha baitas repórteres como José Trajano e Carlos Maranhão, o que me faz perguntar para o Jairo Régis: “Por que eu?”. Ele me diz: “Porque eu preciso de um cara organizado como você. Os macetes você pega em 15 dias, alguns vão tentar te testar, e você é seguro o suficiente”. Só que tinha uma coisa: na universidade brasileira elitista, o curso de pós-graduação era só diurno. A Abril incentivava seu pessoal a fazer extensões universitárias, até dava bolsas. No meu caso, não precisava de bolsa, que era na Usp. Então, o melhor dia da minha vida era terça-feira, quando eu não ia para Abril e passava o dia na Usp, porque meu trabalho, naquela altura já como gerente do Dedoc, me permitia isso. Todo mundo achava glorioso eu estar na Usp. Era impossível fazer isso na Placar porque ela fechava na madrugada de domingo para segunda, e segunda era folga. Na terça-feira o Chefe de Reportagem pegava as pautas, distribuía, cobrava as coisas em andamento… como eu poderia faltar às terças-feiras? Aí me vi na encruzilhada. Vou ter que definir o que fazer na vida, se eu vou ser jornalista ou seguir carreira acadêmica. Percebi que estava indo para o lado do jornalismo e fiquei.

Juca Kfouri

Você jogou basquete só como estudante?
Joguei basquete no Clube Atlético Paulistano durante quatro anos nas categorias Infantil e Juvenil. Joguei seis meses no time principal e parei de jogar basquete no dia em que o Corinthians foi jogar no ginásio do Jardim América e ganhou da gente de 135 a 60. No banho logo depois da partida, me dei conta que aquela não era a minha praia. Enquanto era juvenil, tudo bem. Mas o time do Corinthians, para você ter uma idéia, tinha Vlamir, Peninha, Rosa Branca, Amaury, Ubiratan, Renê, Edvar… era um puta de um time! Eu falei: “Não dá”. O Amaury não gosta do que eu vou contar, e ele inclusive nega peremptoriamente esta história, mas eu estava lá, e não tenho a menor dúvida de que a história é verdadeira. Fui eu que senti. Somos amigos hoje, ele é meu ídolo, mas o Amaury diz que é mentira. É o seguinte: Eu jogava de ala e no primeiro tempo estava na zona de marcação do Vlamir, que só ficava rindo à distância e dizia para mim: “Levanta mais o punho, quebra o pulso mais em cima” cada vez que eu ia chutar. E claro que eu errava! E o jogo seguia. Quando voltou para o segundo tempo, o meu técnico inverteu a minha posição e eu caí na zona do Amaury. Ele ficava falando baixinho pra mim: “Larga a bola, viadinho, larga a bola, viadinho, eu sou Amaury Pasos, viadinho”. Eu saí do jogo indignado com ele! O Vlamir me tratou tão bem e o Amaury me tratou desse jeito. Mas meu técnico disse que eu estava muito enganado, que o Amaury me tratou com respeito, que ele me tratou como adversário, o Vlamir me tratou como aluno, como criança. Quer dizer, em última análise do ponto de vista da ética esportiva, quem estava certo era o Amaury. Só que o Amaury não acha isso, fica puto cada vez que eu conto isso. Ele fica bravo, diz que isso não é verdade, e eu falo: “Amaury, eu não ia inventar esta história, eu estava lá.”

Do basquete para a sociologia, da sociologia para o jornalismo?
Isso. Com uma interrupção subversiva que eu mantive como uma operação clandestina até o dia em que o Partido Comunista Brasileiro foi legalizado. Neste dia, eu fui ao Congresso me despedir dos companheiros e decidi que tudo aquilo não me interessava mais. Caí fora e nunca mais me filiei a partido nenhum. Uma coisa meio bizarra, que eu só fui saber um tempo depois, é que eu fui o mais jovem membro do Comitê Estadual não só de São Paulo como no Brasil também. Eu era clandestino, meu codinome era Bira, só que eu aparecia na televisão. Eu ia para os encontros, Congressos, de olhos vendados, subterrâneos, e todo mundo sabia quem era o “Bira”. O pessoal aqui de São Paulo era tachado de ala italiana do Partido Comunista, os eurocomunistas. Então, criávamos mil casos porque, imagina, o Rodolfo Konder era da minha base, ele se insurgiu contra a invasão da Tcheco-Eslováquia; enfim, vivia sendo suspenso, uma delícia. (risos)

Na Placar você se sentia em casa?
Eu estava tão em casa que cometi um erro que nenhum jornalista deve cometer: o de achar que aquilo tudo era meu. Aquela coisa que a gente tem de se entregar de corpo e alma, de vestir a camisa. A Placar era minha casa.

Você falava que era seu filho mais velho.
Veja bem, eu entrei na Abril com 20 anos de idade e saí com 45. Durante 25 anos fiquei na Abril todos os dias. Quando eu saí da empresa, eu tinha de Abril mais tempo do que eu tinha de vida quando entrei na Abril. Naquela época de ditadura, o exercício da imprensa era exercício da resistência. Além do trabalho profissional, eu ajudava o Milton Pena, ajudava o Raimundo Pereira a fazer o Movimento, eu trabalhava de madrugada com o Serjão Gomes na Oboré fazendo jornal sindical com Elifas Andreato, com Laerte. A gente fazia o jornal do PMDB, ia para as convenções do PMDB no litoral norte com o Doutor Ulysses Guimarães e com a bandidagem do PMDB, que ainda era MDB, ou já era PMDB? Não sei precisar exatamente em que ano foi. Só para dar uma idéia da confusão que eu fazia, da mistura que eu fazia na minha cabeça entre a Abril e a minha vida particular, vale relembrar o seguinte: Roberto Civita comprou do Richard Civita a parte dele na Editora Abril. Foi quando houve a separação: o Richard ficou com os fascículos, da Abril Cultural, e o Roberto ficou com a editora. Mas a editora valia mais que a Abril Cultural, portanto o Roberto tinha que pagar a diferença para o irmão. E era uma montanha de dinheiro em pouco tempo. Aconteceu de um Diretor da Placar me chamar para a reunião dos Diretores de Redação e dizer: “Olha pela primeira vez na história da Abril o salário não vai sair no dia 15 porque eles estão sem caixa. Avisa o pessoal, controlem a ansiedade de seus times porque o salário vai atrasar”. Foi então que eu propus que a gente abdicasse dos nossos salários por um tempo, até que o Roberto pagasse a dívida para o Richard, e que depois ele nos pagaria. E a minha proposta quase passou. Alguém, que eu não me lembro, disse: “Peraí, vocês estão malucos! Isto não é profissional, não. Vamos encarar que é uma dificuldade, vamos segurar, mas abdicar de salário? Vocês estão malucos?” Chegou a esse ponto a minha relação apaixonada com a Abril!

Você chegou a ter contato com o Victor Civita, não?
Eu conheci Seu Victor, ele tinha esta coisa paternalista, coisa italiana, um pouco mafiosa de que somos todos do mesmo time. O Richard já era um cara mais distante. O Roberto tentou ser igual ao Seu Victor mas nunca conseguiu, não tem o carisma do Seu Victor, que era essencialmente uma figura muito carismática, em todos os sentidos.

A Placar começa exclusivamente como revista de futebol, se transforma em revista esportiva e volta a ser de futebol…
Ela nasce como uma revista de futebol, em seguida aparece o Emerson Fittipaldi e ela começa a cobrir também Fórmula 1, dava umas tacadas em outros esportes em épocas de Olimpíadas e Pan-Americano ou em momentos de conquistas do Brasil. Ela segue como revista de futebol até 1983 quando, por imposição do Roberto Civita, ela passa a ser Placar – Todos os Esportes, que era uma tentativa de fazer a Sport Illustrated no Brasil, mas que não deu certo. Logo voltou para ser eminentemente uma revista de futebol.

A revista começa a ser investigativa, até de denúncia. Isto foi uma coisa sua?
Na verdade, a revista já tinha feito coisas investigativas antes mesmo de eu chefiar a reportagem. A Placar já tinha feito uma série de matérias que derrubou o Wadih Helou da presidência do Corinthians, porque tinha um time de jornalistas muito bons, e não especificamente jornalistas esportivos. Mas o grande marco que fez da Placar uma revista investigativa foi a matéria sobre a Máfia da Loteria Esportiva, em 1982. Ela foi o resultado de uma investigação de um ano, feita sem o conhecimento da Editora Abril, com enorme investimento e um enorme resultado. É uma das coisas mais gratificantes profissionalmente da minha carreira, porque quando eu comuniquei ao meu chefe, Thomaz Souto Corrêa, que nós tínhamos uma bomba na mão e que ia causar um grande escândalo no Brasil e, certamente muitas ações judiciais, ele mesmo antes de ler falou: “Tudo bem, você vai levar esta matéria para o Dr. Edgard de Silvio Faria”. O Dr. Edgard era o Diretor responsável da Veja, um zagueiro dos tempos da censura da revista, uma pessoa que se sentava sem encostar as costas na cadeira. Nunca vi ninguém ter uma postura tão ereta quanto ele! Olhos claros, azuis, que te olhavam lá dentro e sabiam que você não simpatizava com ele. Embora eu não tenha nenhuma queixa dele, ao contrário: comigo ele sempre foi muito direito, muito leal. Eu levei para ele, não sei dizer quantas laudas, mas me lembro bem da chamada de capa: “13 páginas que vão abalar a história do futebol brasileiro”. Uma matéria de 13 páginas na Placar! Sei que sentei com ele, entreguei algo em torno de 150 laudas, e lhe expliquei que o repórter Sérgio Martins estava lá embaixo à disposição. O Dr. Edgard sentou-se com a pilha de laudas e não piscava o olho, não olhou para mim nenhuma vez, não levantou para fazer xixi, não tomou um copo d’água, nada. Ele acabou de ler, e disse: “É a melhor coisa que eu leio nesta editora em muitos e muitos anos. Parabéns! Você me permite fazer três considerações?” Eu falei “Dr. Edgar, à vontade”. Ele respondeu: “Aqui onde está escrito editor do jornal O Liberal de Belém, Horácio Mayorana, tira o nome dele, mantenha apenas O Liberal porque os acionistas da companhia podem se insurgir contra o fato de ter dado o nome da empresa além do nome do jornal”. Enfim, eram apenas três alterações deste tipo. Em vez do nome do hotel, diga, “um hotel no centro do Rio de Janeiro”, essas coisas. A partir daí a Placar entrou muito nessa linha de investigação, das coisas da CBF. Tomamos com a matéria da Loteria Esportiva os processos que estavam previstos. Foram mais de trinta, num universo de 125 pessoas denunciadas. Ganhamos todos. E tivemos que dar um direito de resposta para o jogador Samarone.

Em contrapartida a esta matéria, que é muito mais séria, você se orgulha de uma matéria sobre os pés dos jogadores…
Era neste tipo de coisa que o Jairo Régis pensava quando dizia que eu podia ser sabotado. Porque eu era moleque, comunista, aluno de Ciências Sociais, que ia tratar com jornalistas já aprovados, experientes e tudo mais. A história é a seguinte: eu, Chefe de Reportagem da Placar, pela primeira vez na minha vida vou ao futebol credenciado. Pela primeira vez na minha vida entro no vestiário do Pacaembu, num jogo de futebol. No vestiário do Corinthians. Além de toda a novidade, me chamam a atenção os pés massacrados dos jogadores. Olhos de peixe, calos, falta de unha, e o cacete. Aí vamos para reunião de pauta depois do fechamento no domingo de madrugada, e eu proponho fazer uma reportagem sobre os pés dos jogadores de futebol, que me impressionaram muito. A gargalhada é geral. “Juca, você acha o quê? O cara chuta bola, tem o pé pisado, e você queria pé de bailarina?” Todos riam. Depois descobri que pé de bailarina também é maltratado, mas essa é outra história. Eu fiquei aterrorizado. Na terça-feira, deixo pra lá esta história dos pés e começo a expedir as pautas para cada repórter. O José Maria de Aquino chega pra mim e pergunta: “De que jeito você quer que eu faça esta matéria?”. Eu respondi: “Você sabe, não sacaneia, você sabe melhor do que eu”. Ele fez a matéria, mas a matéria não era exatamente o que eu queria. Era muito melhor. Mas eu falei para ele: “Não era essa a matéria que eu queria”. Pronto: ele nunca mais me perguntou como é que eu queria a matéria. Fui ganhando mais segurança, passei a dizer como é que eu queria as matérias, como é que eu não queria, mas na semana seguinte aquela história dos pés dos jogadores ficou me remoendo. Aí caiu a ficha mais óbvia: este pessoal não se dá conta de como os pés dos jogadores são impressionantes porque para eles isso é absolutamente normal. Já para o torcedor, que nunca entrou num vestiário, é uma coisa absolutamente desconhecida. Insisti, voltei a insistir. Houve uma certa rejeição, mas o Edil Vale Júnior, Chefe de Redação, achou que eu estava certo. Resumo desta ópera: fizemos esta matéria com o título “De quem é este pé?”. Era o pé do Pelé, em cima de uma bola. A matéria ganhou prêmio, e o São Paulo Futebol Clube imediatamente e montou um esquema de pedicure dentro do Morumbi para tratar os pés dos jogadores. Daí em diante, eu comecei a fazer coisas assim: “Eu quero uma matéria sobre os estacionamentos do Corinthians, do Palmeiras e do São Paulo para eu ver quem tem os melhores carros”. “Ah, você está louco!”, me respondiam. Impressionante: você descobria quem estava em melhor situação no campeonato pelos estacionamentos dos jogadores. Eu tinha uma visão de torcedor. Por exemplo, jamais admiti repórter setorista na Placar. Cada semana o repórter ia para um clube diferente, para não criar vícios, para não criar amizades que pudessem tolher sua liberdade.

De um lado você era o Juca comunista, que quer saber do pé do jogador. Do outro lado você trabalhava numa das maiores empresas jornalísticas do País, que supostamente tem vários interesses. Como era o equilíbrio desta relação?
Dei a sorte de trabalhar numa empresa, durante 25 anos, cujo comando não dava a menor importância para o futebol, não entendia bulhufas de futebol, e jamais interveio em rigorosamente nada. Daí minha decepção quando eu saio. Porque eu, ingenuamente, repetia uma coisa que eu adorava ouvir o Roberto Civita dizer: “Quem manda na Editora Abril são os leitores, a Editora Abril não tem amigos, não tem anunciantes, tem como patrão apenas seus leitores. Eu passo 95% do meu tempo resolvendo problemas que a Veja causa para minha empresa, e 5% do meu tempo resolvo problemas menores que as outras revistas causam também, mas faz parte do jogo. A minha melhor defesa é poder dizer para quem me reclamar que eu não me meto em outros lugares da revista, e que vá falar com o diretor.” Eu repetia isso quase como um mantra, quando ia fazer palestras para estudantes. Aí a Editora Abril montou sua televisão, e quis comprar direitos de futebol. Mas os que vendiam direitos de futebol diziam: “Eu não quero vender nada para você, você tem uma revista que toda semana me enche o saco, que me denuncia, me critica, me chama de ladrão”. Um dia eles me falaram: “Não precisa falar bem, mas pára de falar”. Foi quando tive uma conversa com o Roberto Civita, na qual eu disse: “Estou te entendendo, você se orgulha, com razão, de ter derrubado o Collor num momento em que a Editora Abril estava frágil economicamente. De ter colocado uma bandeira do Brasil de cima a baixo no prédio da Abril na Marginal Pinheiros durante a campanha de impeachment do Collor. Se aquilo não acontece, ele não cai. Pois bem, o Ricardo Teixeira é o meu Collor”. Ele falou: “Não precisa falar bem, mas é o seguinte: metade da motivação de quem faz assinatura de tv fechada é futebol e a outra metade é filme. Se eu não tiver o futebol, não tenho nada”. Eu não concordei, fiz duas ou três transgressões, e na terceira, o Thomaz me chamou e disse: “Nós, Roberto e eu, não te vemos mais dirigindo a Placar”. “Um dia isto teria que acontecer”, respondi. “Chama o Fulano, que é Diretor de Recursos Humanos, faz as contas, me paga que eu vou embora”. “Você está maluco que você vai embora! Nós temos planos para você”, disse o Thomaz. “Mas eu não tenho mais planos para a Abril. Vou embora”, falei. Aí foi um drama, foram os piores 45 dias da minha vida. Primeiro eles me propuseram um ano sabático. “Pega seu cartão corporate, pega a Ledinha [Leda Orosco Kfouri], se manda pelo mundo e quando você voltar vai para Navarra fazer um curso para implantar novas mídias aqui”. Eu digo para ele: “Escuta, nós tínhamos acabado de relançar a Placar, Futebol, Sexo e Rock’n roll, que estava vendendo pra cacete, puta sucesso. Se você me chama e diz para mim assim: ‘Parabéns, três edições da nova Placar, um puta sucesso, chega de Placar para você, temos novos planos, queremos te dar um prêmio, você vai passar um ano com a tua mulher viajando pela Europa, e quando você voltar, outra vida’, eu topava na hora. Agora, prêmio de consolação eu não topo! [faz o sinal de banana com os braços] Chegou ao ponto de examinarem uma proposta de vender a Placar para mim. Quase fui sócio do Pelé, que se interessou e chegou a fazer proposta, mas quando souberam que o interessado era o Pelé, aumentaram o preço e o negócio não saiu. O imbróglio era o seguinte, queriam fazer aquele velho comunicado do tipo “o jornalista Juca Kfouri, depois de 25 anos de bons serviços prestados nesta Casa, em busca de novos desafios, nos congratulamos, e etc etc”. Não é por aí. Exigi que ficasse claro que eu estava saindo por divergências editoriais, e assim acabou sendo feito. O único comunicado da minha saída da Abril foi feito nestes termos.

Onde entra a Playboy no meio disso tudo?
Eu assumi a Playboy em 1991 e a dirigi até o final de 1994, quando saio para relançar a Placar. Neste mesmo tempo eu trabalhava no Jornal da Globo. Na Globo, sim, era complicado porque vira e mexe eu dava minhas cotoveladas, e causava problemas. Fiquei na TV Globo de 1988 a 1994.

Havia assuntos dos quais você não podia falar?
Nunca. Te conto exatamente as crises maiores, o que eu não pude falar, porque são jeitos engraçados e diferentes de resolver as coisas. Primeiro, deixar claro, a Globo pra mim era bico, quase um hobby. Isto era muito claro para a TV Globo. Eu não faria nada na Globo que atrapalhasse meu trabalho na Abril. Eu fui surpreendido pelo convite para trabalhar na TV Globo exatamente pelas minhas características. Armando Nogueira um belo dia me chama com estas palavras: “Precisamos ter uma cara inteligente no esporte, quero que você venha fazer o Jornal da Globo e comentar junto.” Lá fui eu. O Armando era claro. No ato da contratação, ele me falou: “Quero que fique claro pra você que estou aqui para defender os interesses do Doutor Roberto Marinho e das Organizações Globo. Então, procure evitar de falar de João Havelange, que é muito amigo do Dr. Roberto. Se tiver que falar me consulte antes para a gente ver de que jeito.” Tudo bem. Diferente dos termos da Editora Abril. É uma coisa profissional, que você aceita ou não. Toquei minha vida, falando as coisas que eu queria. Um belo dia, o Presidente da Federação Paulista de Futebol, Eduardo Farah, mandou uma carta para o Armando, dizendo: “Eu não entendo. Vocês compram a preço de ouro o Campeonato Paulista e o colunista de vocês esculhamba a competição, dizendo que ela não tem a menor importância”. O Armando me telefonou: “Juca, estou te mandando uma carta que recebi do Farah. Te peço para você responder, mandar de volta para mim, para eu assinar. Eu acho que você responderá melhor do que eu. Faço questão de que você diga que aqui na Rede Globo há uma clara separação entre a compra de direitos e o jornalismo”. Escrevi uma carta para o Farah, em nome do Armando, me defendendo. Esta foi a primeira. Tempos depois houve uma briga do Ayrton Senna com o Balestre, Presidente da FIA. Eu não me metia em Fórmula 1, mas a briga estava acesíssima, e eu fiz um comentário dizendo que o Senna inevitavelmente teria que recuar porque ele era muito moço ainda para correr na F-Indy, que era o que acabaria acontecendo se ele peitasse o Balestre. No dia seguinte, o Armando me telefona: “Juca, você gosta de Fórmula 1?”. “Você sabe que não”, respondi. “Você entende de Fórmula 1?”, ele retrucou. “Um pouco, né, Armando?”. “Então vamos combinar uma coisa: deixa que o Galvão Bueno e o Reginaldo Leme falem do assunto. Estamos aqui ofendidíssimos porque você fez uma gozação com Ayrton Senna. Então, não te mete nisso, tá?”

Mas o melhor dos episódios com a Rede Globo deu-se exatamente às vésperas da Copa de 1990, já sem o Armando Nogueira, e com o Alberico de Souza Cruz de Diretor de Jornalismo. O Flamengo havia entrado na Justiça comum contra uma mudança de estatuto que o Ricardo Teixeira havia feito na CBF. A Fifa chamou o Ricardo Teixeira e disse a ele que ou o Flamengo tirava a ação da Justiça ou o Brasil corria risco de ser tirado da Copa da Itália. Nesta época, a Rede Globo era na Praça Marechal Deodoro [em São Paulo] e eu gravava meu comentário para o Jornal da Globo, que era apresentado pelo Eliakim Araújo e pela Leila Cordeiro. Entro no estúdio para gravar meu comentário com o Jornal Nacional ainda no ar, e ouço o Joelmir Betting dizendo ao vivo: “Está na hora do Senhor Márcio Braga abdicar de suas questões pessoais com o Presidente da CBF e retirar esta ação da Justiça porque o Brasil correr o risco de não participar da Copa do Mundo é um assunto muito sério. Boa noite.” Acaba o Jornal Nacional, apagam as luzes, o Joelmir me vê e diz pra mim, com ironia: “Assinado, José Bonifácio de Oliveira, o Boni”. E eu falei: “Não, assinado Joelmir Betting. Se as pessoas que estão te vendo achassem que é uma determinação da Casa, o Cid Moreira ou o Sérgio Chapelin que lessem, e não você. Quando você entra, é a sua cara. E o pior é que você está errado, porque o Flamengo não vai recuar. A CBF vai recuar, a Fifa vai recuar”. “E como você sabe, Juca?”. “Este vai ser o meu comentário para o Jornal da Globo”, respondi. “Faço questão de ver”, me disse o Joelmir. E eu fiz o comentário, dizendo que “a Fifa não sabe a confusão que armou para si mesma: o Presidente do Flamengo, Márcio Braga, com quem conversei, está indo ao Tribunal de Haia contra a Fifa por ter se metido numa questão local entre a CBF e o Flamengo. É direito constitucional no Brasil ir à Justiça comum para qualquer caso, e o Presidente do Flamengo quer discutir isso internacionalmente. É tudo o que a Fifa não pode admitir porque certamente o Tribunal de Haia dará razão ao Flamengo e o poder imperial da Fifa começará a ruir”. Eu acabo de fazer este comentário e o Joelmir vira pra mim e diz: “De duas, uma: ou este comentário não vai pro ar, ou é seu último comentário na TV Globo”. Fui embora pra casa e falei pra Ledinha que não podíamos perder o Jornal da Globo, pois poderia ser minha última participação. Perto da meia-noite, terceiro bloco, entro, faço o comentário, volta para o estúdio, tudo numa boa. Resolvi telefonar para o Editor de Esportes do Jornal da Globo, que era o meu chapa Marcelo Matte, que hoje é Diretor da Globo de Belo Horizonte. Minha idéia era ligar pra ele e dizer: “Vamos embora os dois amanhã, porque você colocou esta merda no ar.” O problema é que quando eu telefonei fiquei sabendo que o Marcelo não tinha ido trabalhar naquela noite, pois o neném dele estava com algum problema e tinha ido para o pronto-socorro. Cacilda! Com a ausência do Marcelo imaginei que ninguém tinha checado meu comentário. “Amanhã vai dar merda”, pensei. No dia seguinte, chego na Abril às 10 da manhã e minha secretária, Rita, logo me diz que o Alberico tinha ligado. Correu o dia, não consegui retornar o telefonema, fui almoçar, e quando voltei ele tinha ligado de novo. Liguei e ele foi logo me dizendo: “Filho da puta, você nasceu com rabo virado pra Lua. O Boni estava indignado com você hoje, ligou e perguntou para mim quem esse Kfouri acha que é para ir contra a posição da Globo!”. Então eu perguntei pra ele: “Por que você diz que eu tenho o rabo virado pra Lua se eu perdi meu emprego?” E o Alberico respondeu: “Não, você não viu as notícias da tarde? A Fifa recuou e mandou a CBF se entender com o Flamengo. O Boni ligou pra mim agora há pouco e falou que o Kfouri nos salvou. Parabéns!”

Fica a lição que eu sempre falo para a garotada: não há nada como uma notícia bem colhida. Mesmo que contrarie os interesses da empresa para a qual você trabalha, porque a verdade acaba prevalecendo. Desde que você não faça uma provocação, não use um adjetivo, nunca chamei o Ricardo Teixeira de coisa nenhuma, nem a Fifa, nada. Apenas vai acontecer assim, e aconteceu assim. Na Rede Globo eu trabalhava com as minhas cautelas sem deixar nunca de pontuar as coisas que eu achava essenciais. Nunca! Houve crises, houve dias em que me tiraram de jogo como reprimenda ao que eu tinha dito na noite anterior, mas isso era muito mais o pessoal do segundo escalão do que do primeiro. São os que interpretam a cabeça do rei. São mais realistas que o rei, que pensam como o Doutor Roberto Marinho pensaria e tentam interpretar a cabeça do Doutor Roberto. Isso é que criava problemas. Saí da Globo porque quis, por causa do relançamento da Placar que ia me tomar um tempo maluco, e era justamente na época em que eu estava fazendo o Jornal da Globo ao vivo, com a Lilian Wite Fibe, às duas da manhã. E eu tinha que chegar na Abril às 10 horas e não estava agüentando.

O incrível e genial João Rath

“Ele punha os dois pés em cima da mesa e datilografava conversando com você. Tirava a lauda e não tinha um erro.”

Há um episódio difícil de sua carreira, quando você assumiu a Placar e precisou demitir uma pessoa que admirava.
Este é o episódio mais traumático da minha vida profissional.

Mais do que a saída da Abril?
Mais do que a saída da Abril. Se você me perguntar se eu conheci um gênio na sua vida, vou te dizer que devo ter conhecido diversos, mas se puder escolher só um, eu diria João Rath. Ele era um jornalista gaúcho, trabalhou com Leonel Brizola, foi pro Rio de Janeiro e um belo dia apareceu na Placar, levado por Milton Coelho da Graça e por Jairo Régis. Cabelo branco, comprido, parecia um pajem, meio gordo, manso, ele punha os dois pés em cima da mesa e datilografava conversando com você. Tirava a lauda e não tinha um erro. Ele escrevia no quadro-negro com as duas mãos, gostava de tango. O Nelsinho Silva, Chefe da Sucursal da Veja no Rio de Janeiro e muito amigo do Azêdo, contava que um dia, em Buenos Aires, ele e o Rath foram para uma tangueria dessas autênticas, de raiz, e ficaram horas vendo os velhinhos cantando. E o João Rath acompanhando tudo. Quando deu umas quatro da manhã, os velhinhos vêm à mesa e dizem para ele: “O senhor não pode ser brasileiro. O senhor cantou dois tangos gravados pela última vez em 1922, que ninguém conhece, que meu avô me ensinou, e que o senhor não poderia conhecer.” Mas o Rath conhecia.

Outra história dele: no meu último ano de faculdade fui fazer um trabalho sobre a Primeira República e pus em epígrafe uma frase do Graciliano Ramos que pouca gente conhece, que diz assim: “Naquele tempo os rádios não anunciavam o resultado dos jogos entre Flamengo e Vasco porque não existia rádio, nem Flamengo nem Vasco”. Eu pus isso no meu trabalho e o Professor Brás, de Política, que já morreu, me perguntou: “O que é isso?”. “Isso é do Graciliano Ramos”, respondi. E ele me disse: “Nós somos uns cretinos, né, Juca? A gente lê muito ensaio, muita sociologia, muita política, eu não conheço isso, que é maravilhoso”. Ele pediu que eu o ajudasse na organização de uma Semana de Literatura na Faculdade, onde começaríamos com Graciliano Ramos. Começo a pesquisar o assunto e descubro que a grande autoridade em Graciliano Ramos em São Paulo é o Professor Antônio Cândido, da Faculdade de Letras da Usp. Estavam acabando de relançar as obras de Graciliano, todas com prefácios feitos pelo Antônio Cândido. Como eu era muito amigo de uma discípula dele, Walnice Nogueira Galvão, ela me arrumou um encontro com Antônio Cândido na casa dele. Vou até lá convidá-lo para a tal Semana de Literatura, e ele me diz que adoraria fazer, mas que estaria em Paris naquelas datas. Mas me dá uma dica: “Tem um cara que eu não sei quem é exatamente, mas acho que é seu colega, jornalista, que sabe mais de Graciliano do que eu. Ele me enviou uma carta maravilhosa analisando meus prefácios”. O Antônio Cândido foi então pegar a carta de umas dez folhas manuscritas. Quem assinava a carta? João Rath! O Professor Antônio Cândido em pessoa me disse que o João Rath conhecia mais Graciliano Ramos que ele. Eu fui falar com o João: “Você é um canalha, você está sabendo que eu estou querendo fazer este troço, e nem me fala nada!”. “Mas não vou nem morto”, me responde o João. Ele era assim.

Às quintas-feiras, o João ligava o rádio baixinho na Redação para ouvir as corridas do Jóquei aqui em São Paulo, e com dez segundos de corrida ele falava quem ia ganhar. E invariavelmente ganhava. Uma figura de outro mundo. Eu me separei do primeiro casamento sob administração do João Rath, Chefe de Redação da Placar e eu Chefe de Reportagem. Ele me dizia: “É sofrido, mas vai chegar um dia que você vai ter mais saudades de um armário que você deixou do que do casamento”. Eu estava deixando minha mulher, com quem namorei desde os quinze anos, e dois filhos. E não é que num belo dia eu me dei conta de que ele tinha razão?

E como foi esta demissão?
Em 1979, acaba a greve dos jornalistas, da qual eu participei como Diretor de Sindicato que era, como líder do piquete da Editora Abril, que não precisou de piquete porque foi a única empresa que teve adesão de 100%, como só poderia acontecer numa empresa que pagava melhor e que tinha o pessoal mais consciente. Tinha gente sendo demitida por tudo quanto é canto, maior depressão nas Redações de São Paulo. O Milton Coelho, publisher do Grupo Masculino de revistas, me chama e diz: “O Jairo Régis está indo ser dono de distribuidora da Abril em Vitória e você vai ser diretor da Placar”. Eu falei pra ele: “Miltinho, você está maluco? Acabei de liderar uma greve.” E ele me respondeu que o Roberto já estava a par, e que era pra eu subir pra conversar com ele. Entro na sala do Roberto, uma pessoa nesta altura com quem eu já tinha nove anos de convivência e intimidade: “Roberto, você endoideceu? Por quê?” E ele me respondeu: “Tenho certeza de que você vai dirigir a Placar com a mesma gana com que você participou desta greve maluca que vocês inventaram. Parabéns, conto com você!” E assim eu comecei a dirigir Placar. João Rath, até então meu chefe, vai à minha sala e diz: “Juca, eu não esperava isso de você. Chamaram você para fechar a revista.” E eu respondi que de jeito nenhum, muito pelo contrário, que tinham me chamado para eu tocar a revista. João teimava que era para fechar, eu insistia em que não, e no meio da discussão disse a ele: “João, como é que eu posso ter um Chefe de Redação que acha que eu estou aqui para fechar a revista? Você está louco?”. Ele respondeu: “Você está me demitindo?”. E eu disse: “João, jamais passou na minha cabeça um negócio desses, mas com as coisas postas nestes termos o que você me aconselha? Você acha que eu posso trabalhar com alguém que acha que eu estou aqui para fechar a revista?”. Ele simplesmente disse “entendi”, levantou-se, foi embora e nunca mais voltou. Demiti. Pus o Celso Kinjô no lugar dele. Dois dias depois, estou trabalhando, começo a sentir uma pulsação no abdômen. É uma sensação cada vez mais forte de estrangulamento, pego o meu carro e corro para o hospital. No caminho, a sensação volta mais duas ou três vezes e eu tenho até de parar o carro para estender a perna. Chego no Hospital São Luís, no Itaim, explico o caso para o Dr. Vanderlei, que me manda deitar. Fico lá quinze minutos, vinte minutos, meia hora, e o médico me diz que eu não tenho nada. “Como, nada?” O Dr. Vanderlei me pergunta: “Juca, você teve alguma contrariedade, alguma emoção nestes últimos dias?” Respondi que sim, que tive que mandar embora o cara pelo qual eu tinha a mais profunda admiração. Ele me diz: “Você já teve palpitação na pálpebra?”. Pois é, você está tendo a mesma coisa na região do abdômen. Passa na farmácia, compra um calmante e toma a metade que passa.” Eu, que nunca tinha tomado calmante na minha vida, dormi 18 horas seguidas! Fui dormir às 10 da noite naquele dia e acordei às 6 da tarde no dia seguinte. Eu brinco sempre dizendo que tive uma “palpitação rathiana”. Depois ele foi para O Globo, brilhou no Globo. Morreu jovem, teve um câncer. É uma das coisas que eu lamento porque a gente nunca mais se viu, nem se falou.

Você escreveu um editorial quando a Placar fez 18 anos que conta um pouco da sua admiração pelo Rath.
Sim. Não tinha lembrança, mas fiz isso, sim. Mas os dois maiores orgulhos das coisas que fiz na minha carreira como jornalista são uma coluna do João Saldanha intitulada “Pois é isso, Juca”, que está ali pendurada na parede, e a matéria que eu fiz para a Playboy em que eu descubro a identidade do Carlos Zéfiro.

A identidade secreta de Carlos Zéfiro

“Se tivesse que escolher uma coisa que eu tenha feito na minha vida de jornalista, seria esta a matéria”

Vamos então falar da Playboy. Não sem antes citar aquela famosa piada machista: Quem edita a Playboy ainda acha justo ganhar salário?
A Redação da Playboy é tão engraçada ou tão sem graça quanto a Redação da Quatro Rodas. Do mesmo jeito que na Redação da Quatro Rodas você não encontra ninguém com mão cheia de graxa, cheirando a gasolina, também na Playboy não tem coelhinhas servindo champanhe pela Redação. Foi um tempo muito legal. Chego na Playboy em condições traumáticas com a morte do Mário [Escobar de Andrade], que era muito meu amigo. Herdo uma Redação que não era a minha, era montada por ele.

Por quê?
Fui para lá por uma série de razões: primeiro: o sonho de Mário Escobar de Andrade era que trabalhássemos juntos. Estávamos começando a trabalhar juntos no grupo de revistas masculinas da Abril. Quando ele morre, o Thomaz me chama e diz: “Lastimavelmente vamos realizar o sonho do Mário sem o Mário. Quem vai assumir a Direção de Redação de Playboy é você”. Me ocorre então fazer da Playboy uma revista também investigativa, de levantar a verdadeira identidade do [Carlos] Zéfiro. Deixo a idéia arquivada. É aquela velha história que o Nélson Rodrigues falou: “Sem sorte você não chupa nem um picolé”. Eu estava há 20 dias com esta coisa na minha cabeça, e me aparece um professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Moacy Cirne, bela figura, me propondo que a Playboy patrocinasse um estande de quadrinhos eróticos num festival de quadrinhos que a UFRJ ia fazer no Centro Cultural Banco do Brasil. Eu falei: “Claro, prestígio para a Playboy, que publicava histórias em quadrinhos eróticas, de um argentino e de um holandês”. Aproveitei o assunto e disse ao Moacy que tinha grande interesse no Zéfiro. Ele me disse que seria dificílimo chegar até o Zéfiro, mas que ele tinha o contato do amigo do editor dele, que seria proprietário de um sebo nos Arcos da Lapa. Fui atrás desta pista. A história toda foi publicada na Playboy de novembro de 1991, onde eu fiz um making of da matéria.

Foi uma coisa tão enlouquecida que apareceu até um falsário no meio que chegou a levar o Jaguar na conversa. O Jaguar publicou a notícia como se esse falsário fosse realmente o Zéfiro, mas não era. Eu quase joguei a minha carreira fora com esta história, bom, quer dizer, estou exagerando um pouco. Na verdade eu vou falar com o tal editor do Zéfiro, que o Moacy me indicou. Ele se chamava Hélio Brandão, uma figura de quase 200 quilos, atrás de um balcão no sebo no Largo da Lapa, no Rio de Janeiro. Quando eu entrei no sebo, ele me reconheceu, porque eu fazia o Jornal da Globo: “Oi, Juca, gosto de você. Quer ver material de futebol?”. Sentei com ele e falei: “Na verdade, eu queria conversar com você sobre o Zéfiro”. Ele me disse para eu não perder meu tempo, porque o juramento que ele tinha feito com o Zéfiro era um pacto de sangue, ao estilo dos índios, coisa muito séria e que ele jamais revelaria a identidade do Zéfiro. E eu respondi: “Te agradeço muitíssimo, porque pelo menos já sei que ele está vivo. Eu vou descobrir.”

Passou mais um tempo e o Moacy me liga com outra dica, sobre um tal de Eduardo Barbosa, um sujeito que veio da Bahia. Eu burro, idiota, levo o cara no Antiquarius. O Moacy foi junto. O sujeito me diz que é o Zéfiro, que tinha trabalhado com Samuel Wainer, tinha feito a Bíblia Ilustrada, e me fala também que precisava fazer uma operação, e que só toparia dar o depoimento em que a gente o identificasse se a Abril pagasse a operação dele. Eu falei que nem pensar, que a Editora Abril não pagava informação. No final das contas o sujeito tomou um porre no Antiquarius e saiu carregado. Mais tarde, passo lá no sebo, para ver se tirava mais alguma coisa do Hélio Brandão. Dei um golpe nele: “Porra, descobri o Zéfiro! É o Eduardo Barbosa”. Não o senti nem decepcionado nem entusiasmado. Me despedi. Estou na porta, ele fala: “Juca, Juca, vem cá, não devia fazer isso. Devia deixar você se fuder. Mas eu gosto de você, seu metiê não é esse, seu metiê é futebol, você é um cara diferente. Eu não vou te dizer quem é, mas não é o Barbosa. Barbosa fez coisa com o Zéfiro, trabalhou com o Zéfiro, às vezes fez coisas em nome do Zéfiro, mas não é o Zéfiro. Eu não vou lhe dizer quem é o Zéfiro.” Dei uma bronca nele: “Porra, Hélio, assim não vale, aí é uma sacanagem. Você não me diz quem é, eu descubro quem é, agora você me diz que não é, eu fico com uma puta interrogação, eu fico achando que o senhor quer protegê-lo mais do que ele quer ser protegido. O senhor quer me levar à loucura! O senhor não me dá uma dica de quem é ele.” Fiz assim, como se tivesse ficado muito bravo, e ele me disse: “Vou te dar uma dica, que não vai te adiantar nada, mas ele é parceiro de uma das canções de maior sucesso da música popular brasileira. E passe bem!”. Eu perguntei se era parceiro conhecido e ele falou que não.

Para azar do Hélio Brandão, a minha irmã, Maria Luiza Kfouri, que chamo de Mana, é uma das maiores pesquisadoras de mpb que existe neste País. Ela tem um site maravilhoso chamado discosdobrasil.com.br, que tem a discografia quase completa da mpb, incluindo o cara que toca bandolim, o flautista, todos os músicos, um trabalho incansável que ela fez por conta e risco dela com pouquíssimo auxílio. Eu cheguei em São Paulo e perguntei para ela: “Mana, existe alguém que possa ser o Zéfiro?”. Ela responde: “Ah Juca, existem dezenas porque tem toda uma classe de pessoas que compravam a música, compravam a letra, só para ter o prazer de ser parceiro, de Chico Alves, não sei quem ou vice-versa. Chico Alves não compunha porra nenhuma, mas comprava de um autor”. Eu pedi, pra começar, dez nomes por ordem alfabética. Ela me deu. Aparece lá: Alcides Caminha, parceiro de Nélson Cavaquinho em A Flor e o Espinho, aquela do [cantarola] “tira seu sorriso do caminho que eu quero passar com a minha dor”. Concomitantemente a esta pesquisa na mpb, eu descubro que aqui em São Paulo, na Rua Joaquim Floriano, no Itaim Bibi, tinha um outro editor, que andou editando o Zéfiro, colorido, já pós-ditadura. Vou falar com ele, um sujeito que nada tem a ver com o Hélio Brandão: paletó, gravata, meio yuppie, encantou-se em conhecer o Diretor da Playboy. Eu perguntei com quem ele tratava os direitos dos quadrinhos, e ele me disse que era com uma irmã do Zéfiro, lá em Anchieta, subúrbio do Rio. E me dá o telefone dela. Esqueci o nome, dona, sei lá, Zéfira Caminha. Telefono: “Estou fazendo uma reportagem para Playboy sobre grandes compositores que não tiveram o devido reconhecimento e soube que a senhora é irmã de um compositor que fez sucesso.” Ela responde: “Ah claro, ele mora aqui pertinho, mas não tem telefone, mas eu posso levá-lo lá”. No dia seguinte peguei o avião, fui pra casa dela, e ela me levou à casa dele. Chego lá, é uma casa pobre, fui atendido por uma senhora, mulher dele. Tinha um senhorzinho pequeno, humilde, e eu pensando “não pode ser o sacana que a gente conhece”. Porque havia mil teorias sobre o Zéfiro. O Sérgio Augusto, por exemplo, tinha a tese de que Zéfiro tinha ligação com Eros da mitologia grega, deus do amor. Ou que ele era um ex-seminarista porque chamavam os livrinhos de catecismo, mil teorias. Eu começo a conversar, gravo com ele duas horas sobre Nélson Cavaquinho. Ele me conta que Nélson o ensinou a tomar conhaque, que os dois eram boêmios, que comeram metade do bairro, que a mulher dele sofreu muito por causa das aventuras dele, etc. Peço então uma foto dele. Ele me leva para o quarto, sentamos na cama dele, e ele abre uma gaveta para buscar a fotografia. E eu vejo que no pé da cama tem uma estante destas de aço com uma porção de pastas cor-de-rosa, quase iguais às do Dedoc de antigamente. Eu me levanto da cama, e enquanto ele mexe na gaveta, meto a mão numa das pastas e tiro uma página de revista, não lembro se Manchete ou O Cruzeiro, com uma propaganda de lingerie. Ele salta da cama, desesperado: “Pára, não mexe aí”. Eu digo: “Calma, Senhor Alcides. O que houve?”. Ele fica muito bravo: “Como o que houve? Você entra na minha casa, e vai mexendo nas coisas?”. Peço desculpas, coisa e tal, ele se acalma e começa a mostrar as fotos. Aí eu falo baixinho no ouvido dele: “Senhor Alcides, o senhor é o Zéfiro?”. Ele nega. Eu falei: “Senhor. Alcides, vamos estabelecer aqui um princípio. O senhor sabe quem eu sou, me vê na televisão. Eu não vou publicar rigorosamente nada a seu respeito que o senhor não consentir. E já poderia publicar, porque estou convencido de que o senhor é o Carlos Zéfiro. Não vou publicar nada, já tenho a matéria mesmo parando aqui. Mas quero que o senhor saiba que já tem gente que me disse ser o senhor.” Ele me pergunta quem e eu respondo: “Eduardo Barbosa. E eu quero entender porque o senhor teme tanto em aparecer”. Ele me mostra o Estatuto do Funcionalismo Público, com um artigo que mostra que você perde a aposentadoria se for objeto de escândalo ou falta de decoro. E ele era funcionário público aposentado. Falo pra ele: “Senhor Alcides, o senhor acha que estamos ainda na ditadura? O senhor não vai ser objeto de escândalo, vai ser homenageado. Há gerações que querem saber quem é o senhor. Há gerações que tiveram iniciação sexual com seus catecismos. Como é que o senhor acha que isso pode lhe causar problema?” Dei o golpe. “Vou lhe dizer mais. Quanto é sua aposentadoria?”. Era algo em torno de R$ 150,00. Continuei: “Se nós viermos a publicar esta matéria e acontecer aquilo que o senhor tem medo… não há a menor hipótese, mas se acontecer, a Editora Abril manterá sua aposentadoria até que o senhor morra. Eu mesmo deixo de almoçar ou jantar num restaurante chique uma vez por mês e deposito na sua conta, tal mixaria é esta que o senhor recebe. Mas eu quero que o senhor me dê a chance de fazer esta matéria.”

Ele reluta e pede para que eu fale com o filho mais velho dele, Diretor de Recursos Humanos de uma empresa em Campo Grande, uma figura ótima, que até hoje me telefona no Natal. Fui conversar com ele, que me disse que toda a família já havia tentado convencer o Alcides a tornar tudo isso público. Torno a falar com o Alcides/Zéfiro e faço uma nova proposta, a de escrever a matéria e submeter todo o conteúdo a eles. Se a família aceitar, eu publico. Se não deixar, acabou. Vou embora, não se toca mais neste assunto e eu morro cúmplice deste segredo. Aí começam as coisas mais engraçadas que já me aconteceram, porque num belo domingo, pego um avião, vou a Anchieta e chego na casa deles, com todo mundo reunido: filhos, as noras, netos, todos numa mesa grande vendo o Fantástico. Nunca me esqueço. Fez “plim plim” na televisão, e eu com a pasta com as páginas pestapadas, pergunto: “Como é que vocês querem fazer? Quem vai ler?”. “Você mesmo lê”, me responderam. Fez o “plim plim” de novo e eu começo a ler a matéria. Leio, leio, leio, leio, leio, leio e de repente eu começo a ouvir que a mulher dele está chorando. Ele está fumando, os filhos prestando atenção. Quando eu acabo de ler é que acontece a cena mais bizarra: a família aplaude. É a única vez na minha vida, que eu saiba, que uma matéria minha é aplaudida. Todos aplaudem, eu saio com a minha matéria, pego a ponte aérea naquele mesmo domingo, e volto para São Paulo com a matéria para imprimir.

Se eles falam não, você tinha uma plano B?
Sim, eu tinha um plano B para colocar no lugar. Mas a matéria com o Zéfiro sai em novembro; em dezembro ele é entrevistado no programa do Jô Soares; em janeiro o Zéfiro é paraninfo da turma do Moacy Cirne na UFRJ, e em fevereiro ou março ele morre. Razão pela qual este filho dele me liga todo ano para dizer “ainda bem que o papai te deu esta entrevista”. Do ponto de vista jornalístico, isso me agrada muito, porque tira o conceito, equivocado, de que jornalismo investigativo no Brasil é necessariamente denúncia. Não é. Essa é uma matéria que deu este trabalho, teve estes percalços, essas idas e vindas, mas que deixou uma pessoa muito feliz. Quer dizer, não é aquela coisa da gente gostar só de miséria, de má notícia. Não é verdade. Se eu tivesse que escolher uma coisa que eu tenha feito na minha vida de jornalista, muito mais do que ter comandado a matéria da Loteria Esportiva, ou enfim, ter redundado uma matéria minha da Nike, da CBF, da CPI, seria esta matéria do Zéfiro.

Com relação às garotas que foram capas da Playboy, tem alguma que você tenha…
[Juca Kfouri interrompe] Você é um canalha, né? [risos] Você sabe que tem, porque já me viu falar em algum lugar. Fiz 48 capas de Playboy, entre elas a Bruna Lombardi. Mas teve a de uma moça que era de destruir casamento. Chamava-se Piera, lindíssima e apaixonante. Se ela piscasse o olho eu jogava tudo fora. De resto nada, nada, nada… Vou te dizer mais. Eu participei de poucas negociações porque havia quem negociasse, quem produzisse. Não gosto nem de citar nomes porque invariavelmente achava tudo muito baixo. Por exemplo, a moça querer explorar o fato de ser Editora Abril e querer jantar no restaurante mais caro de São Paulo, escolher champanhe Cristal, vinho mais caro, entrar na minha sala para fazer um telefonema internacional para o marido que estava em Nova York, tudo à custa do Seu Victor Civita, entendeu? Era tudo muito mesquinho, eu acho. Por outro lado, há pessoas que eu admirei. A Glória Pires, por exemplo. Ela entrou na minha sala com o marido, virou-se para mim e disse: “Juca, muito prazer! Olha aqui, vou te deixar muito clara uma coisa, não vem com esta conversa pra cima de mim de nu artístico, esta coisa idiota, porque se eu posar para Playboy vai ser por grana, apenas por grana. Para fazer Playboy tenho que sair daqui com um apartamento. Se não, nada feito”. Pergunto que tipo de apartamento ela quer, e ela responde: “Na Lagoa ou na Vieira Souto”. Falei para ela que não havia a menor hipótese de a Abril pagar um apartamento assim. “A menor, Juca?”, ela me pergunta. “A menor”, respondo. “Muito obrigada, foi um prazer”. Levantou e foi embora com o marido. Dez minutos.

É bom que se frise, os últimos dois anos meus na Playboy foram, talvez, do ponto de vista da equipe, os dois anos mais gratificantes da minha carreira, e olha que ironia, graças ao “passaralho” em pleno plano Collor. Ele ganha a eleição, fica tudo congelado, e a Playboy teve que fazer das tripas coração para inventar ensaios porque não podia pagar grandes cachês. Foi a fase em que a Playboy inventou as trigêmeas, as gaúchas, a namorada do PC Farias; enfim, foi por aí. Mas aí teve um “passaralho” na Abril, com corte de 30% da folha, e eu faço de um jeito que aquilo que tirava da folha de pagamento eu pagava de freelancer. Assim, a Redação de Playboy passou a ter Humberto Werneck, Eugênio Bucci, Nirlando Beirão, uma equipe do cacete! Uma equipe que faz as coisas e você não mexe numa vírgula. Investimos no jornalismo. O Eugênio fez uma matéria contando a cirurgia plástica do José Dirceu. Enfim, ganhamos prêmio pra burro, e criamos um ambiente como poucas vezes eu vi numa Redação. De maneira tal que justificava o cara dizer que comprava a Playboy pela entrevista. Playboy é uma revista de mulher nua que deve ter um recheio inteligente e de bom gosto. Houve épocas que teve e houve épocas que não teve. Agora está querendo voltar a ter, eu acho. A revista melhorou, e teve um período que foi um horror, há quatro ou cinco anos, que é o único caso que eu conheço de a revista baixar para o segundo colocado, e ficar mais parecida com a Sexy. Ao invés da Sexy se aproximar da Playboy, a Playboy se aproximou da Sexy, virou ginecológica, com entrevistas horrorosas. Foi uma experiência péssima que eles tiveram lá. Mas agora está retomando uma linha que nem era mérito meu, mas sim de Mário Escobar de Andrade, que era o fiel adepto da idéia de que Deus está nos detalhes. Ele era um editor de mão cheia. Playboy me deu o gosto de fazer uma coisa fora do futebol. Foram a Playboy e um programa de entrevista ao vivo que eu tive um período na CNT, que era um talk show em que eu entrevistava políticos.

A hora da mudança

“Pensei: Tô fudido. Depois de 25 anos, o mercado deve olhar para mim como móveis e utensílios da Abril.”

Não sei se foi coincidência ou não, mas de 1994 para 1995 você dá uma virada profissional na sua vida. Troca a Rede Globo pela Cultura, o jornal O Globo pela Folha de S.Paulo e é também justamente o momento em que sai da Abril.
Exatamente. Não vou mentir para você, fazer de conta que não é assim. É impressionante! Eu não sei como você lida com a insegurança, mas é impressionante como eu sempre tive na minha vida uma insegurança permanente. Coisas do tipo “não vou passar de ano, não vou ser titular do basquete”. E como as coisas iam acontecendo, eu vi que não precisava mais ter medo, que eu passo de ano, que eu jogo no time. Nunca planejei nada. Nunca achei que seria diretor de revista, e eu acho que as coisas que aconteceram comigo aconteceram justamente porque eu não planejava, ou porque eu não lutava por elas. No dia em que eu falei para o Tomáz “manda fazer as contas que eu vou embora”, eu saí da sala dele e sentia falta de chão. Pensei: “Tô fudido. Depois de 25 anos, o mercado deve olhar para mim como móveis e utensílios da Abril. Devem achar que eu ganho uma fortuna e nem vão querem me fazer proposta nenhuma”. Tanto que eu procurei a Folha de S.Paulo, fui ao Otávio Frias Filho e disse que estava negociando minha saída da Abril. E propus a ele uma coluna dominical de esportes como o Elio Gaspari tem a página dele na Folha. Ele olhou para mim e falou: “Não sei se eu quero uma coluna dominical como a do Elio Gaspari, mas que você me interessa como colunista da Folha, me interessa, deixa eu pensar. Me liga depois de amanhã”. Estou sendo claro, não é que eu saí da Abril e a Folha imediatamente me convidou. Eu fui lá me oferecer porque eu achava que ninguém ia querer saber. Volto para casa. Há no dia seguinte o acordo de como seria o comunicado da Abril, e isso corre no mercado. Matinas Suzuki, então Diretor de Redação da Folha fica sabendo, procura o Otávio, não o encontra, dizem para ele que o Otávio está na sala do Seu Frias, ele sobe à sala do Seu Frias, e diz: “O Juca Kfouri está saindo da Editora Abril”. Otávio diz: “Eu já sabia”. Seu Frias diz: “Contrate-o. Ele vai ser o Jânio de Freitas no nosso esporte”. Otávio me liga: “Juca, aquilo que era uma oferta sua virou uma obrigação. Você me deixou em maus lençóis. Meu pai mandou eu te contratar.” Isso muda os termos da negociação. Fui lá conversar com o Otávio, ele me mandou falar de dinheiro com o Matinas, mas não era exatamente o que eu esperava. Estou saindo da editora, toca o telefone era o Aluizio Maranhão, do Estadão, dizendo que o Doutor Rui Mesquita mandou ligar e para eu não fechar nada com ninguém. Eu disse: “Te agradeço muito, tenho uma proposta da Folha, que não é exatamente a que eu esperava, mas eu vou trabalhar lá. Agradeço muito mas não vou fazer leilão”. Quando cheguei em casa, Matinas estava me ligando dizendo que o Otávio tinha aceito a proposta que eu fiz. Saí da Abril numa sexta-feira, minha coluna na Folha estreou no domingo. Imediatamente choveram propostas de rádio, e em dois meses e meio eu ganhava mais do que ganhava na Editora Abril durante 25 anos. Claro que havia diferenças, por exemplo, aprendi que o meu carro não era meu carro, que meu telefone celular não era meu, que o meu laptop não era meu, meu plano de assistência médica, que era ótimo, nada disso era meu. Era tudo da Abril, inclusive as duas passagens de classe executiva para a Europa por ano. Tive então de comprar um carro, de fazer um plano médico, comprar celular, laptop, todas estas coisas que acontecem com a vida da esmagadora maioria das pessoas. Também não preciso trocar de carro todo ano, como trocava de carro o leasing da Abril, eu também não precisava viajar necessariamente de classe executiva, e logo as coisas estavam iguais. E uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida foi eu ter começado esta minha carreira solo, a ponto de prometer para mim mesmo que eu nunca mais estaria todo dia no mesmo lugar, na mesma hora.

Promessa que eu rompi por causa da CBN, de um maluco chamado Agostinho Vieira, que dirigia o Jornalismo da Rádio. Lá eu fazia uma coluna diária com Heródoto Barbeiro, gravada, e uma participação no final da tarde com Sidney Rezende, ao vivo. Comecei a me cansar do compromisso de estar ao vivo todo dia, exatamente na mesma época de uma crise econômica do Governo Fernando Henrique que começou a cortar pessoas e reduzir salários nas Redações. E o meu contrato estava terminando. O Agostinho me ligou e disse que precisava conversar comigo. Eu achei que ele iria me propor uma redução de salário, o que seria uma deixa ótima para eu parar. E ele começa a conversa assim: “Juca, tem alguma coisa que te desagrada na CBN?”. Eu falei que sim, que me desagradava muito estar obrigatoriamente todos os dias às 17 horas em algum lugar com telefone fixo para eu entrar no ar. Até brinquei com ele, dizendo que eu não podia nem ir à matinê. Ele riu e falou: “Nós fizemos uma pesquisa e identificou-se que a voz do esporte na cabeça dos nossos ouvintes da CBN é a sua. Assim a gente quer te propor um programa de rádio todo dia às oito horas da noite, do seu jeito com a sua cara, com o nome que você propuser, como você quiser”. Eu respondi: “Agostinho, mas nem morto. Não há a menor hipótese de eu sair todos os dias na hora do rush da minha casa na Vila Nova Conceição para vir aqui na Rua das Palmeiras! Você está louco, não vou mesmo, não há hipótese!”. Aí ele me perguntou se eu estava rasgando dinheiro e me fez a proposta. Era impossível dizer não! Impossível. Principalmente levando-se em conta a realidade do rádio brasileiro, que é invariavelmente pobre. Minha mulher, a Ledinha, viveu a vida inteira dela aqui em Higienópolis, e eu sempre vivi pelo Itaim, Vila Nova Conceição e Vila Olímpia. Falei para ela achar um lugar em que eu pudesse fazer meu escritório também perto da rádio. Ela achou este apartamento, que tem uma história que não existe: ele era de uma moça casadoira que queria se casar em Paris com seu príncipe encantado e queimou este apartamento por um terço do preço porque o casamento não deu certo. Rabo é para quem tem. Comecei a fazer o programa, e voltei a ter o compromisso de estar todo dia às seis e meia da tarde num determinado lugar. Mas agora estou a cinco minutos da rádio, e valendo a pena. Rádio é certamente a única coisa que eu me arrependa na minha vida profissional de ter começado tão tarde. É muito gostoso fazer rádio. O que me diverte mais é rádio, o que me deixa mais leve é rádio, mas eu sou um filho de Gutemberg, e eu tenho um grande respeito pela mídia escrita e impressa.

Eu sou um felizardo! Sou ateu, mas todo dia de manhã eu acordo, olho pro céu, e falo “Ô meu, se as coisas continuarem do jeito que estão, passo a acreditar em você”. Realmente não tenho do que me queixar. Talvez, tenha sim do que me queixar, mas culpa minha mesmo, da minha obsessão, da minha ansiedade que é o tal do blog, que eu não imaginava que fosse me escravizar do jeito que escravizou. Eu comecei a ficar infeliz, muito nervoso e irritadiço, mas o Uol acabou resolvendo e colocou um cara para moderar os comentários.

Você lia todos os comentários? Não tinha ajuda?
O blog recebia entre 2.000 e 2.500 comentários por dia e eu lia todos para que não fossem publicadas ofensas, grosserias, enfim. E agora tem uma pessoa lá para fazer isso, o que me aliviou bastante. Em relação ao blog, quando a Folha quis que eu voltasse com a minha coluna lá, a maneira de viabilizar minha volta foi fazer um pacote com o Uol que incluía o blog e uma conversa minha, na época, com a Lilian Wite Fibe, que estava na Uol, às segundas-feiras. Lá me dizem que eu preciso postar no blog uma nota por dia, de segunda a sexta, o que aliás eu já fazia no Lancenet. Com a diferença que no Lancenet não tinha interação. Na véspera do blog entrar no ar, imaginei que se ele tivesse, talvez, uns 10 mil acessos, eu estaria feliz da vida. Acordei no dia seguinte às oito e meia da manhã e já tinha 60.000 acessos. Pensei: “E agora, como vai ser o dia inteiro? O cara vai entrar e só vai ter aquela notinha? Tenho que colocar outra porque se o cara gostou ele vai voltar”. Fiz uma segunda nota, uma terceira… e acabo fazendo em média de 8 a 9 notas por dia, mais ainda no final de semana, que eu não tenho obrigação, pelo contrário, mas tem os jogos. Comecei a acompanhar os jogos e a comentá-los um por um. Criei uma camisa-de-força para mim mesmo. Eu vou sair hoje daqui desta nossa conversa, vou para rádio, e quando eu voltar, à noite, vai ter gente me perguntando se estou de férias, se estou doente, se estou com problemas na família, se aproveitei o feriado porque faz seis horas que postei a última vez. É escravizador!

Em mídia eletrônica, sua estréia foi no SBT em 1984?
Não, a minha estréia em mídia eletrônica foi na Copa de 1982 por meio da produtora independente Manduri, do Mimito Gomes, que já morreu. Nossa, quanta gente de que falamos já morreu! Mimito morreu muito jovem. Fiz junto com ele e o Sérgio de Souza, que morreu há dois anos, um programa dominical na TV Record chamado Nossa Copa. Era um programa muito legal, moderno, que foi minha estréia na tv. Isso em 1982. Logo em seguida o SBT me chamou.

O que você acha hoje do jornalismo eletrônico no Brasil?
Para resumir, posso te dizer que o jornalismo político da TV Globo é muito mais independente que o esportivo. Por causa exatamente das coisas que levaram o Roberto Civita a não querer que eu falasse mais do Ricardo Teixeira. Existe uma confusão que os americanos resolveram muito bem: uma coisa é o departamento de entretenimento/eventos, e outra é o jornalismo. São coisas independentes entre si e que permitem que você compre o evento, glamurize o evento e narre entusiasticamente o evento, mas que seu jornalismo diga as coisas negativas que tiver de dizer sobre este mesmo evento. Na nossa televisão isso não acontece, porque uma coisa está ligada à outra. Por exemplo, quem vai gerar a Copa do Mundo no Brasil? A sua tv. Vai ter Olimpíada, quem vai gerar ? A sua tv. Bom, e como esta mesma tv vai falar que o [Carlos Arthur] Nuzman estourou o orçamento do Pan? Que Ricardo Teixeira está sendo acusado de evasão de divisas? Não passa, não tem independência. Por outro lado, o jornalismo político se faz de maneira absolutamente independente. Acho uma limpeza o Estadão recomendar para seus leitores que votem no José Serra.

Ainda que com um certo atraso.
Ainda que com um certo atraso, mas tomara que isso comece a acontecer mais cedo. O que eu não gosto é que isto influencie na cobertura. Você não pode editorializar sua cobertura, mas você tem todo o direito de dizer para o seu leitor que você acha que isso é melhor para o País, por que não? Até porque você acha, se você acha, você tem que contar o que você acha. É como eu negar para você que sou corintiano! É ridículo!

Em algum momento desta entrevista você disse que Ricardo Teixeira é o seu Collor. Você acha que este Collor não tem impeachment nunca?
Nunca! Por isso, faço meu ‘merchan’ “tome chá de cadeira esperando a queda do Ricardo Teixeira”. Uma das últimas coisas a se mudar neste País será a superestrutura do esporte. O esquema que se montou no esporte brasileiro, tanto no Cob, como na CBF, é uma coisa monolítica, absolutamente reacionária, absolutamente corruptora e corrompida. Falei reacionária, não se trata de ser conservadora. Eu digo sempre isso: o mundo deve muitas coisas boas ao pensamento conservador, independentemente de você concordar ou discordar dele. Mas o pessoal do nosso futebol e dos nossos esportes olímpicos é extremamente reacionário, extremamente reativo a qualquer tipo de mudança que mexa no seu privilégio, e vive à base de corromper pessoas e de se corromper, e de não ter transparência. Então, se perpetua.

Quais lições o jornalismo pôde tirar da última Copa do Mundo (2010)?
Essa Copa do Mundo tem um baita ensinamento para todos nós, jornalistas. Eu acho que é uma confusão que não precisava ser feita porque as coisas são muito mais simples do que se imagina. O Dunga estava absolutamente correto em não dar privilégios para ninguém, em cortar os privilégios que, por exemplo, o Jornal Nacional teve na Copa na Alemanha, e ainda expondo os jogadores do Brasil a dar depoimentos ao vivo durante a madrugada, quando eles deviam estar dormindo para treinar no dia seguinte ou para jogar. Então, aplauda-se o Dunga por não dar privilégios. Eu brinco dizendo que ele não deu privilégio para ninguém: tratou indiscriminadamente mal toda imprensa. Este é um lado. Por outro lado, não lhe dá o direito da grosseria, da má-educação, como ele fez com o Alex Escobar e com a Fátima Bernardes. Ela é uma figura importante do dia-a-dia do País, âncora do jornal mais visto do País, ele não tinha o direito de deixá-la ao relento em Johanesburgo numa noite gelada que acabou lhe causando uma pneumonia. Ele tinha obrigação de pelo menos fazê-la entrar, oferecer um chá e acender a lareira. Não tinha a obrigação de dar entrevista, mas tinha a obrigação de se dar conta de que o alto salário que ele ganhava na CBF era pago por aqueles patrocinadores que ele estava impedindo de aparecer no Jornal Nacional. Uma coisa é você não dar privilégio para o Jornal Nacional, outra coisa é você não ter entendimento da importância que o JN tem como meio de informação da maior parte do povo brasileiro. Ele deu um tiro no pé por falta de educação, por burrice, por arbitrariedade, afora a incompetência.

É a história agora do Bernardinho, que talvez seja o maior técnico de esportes coletivos da história, o que não lhe dá o direito de mandar o time perder o jogo como perdeu para a Bulgária, porque do ponto de vista da ética esportiva isto está errado. Você tem que ter o compromisso com quem paga o ingresso. Você não pode entrar em quadra para perder. Você entra em quadra para ganhar mesmo que isto te leve para jogar com adversário mais poderoso. “Ah, mas ele ganhou, esquece”. Esqueço não. Ganhou. Parabéns. É competentíssimo, mas manchou o título. Vou dizer a vida inteira. Daqui a dez anos vou lembrar que o Mundial da Itália em 2010 teve o jogo que o Brasil entregou para a Bulgária. Puto! Porque é assim que é. O fato de ele ter ganho não ilude que isso não aconteceu. Se o Dunga tivesse ganho, seria poupado. Aí é aquela velha coisa brasileira da não compreensão dos fins e dos meios. Outro dia fiz uma coluna sobre isso na Folha, sobre o negócio do vôlei, dizendo “o fim nobre não pode ser atingido por meios podres, e nós usamos meio podre”. No fundo há uma relação promíscua, que não precisa ter, que também é filhote do jornalismo declaratório. Você não quer conversar comigo, não preciso conversar com você. Eu sei te observar, eu sei ouvir o que está em torno, eu não vou pedir pelo amor de Deus para você conversar comigo. Não vou sacrificar minha independência para você me dar uma entrevista por nada. Não preciso. Melhor que dê, mais respeitoso que dê, e vou te respeitar ao te entrevistar, mas não vou te bajular, e não vou te levantar a bola. É assim que deve ser. Infelizmente, na nossa imprensa eletrônica esportiva, raras são as figuras que levam isto deste jeito.

Você acha que o jornalismo está caindo de qualidade?
Eu reluto em achar isso. Existe um lado saudosista que não me pega muito, embora já tenha tempo de carreira suficiente para ser saudosista. É um saudosismo que não me pega nem como torcedor de futebol. É claro que desde que vi o Pelé nunca mais vi ninguém parecido com ele. Não vi ninguém sequer parecido com o Garrincha, que para mim é o segundo depois do Pelé. Mas isso não significa que o futebol de hoje dos Ronaldinhos, do Messi, de Maradona e do Zico me divirta menos do que me divertia o futebol do Pelé. Eu acho que existiu uma imprensa com uma postura, uma qualidade, um objetivo, uma luta que retratava uma realidade que é muito diferente da realidade de hoje. Mas a quantidade que você tem de escolha hoje é maior. Perdemos por um aspecto, por exemplo, todos nós lastimamos o fim das grandes reportagens. Mas por outro lado você tem mais gente com capacidade de brilho, de fazer coisas diferentes, surpreendentes, e posso apostar que a boa e velha reportagem está em via de voltar, porque eu acho que principalmente no que diz respeito ao jornalismo impresso nós vamos começar a viver de fato a era da pós-notícia. Percebo que cada vez mais há consciência da necessidade da pós-notícia, que não faz mais sentido dizer simplesmente que o Papa morreu. No jornal do dia seguinte eu quero saber para onde vai a Igreja Católica, não que o Papa morreu. O El País já faz isso muito bem. O Diário de S.Paulo está tentando fazer isso, talvez não seja o ideal, por ser um veículo popular, e fica no meio do caminho. Quero ver alguém ter coragem de fazer uma primeira página, por exemplo, se o Corinthians for campeão no domingo, na segunda a manchete não ser “Corinthians campeão”. Quero ver. Eu faria. Eu acho que essa é a trilha que pode rejuvenescer a imprensa escrita. Pode ser que eu esteja observando de maneira equivocada, mas os jornalistas mais experientes voltam a ser olhados de maneira mais respeitosa. Porque também esta é uma lacuna, o fato de a remuneração do jornalista ter se transformado da maneira que se transformou, e os jornalistas mais renomados terem virado pessoas jurídicas e se ausentado das Redações, Eles começam a ser requisitados de volta para preencher lacunas. Alguém tem que falar certas coisas. Eu sei que é contraditório, embora tenha uma molecada com novas ferramentas, tem muito ignorante também.

Como é que você vê o merchandising na imprensa?
[Juca levanta-se da cadeira, entre surpreso, irônico e irritado] Me surpreende que alguém ainda tenha dúvidas sobre isso! Vai nos Estados Unidos pra ver se alguém ainda tem dúvida sobre isso! Na Alemanha, na Itália, o cara é expulso do Sindicato dos Jornalistas, vai para o Sindicato dos Publicitários, porque a incompatibilidade é tão óbvia que eu não entendo como é que se discute isso ainda! Se eu falo “Tome água da bica, a água que o Juca Kfouri indica”, e depois se descobre que ela é a água com maior número de coliformes fecais da indústria das águas minerais brasileiras, como é que eu faço? Eu omito porque eu passei anos te mandando tomar água da bica, e ela me deu este apartamento, cinco carros importados, e uma casa em Paris? Ou eu dou a notícia e traio o cara que me pagou durante cinco anos? Como é que eu faço? Os mercadores de merchandising e propaganda e os empresários de eventos esportivos, estes que promovem o evento, cobrem o evento, assessoram o jogador e cobram o jogador, são fartamente responsáveis pela má imagem da imprensa esportiva.

É o caso da Fórmula Indy, que não tem cobertura na maior emissora do País porque o evento pertence à concorrente…
Exatamente, é isso! Como é que você esconde um troço desse? Aí você dá razão àquela velha idéia de que o que existe aqui não é liberdade de imprensa, mas liberdade de empresa. Todas as vezes que uma empresa jornalística tratar algum acontecimento do ponto de vista dos seus interesses, ela estará fazendo um mau jornalismo.

Trabalhar em empresas menores como a CNT te deu mais liberdade?
Isto é uma faca de dois legumes, como diria Vicente Mateus, famoso ex-Presidente do Corinthians. Estas pequenas empresas, quando vão se lançar, apostam em pegar alguns nomes que dêem credibilidade. Por exemplo, a CNT pegou o Ricardo Kotscho, me pegou, e nos colocou na linha de frente para mostrar que a coisa era séria. A Rede TV! pegou o Alberico [de Souza Cruz] para montar o jornalismo, mas em regra elas não agüentam muito tempo a independência. O dono da Rede TV!, num belo dia, veio falar comigo: “Juca, só o nosso programa não tem merchandising. Todos os outros têm, a Globo, a Bandeirantes…”. Eu falei pra ele que a Globo não tem, e ele argumentou dizendo que a Globo não precisa, mas que ele precisava. Respondi: “Claro, o espaço é seu, estou indo embora, porque merchandising eu não faço.” Na CNT, passei três anos em absoluta liberdade, entrevistando quem eu queria, do jeito que eu queria. Num belo dia, o já falecido [José Carlos] Martinez, dono da emissora, diz que quer virar Presidente do PTB e que precisa da minha ajuda. Que era para eu entrevistar o então Governador de São Paulo [Luiz Antonio] Fleury. Disse pra ele que eu o entrevistaria com todo o prazer, mas que certamente, por obrigação profissional, eu seria obrigado a lhe perguntar sobre o episódio do Carandiru. Martinez me diz para eu não abordar este assunto na entrevista, que isso iria atrapalhar. Eu disse que não seria possível e ele me deu outra opção: Roberto Jefferson. Mas sem falar do Collor. Claro que não dava pra entrevistar o Roberto Jefferson e não falar do Collor. A partir desta conversa, naquele mês ele não me pagou. Mandei um fax para ele: “Martinez, somos os dois adultos o suficiente para saber quando quebra um vaso de cristal. Então é o seguinte, paga o que você me deve, e liquidamos nossa vida por aqui, rescindimos o contrato.” E assim foi feito. Imediatamente ele contratou o Ferreira Neto. Mas, durante três anos, foi ótimo.

O futebol tem tido uma cobertura muito sensacionalista da imprensa?
Acho que não. É evidente que a editoria de esportes tem que lidar com a emoção ao cobrir um evento esportivo. Mas entre lidar com a emoção e fazer sensacionalismo, que vai aí uma baita diferença. O lidar com a emoção não passa por iludir, não passa por omitir. É uma desculpa muito cômoda e confortável de boa parte da nossa imprensa esportiva dizer que o público, quando chega no esporte, quer um refresco. Que já passou pela política, pela economia, pelo crime, e não quer saber mais se o cartola é ladrão. Ele quer saber do gol, do passe, da contratação, do cara machucado. Não acredito nisso. O torcedor de futebol é um cidadão igual a outro qualquer que tem o direito de saber o que acontece nos bastidores do esporte que ele gosta. O que não impede que ele saiba do gol, do passe, da contratação. Uma coisa não exclui a outra. E essa é no fundo a angústia de muitos editores, de como equilibrar isso. Você também não pode fazer uma seção de esportes que seja só de política esportiva, de denúncia, de escândalo.

Você começou muito cedo na Placar, e a revista foi sua por 25 anos, numa faixa de idade em que o poder sobe na cabeça das pessoas. Isso refletiu em você? Você teve domínio sobre isso, trabalhar na maior editora e na maior revista esportiva do Brasil?
De fato, eu tive poder muito cedo. Felizmente, a ponto de não me deixar levar por isto, e de adorar que de 1995 pra cá eu não contrato e não descontrato ninguém. Não quero mandar em mais ninguém na minha vida. Nunca me deslumbrei com isso, e sempre tive uma noção médico/monstro desta relação, uma esquizofrenia. Não posso mandar no João Ratt, não posso mandar no Humberto Werneck, posso conviver legal com eles, discutir com eles e ter consciência de que na dúvida a opinião que vai prevalecer é a minha porque em último acaso o responsável sou eu. Até contraditório que possa parecer, por ter aprendido com Milton Coelho da Graça, que era um stalinista agradável, que é muito mais fácil você decidir uma capa de revista com as secretárias que ficam no corredor da editora, do que com jornalistas que estão dentro da Redação. Porque não são os jornalistas que vão comprar, são as secretárias. Sempre tive muito esta preocupação de ouvir.

Entrei na Abril com 20 anos. Com 21 e meio era supervisor da pesquisa de texto e com 23 era Gerente do Dedoc. Fui ser Chefe de Reportagem da Placar com 24 e Diretor com 29. As vezes em que tive que usar minha autoridade eu usei. A ponto de um repórter da Abril, o José Pinto, mandar uma carta para Roberto Civita se queixando de mim, dizendo que “ele ouve, ouve, ouve, mas chega num determinado momento ele diz que vai ser do jeito que ele quer”. O Roberto me mandou a carta de volta dizendo: “Parabéns! É assim mesmo que se comanda”. Eu ganhei um elogio do patrão autoritário. Mas houve casos em que você chega na necessidade da demissão. É absolutamente desagradável ter que fazê-la, mas aí você não pode se fazer de mártir ou de rogado. Ou você faz ou não faz. Ninguém te obriga a fazer, é você que faz. Na minha vida, eu dei um único grito na Redação, que foi com uma pessoa que eu adoro, o Roberto Maneiro, que não conseguia terminar de escrever um jogo na Redação da Placar. Eu fiz uma grosseria da qual me arrependi e pedi desculpas no dia seguinte. Tirei a lauda da máquina dele, levei para a minha, terminei a matéria e fechei a revista. Foi a única vez que fiz um gesto violento e falei alto com alguém dentro de uma Redação. Cansei de ver gente dirigindo Redação aos berros. Disso eu não gosto.

Aliás, te conto um episódio que para mim é muito marcante. Tinha dois meses de Abril, de calça jeans, sandália, camiseta branca, barbudo e cabeludo. No prédio da Marginal onde só o sexto andar, da direção da Abril, tinha ar-condicionado. E vi meu chefe, o Diretor de serviços editoriais da Abril, Rogério Karman, tomando um baita esporro do Richard Civita. Eu devo ter feito uma tal cara de susto que o Richard olhou para mim e falou: “Menino, na indústria da comunicação se não for no berro, não sai”. Eu tinha dois meses de Abril, 20 anos de idade, mas falei pra ele: “Dr. Richard, vou lhe pedir um favor. Nunca berre comigo. Se o senhor berrar comigo, eu vou berrar com o senhor. Meu pai quando me deixou na porta do Grupo Escolar, aos sete anos de idade, no meu primeiro dia de aula do primário, e me disse que ninguém encosta a mão em mim, que ninguém berra comigo. Que o pai e a mãe não fazem isso com você e ninguém pode fazer”. Meu pai me disse que uma vez jogou um tinteiro num padre carmelita do Colégio do Carmo, que foi pra cima dele bater com uma régua. Meu avô, pai dele, foi à escola e disse para o diretor: “Se alguém encostar a mão no meu filho dou um tiro. Na boca, para não estragar o couro.”

Uma coisa que ouço muito em escola de Jornalismo é que eu não faço merchandising porque eu sou o Juca Kfouri. Que eu critico o Ricardo Teixeira porque sou o Juca Kfouri. E eu respondo sempre a mesma coisa: “Sou o Juca Kfouri hoje, 40 anos depois. Quando entrei na Abril não era nem o Juca, era o José Carlos Amaral Kfouri, porque não me deixaram pôr meu apelido no expediente”. Eu não tenho para te contar nenhum caso de alguém que tenha tentado me corromper. Seria do caralho eu poder dizer que o Ricardo Teixeira quis me dar uma grana para eu ficar quieto, mas isso nunca aconteceu porque o cara sabe em quem pode chegar e em quem não pode. Isto para mim é muito claro, é uma questão de postura, de como é que você entra nos lugares. Para mim é muito simples. Da mesma maneira o exercício do poder. Que poder? Eu sou francamente a favor de um ditado espanhol que diz “Las aciones aburridas hacem periódicos aburridos.” Eu aprendi muito com uma figura chamada Hedyl Vale Júnior, que morreu de aneurisma, tomando banho. O pai do Hedyl fazia jornais libertários no Rio, e o primeiro livrinho que escrevi dediquei a ele. Hedyl era um jornalista brilhante, criativo, e um grande comandante de equipes. Sempre cantando, sempre brincando, ele fazia uma musiquinha para cada um de nós, uma musiquinha para cada situação. E nós trabalhaávamos feito malucos, virávamos madrugadas, e não tinha ninguém de mau humor, ninguém reclamando, todo mundo adorava ele. Quando era para chamar atenção, era sempre com calma, falando baixo. Aprendi muito com ele.

Uma tristeza: Pelé

“Você vai me deixar escrever um capítulo do dia em que o Edson traiu o Rei Pelé?”

Depois de tantas idas e vindas, qual é sua opinião sobre Pelé?
É de tristeza porque o Pelé, talvez, foi a última pessoa que eu me dei o direito de acreditar e que acabou me enganando. O Pelé foi fartamente responsável pela CPI, o Pelé estava numa cruzada que deixou esta cartolagem de joelhos, e na hora do golpe final na cartolagem, ele estendeu a mão por interesses comerciais. É uma coisa maluca, porque na verdade é assim. No tempo da minha militância e clandestinidade, eu brigava com meu pai dizendo que o Pelé era um alienado, e meu pai dizia que a gente devia exigir do Pelé só que ele jogasse futebol. Os anos foram passando e eu cheguei à conclusão de que o meu pai estava certo. Pelé não era para meu bico. Quando eu comecei, a primeira coisa que eu fui fazer com o Pelé foi a famosa entrevista da Playboy, onde ele diz coisas seríssimas, importantes e marcantes. Fomos processados pela entrevista, ele imediatamente me tirou do processo ao dizer ao juiz que eu tinha me limitado a transcrever as coisas que ele tinha dito. Que é uma coisa rara! Eu falei “Este cara é o cara!”. Ele tinha um carinho comigo, a gente acabou ficando próximo. Um dia, almoçando com as famílias, minha mulher, a Ledinha, disse que eu tinha mania de comprar relógio, o que é verdade. Mas comprar relógios desses de 100 dólares, não de comprar Rolex. Num belo dia, pouco antes do Natal, estava no meu escritório na Avenida 9 de Julho e chega uma entrega em nome do Pelé. Era uma caixinha com isso aqui dentro [mostra um relógio]. Está escrito: “Ao Juca, com agradecimento de seu irmão Edson Pelé”. Eu falei: “Nossa, que legal, por que será que ele me mandou isso?”. Liguei para o sócio dele, o Celso Grellet, que é muito meu amigo, e perguntei porque o Pelé tinha me mandado o relógio. Ele falou: “Ah, a Ledinha falou que você tinha mania de relógio. Você não imagina o tempo que ele levou para decidir o que ia gravar na tampinha”. Mais perto do Natal, o Pelé me liga: “Guru-Mor, tudo bem? Estou ligando para desejar Feliz Natal. Gostou do relógio? Está bem guardado?”. Respondi que sim que estava na gaveta do meu criado-mudo. E ele me responde: “Então está mal guardado, Guru-Mor. Eu tinha duas coisas guardadas no meu cofre em Santos: uma réplica da Jules Rimet e este relógio. Guru-mor só existe esse. Eu ganhei de um suíço que era torcedor”. Fiquei absolutamente espantado! Eu achei que ele tivesse mandado fazer uns 30 desses para dar para os amigos, mas é uma peça única! Era assim a nossa amizade.

Eu estava fazendo uma biografia autorizada do Rei Pelé quando se dá o abraço, o acordo dele com a cartolagem. Eu tive a oportunidade de dizer a ele, durante dez dias, para ele não fazer aquele acordo. Que ele ia me obrigar a dar porrada nele. Ele falava que eu era muito briguento. Eu falava que não era briga, que aquele pessoal o estava enganando, que ia ser uma merda. Ele falou: “Você é muito radical, se eu estiver errado, eu te peço desculpas.” Respondi: “Mas eu não quero que você me peça desculpas, eu quero que você não faça.” Ele fez e me ligou: “Você está muito puto?”. Disse que estava decepcionado. Que eu queria saber quando é que o Edson ia pedir desculpas ao Pelé. Disse que ele fez merda e que eu não ia mais fazer a biografia dele. Ele reclamou e eu perguntei: “Você vai me deixar escrever um capítulo do dia em que o Edson traiu o Rei Pelé? Claro que não. Então não me interessa mais fazer o livro.” A relação desandou. Quando a gente se encontra ele me abraça, diz pro Celso Grellet que é uma pena que eu seja tão radical, mas sei o quanto me prejudicou essa relação porque eu era um ardoroso defensor dele como Ministro. Mas depois da recuada dele, ficou indefensável.

Ele virou sua água da bica?
É isso. Ficou indefensável. Eu acho uma pena. O Zico até quando errou se corrigiu rapidamente. Não tem nada na vida do Zico que você possa dizer: “Puxa, essa é uma mancha”. Cagada todos fazemos. Mas nada que o manche. Você pode até acusá-lo de ter sido secretário do Collor, mas quanta gente boa não trabalhou no Governo Collor? E quando o Zico saiu do Governo do Collor? Quando percebeu a sacanagem, caiu fora.

No programa Na Geral, da Rádio Bandeirantes, foi dito que o problema do Pelé é que se perguntarem a ele sobre a situação sócio-político-econômica da Bósnia, ele responde…
E é isso mesmo. Mas ao mesmo tempo é uma das pessoas mais absolutamente preparadas para ser líder que já vi na minha vida. O Celso Grellet conta que o Pelé acha que avião não atrasa, e que ele, Pelé, não atrasa. Mas ele atrasa os vôos, de 40 minutos a uma hora, porque ele é o Pelé. É o Pelé quem resolve quando o avião decola, porque ele se levanta, vai pra lá e pra cá, e aí as pessoas se levantam atrás dele pedindo autógrafos. E ele não recusa autógrafo pra ninguém. Ele é a figura mais simpática do mundo! Uma das cenas mais impressionantes que eu vi na minha vida foi quando eu o estava entrevistando para a Playboy, em 1993, em Cuenca, no Equador. Era o Dia dos Pais, e o distribuidor local da Coca-Cola tinha cedido a quadra de tênis da casa dele para o Pelé jogar enquanto estava lá. Ele convidou o Pelé para passar o almoço do Dia dos Pais para fazer um agrado aos filhos dele, e ele me pediu para ir junto. Nós fomos. Havia umas 30 pessoas na sala, todas brancas, mais o Pelé. Estávamos conversando em pé, e aparece descendo a escada um garotinho coçando os olhinhos de sono. Evidentemente ele foi acordado para ver o Pelé. Ele coça os olhos, olha, vê a mãe, os tios, avós, fixa os olhos no negão e fala assim para o pai “e la pelota?” [e a bola?]. Claro que eu suponho que este menino, antes de dormir, tenha ouvido “vem aqui o jogador de futebol que foi o melhor do mundo”. Mas o fato é que estamos falando de 1993, e o Pelé tinha parado de jogar bola em 1977. Este moleque tinha uns dois anos, olhou para a cara do Pelé e associou o Pelé à bola imediatamente. É uma coisa impressionante!

Então, para responder à sua pergunta bem respondida, eu preferia ter me mantido na posição apenas de tiete dele, de não ter tido a aproximação que tivemos.

Tudo isso que você falou responde à questão “Por que não Desisto”, título do seu último livro?
Este livro é uma malandragem. Eu sempre fui e continuo a ser contra jornalista que faz livro reunindo coletânea de artigos. Eu acho uma maneira preguiçosa de fazer livro, e eu tenho um respeito reverencial aos livros. A verdade que eu fiz um assim chamado Meninos, Eu Vi, mas fiz deliberadamente. Quer dizer, quando comecei a fazer uma série de colunas para o Lance!, na última página, de memória, era mesmo para parar e transformar em livro quando chegasse na qüinquagésima edição. Fiz mesmo com esta finalidade. Agora, a história do Por que não Desisto é a seguinte: num belo dia veio um menino aqui chamado Márcio Kroenh, dizendo que estava fazendo o TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] da universidade sobre a história da Placar. Ele veio me entrevistar e ficou encantado quando viu a coleção de Placar, porque ele não conhecia ninguém que tivesse a coleção desde o número zero. Ele me perguntou se podia vir aqui às vezes consultar a coleção, eu falei que sim, mas que não contasse com minha participação e que fosse discreto, que ele poderia ver coisas aqui no escritório. Percebo que ele estava marcando exageradamente todas as edições, e num belo dia, ele acabou o trabalho, virou-se para mim e disse: “Juca, enquanto estava fazendo o trabalho da Placar, eu me dei conta de que as suas colunas na revista poderiam render um livro”. Eu disse que não, por causa dos motivos que eu acabei de te contar. Arquivou-se. Tempos depois me telefona um ex-professor meu de Cursinho Universitário, José Bantim, dono de uma pequena editora chamada Disal, e me diz: “Escuta, me ocorreu uma obviedade. Por que a gente não faz um livro-coletânea de suas colunas?” Eu recusei, pelos mesmos motivos já citados. Dois anos depois, o Bantim me liga e me convida para almoçar com ele e com ninguém menos que o Márcio Kroehn. Bom, eles já tinham o livro pronto e faltava só definir o título e a capa. Deram uma foto para a editora de arte fazer a capa, e esta editora lembrou que eu tenho um filho fotógrafo, o Daniel. Foi na página dele na internet para ver se tinha alguma coisa de futebol, e ele por acaso estava acompanhando a trajetória do Corinthians na Segunda Divisão. Resultado: a foto da capa é uma foto do Daniel, meu filho. E o prefácio é do Tostão, que é uma das figuras que mais amo na minha vida. É um presentaço. No fim, me senti acanhadíssimo, obviamente, por eu ter um livro com a foto do meu filho, prefácio do Tostão, feito por um menino que veio aqui, e é da editora do meu ex-professor. Foi mesmo um presente. Eu inclusive me recuso a receber direitos autorais deste livro.

Fale um pouco dos seus filhos.
André é hoje repórter e âncora da ESPN Brasil. É um caso muito curioso porque o André era um bom aluno, sempre fez todas as boas escolas que ele escolheu aqui em São Paulo. Um belo dia fez vestibular para Direito, para ir para o Largo São Francisco, onde o avô tinha se formado. E para estranheza geral da família, ele não passou no exame. Dias depois, ele virou-se para mim e disse: “Pai, eu não quero fazer Direito. Quero fazer Jornalismo, e eu quero ser jornalista esportivo”. Eu falei pra ele: “Filho, você vai herdar todos os meus inimigos, que não são poucos, e os meus amigos não vão te ajudar em coisa nenhuma, como eu não ajudo os filhos dos meus amigos”. Tudo bem. Entrou numa faculdade vagabunda, ofereceu-se para ser rádio-escuta da Jovem Pan de madrugada, e aí volta aquela história do Nélson Rodrigues: sem sorte não se chupa nem um picolé. Um belo dia, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil que estava em Nova York em reunião na Onu, Senhor Fernando Henrique Cardoso, é nomeado Ministro da Economia, durante a madrugada, pelo Presidente Itamar Franco. Terror na Rádio Jovem Pan: como achar o FHC em Nova York se ninguém fala inglês ali naquela hora? O André fala. Ele acha o FHC e bota o novo Ministro no ar, pelo telefone. Daí logo logo já colocaram o André no helicóptero para fazer trânsito, ele seguiu a vida e foi para ESPN. O Daniel é fotógrafo, tem um trabalho belíssimo, documental na área de sem-teto. É uma figura admirável. Neste momento [outubro de 2010] está no Chapadão do Bugre fazendo jogo de pólo aquático entre as cachoeiras. Camila trabalha com produção de cinema, trabalhou na Conspiração muito tempo, e agora está numa produtora menor com o Fernando Andrade, filho do meu amigo Mário Escobar de Andrade. E o Felipe, meu temporão de 19 anos, está fazendo Escola de Cinema e Audiovisual no Senac de Interlagos.

Existe ideologia hoje? Qual é sua ideologia?
Sempre saio pela tangente nesta pergunta. Acho mentira esta coisa de dizer que não existe mais esquerda ou direita. Quem ainda está disposto a brigar para que os excluídos sejam incluídos é de esquerda, quem acha que isto é uma utopia, que não adianta, que é impossível, é de direita. Eu acredito que dê para incluir os excluídos, piamente. Não vou abrir mão desta crença, de fazer o que eu puder. Acho que jornalista que não queira melhorar o mundo errou de profissão. Jornalista tem lado, não pode falsear a verdade. O fato de ele ter lado não significa que ele possa distorcer uma informação que contraria o seu lado. Mas ele tem lado, claramente. Procuro estar ao lado dos que estão excluídos, dos que estão mal informados e de não bajular os poderosos. Sou francamente adepto de duas frases de Millôr Fernandes: “Quem se curva diante dos poderosos mostra o traseiro aos oprimidos” e “Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados.”

Álbum de fotos

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2 comentários sobre “Juca Kfouri

  1. Excelente entrevista, contando um pouca da história de um grande jornalista. Só não ficou muito claro (para quem tem 21 anos), o que realmente aconteceu na “briga” dele com Pelé.

  2. Pingback: Juca Kfouri não desiste nunca | dois pontos:

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