Mia Couto

“A língua portuguesa é um foco de resistência”

Escritor moçambicano ganhador do Prêmio Camões ataca a globalização e diz ter causas das quais nunca abdicará, “mesmo que sejam condenadas a nunca vencerem”.

Entrevista concedida a Mário Moreira
Publicada originalmente no Jornal da ABI de Junho/Julho de 2013

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Mia Couto é um inconformado. No melhor sentido do termo. O moçambicano, que recebeu o Prêmio Camões em 2013, principal premiação literária para autores de língua portuguesa pelo conjunto da obra, mantém a verve e a inquietude que o caracterizam como um dos escritores ao mesmo tempo mais líricos e profundos, críticos e divertidos da atualidade.

Em entrevista exclusiva ao Jornal da ABI, feita por e-mail na véspera de sua viagem a Lisboa para receber o prêmio entregue no dia 10 de junho de 2013, Mia Couto falou de seu estilo literário, dos autores que o influenciaram, da situação de Moçambique – cuja economia cresceu em torno de 7,5% em 2012 –, de resistência cultural e do que a premiação pode vir a representar em sua obra.

Fiel à sua literatura, ele critica a globalização, exalta a língua portuguesa como “um foco de resistência contra a hegemonia do inglês” e diz ter muitas razões para escrever: “Como cidadão, é mais fácil eu me entender e tenho causas cívicas e morais de que não abdicarei nunca. Mesmo que sejam condenadas a nunca vencerem.”

Que Mia Couto é um autor especial seus muitos leitores já tinham percebido. A prosa marcadamente poética, a invenção e o jogo de palavras, a riqueza de situações e de personagens e a preocupação de retratar o Moçambique natal, com suas qualidades humanas e mazelas políticas e sociais, são alguns dos atributos que o consagraram.

O reconhecimento “oficial” à importância do trabalho do escritor veio agora com o Prêmio Camões, conferido pelos Governos do Brasil e Portugal, no valor de 100 mil euros. Foi o segundo moçambicano a ganhar a distinção, depois do poeta José Craveirinha, agraciado em 1992. Mas Mia já colecionara outras. Seu romance de estréia, Terra Sonâmbula, de 1992, foi considerado um dos 12 melhores livros africanos do século 20. No Brasil, seus 13 títulos editados pela Companhia das Letras já superaram a marca de 200 mil exemplares vendidos. Mia Couto, aliás, virá ao País no segundo semestre para o lançamento de Cada Homem é uma Raça, livro de contos lançado originalmente em 1990.

António Emílio Leite Couto, que completou 58 anos no dia 5 de julho passado, nasceu na Beira, segunda principal cidade de Moçambique, no litoral central do país. Chegou a estudar Medicina, mas abandonou o curso para se dedicar ao jornalismo. Hoje, além de romancista, poeta, cronista e contista, é biólogo e trabalha em sua empresa de projetos ambientais na capital moçambicana, Maputo.

A seguir a íntegra da entrevista. As respostas respeitam a grafia das palavras tal como Mia Couto as redigiu.

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Durante uma homenagem a Jorge Amado em 2008, em São Paulo, você disse que ele foi o escritor de maior influência na gênese da literatura dos países africanos de língua portuguesa. No seu caso específico, foi ele também a maior influência?
Não direi influência, mas um marco, uma referência. Jorge Amado representou para toda uma geração de escritores africanos de língua portuguesa uma espécie de luz verde na procura de caminhos próprios, caminhos demarcados do modelo europeu e português de literatura. Os brasileiros introduziram uma marca de identidade na própria língua portuguesa, a mostrar que aquele idioma já era dos brasileiros. No território comum da língua eles hasteavam a bandeira da individualidade. Isso estava nos livros de Jorge. Para além disso, as histórias de Jorge Amado traziam de volta essa África que tinha viajado para o outro lado do oceano e que permanecia, afinal, oculta de um e de outro lado do mundo. As suas personagens podiam bem ser as nossas e as cores, sabores e cenários devolviam a confiança que essas realidades nossas eram dignas de serem cantadas. Havia uma sensualidade, um sabor do tempo que sendo baianas eram muito nossas, de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, São Tomé e Guiné Bissau. Mas eu fui mais influenciado por poetas como João Cabral de Melo Neto e por Carlos Drummond de Andrade e Manoel de Barros. E ainda Hilda Hilst, Adélia Prado, Manuel Bandeira. Para não deixar de mencionar João Guimarães Rosa, que, sendo prosador, é sobretudo um poeta.

“Sou produto de uma nação nova que emergia com vontade de ser futuro.”

No Brasil você é comumente comparado a Guimarães Rosa, pela criação e reelaboração de palavras. Você até o citou em uma epígrafe no livro O Outro Pé da Sereia. Que pontos de contato identifica entre a sua literatura e a dele?
Guimarães fez outra coisa, ele viajou ao encontro de uma geografia que ele mesmo inventou, esse sertão que, mais do que real, é um produto da sua ficção. Esse sertão era um espaço de resistência contra um Brasil que se modernizava e que erguia Brasília como símbolo dessa modernidade homogeneizante. No meu caso eu sou produto de uma nação nova que emergia com vontade de ser futuro. Sou produto de povo que, na sua quase totalidade, tinha o português como segunda língua, estava em trânsito para casamentos entre línguas africanas e o português e entre a oralidade rural e a escrita.

Em relação aos neologismos, é algo que vem da infância? Você sempre gostou de criar palavras? Os vocábulos da língua portuguesa não dão conta de tudo o que há para ser dito?
Os meus pais mantiveram durante muito tempo o registro gravado de um momento em que, com cinco anos, eu contei uma história. Era uma história sem qualquer valor mas, no final, o meu pai perguntava-me o significado de palavras que pareciam inexistentes. E eu terei respondido: são palavras que ninguém sabe o que querem dizer. Não se trata de uma prova de precocidade. Eu gostaria de acreditar que, já naquela altura, eu sentia dificuldade de dizer as coisas da minha alma numa língua que parecia estar já definitivamente acabada. De qualquer modo, é isso que eu sinto: algumas das histórias que quero contar passam-se numa dimensão que apenas a linguagem poética, livremente recriada, é capaz de dar conta.

O acadêmico Alberto da Costa e Silva afirma, na apresentação da edição brasileira de Terra Sonâmbula, que o livro é um romance de cavalaria. Você o reconhece como tal?
Esse foi o único livro que me doeu escrever. No resto, sou muito feliz naquilo que faço. Mas Terra Sonâmbula foi redigido num momento em que havia ainda a guerra civil no meu país e o meu sono era roubado pela lembrança de gente morta, amigos meus barbaramente assassinados. Eu tinha a convicção que apenas escreveria um romance sobre a guerra quando já estivéssemos em paz. Mas aconteceu que fui sendo assaltado por visitações nocturnas e o romance nasceu, imposto por insónias quase delirantes. Era como se eu, para sobreviver, estivesse criando o meu espaço de paz, de reconciliação com os mortos.

Como é a criação dos seus personagens? Algum deles existe realmente?
Não, nunca existem. Mas são fundados em gente que encontro, em momentos de descoberta do Outro que não se esgotam no imediato. Eu dou nomes aos personagens de modo a afastá-los da realidade, de modo a que eles não possam ser confrontados com o teste da realidade. Quero mostrar que esses personagens são irreais, e que não se pode pedir verosimilhança a essas vozes múltiplas que contam histórias.

Num discurso em 2001, quando recebeu em Lisboa o Prêmio Mário António por seu livro O Último Vôo do Flamingo, você falou no compromisso de lutar “contra a indecência dos que enriquecem à custa de tudo e de todos (…), contra a mentira, o crime e o medo”, e que esse compromisso com a sua terra e o seu tempo guiou todos os seus romances até então. Doze anos depois, continua a ser essa a sua razão maior de escrever?
A razão de escrever é essa e são mil outras. E de repente nem sei se existe uma “razão” para eu escrever. Há qualquer coisa que me motiva mas é tão funda e vaga que não pode ser da ordem da Razão. Como cidadão, é mais fácil eu me entender e tenho causas cívicas e morais de que não abdicarei nunca. Mesmo que sejam condenadas a nunca vencerem.

No final desse mesmo livro, ante a desmedida ambição dos “desgovernantes”, os deuses decidem levar os países africanos para as profundezas, onde ficariam “em suspenso, à espera de um tempo favorável para regressar ao seu próprio chão”. Esse tempo favorável está agora perto de chegar em Moçambique? Hoje há mais motivos para ser otimista ou pessimista?
Há motivos para se ser um optimista com pouca esperança. Ou um pessimista com muita esperança. O segredo é alcançar uma boa mistura de coração e razão, de lucidez realista e de utopia irrealista. Moçambique vive um momento bom mas com nuvens cinzentas. É demasiado ousado, nos tempos de hoje, fazer previsões. Em Moçambique, em África ou em qualquer ponto do mundo. A verdade é que precisamos confessar que entendemos pouco das dinâmicas de mudança que governam e desgovernam a actualidade.

Seus livros falam muito do encontro de civilizações e da estranheza mútua provocada por crenças e hábitos muito diferentes. Em tempos de globalização, continua a ser assim em Moçambique e na África? E em que medida pode ser bom ou ruim que esse estranhamento persista?
Sim e não. Há muitos Moçambiques como há muitos Brasis. As nossas cidades já partilham muito daquilo que pode ser tido como uma cultura urbana, cosmopolita e que é próxima daquela que se vive em outras capitais do mundo. As zonas rurais estão ainda insuficientemente inseridas no mercado mundial e preservam, muitas vezes, peculiaridades e idiossincrasias de sociedades com pouco contacto com o resto do mundo. Mas deve ficar claro que isso que chamamos de “mundialização” é a expansão de uma pequena e seleccionada parte do mundo. É a exportação do imaginário de alguém que se apresenta, com arrogância, como sendo a “comunidade internacional”. Aquilo que se está homogeneizando no mundo não é o mundo: são os interesses dos poderosos, os que mandam no mercado. Qualquer resistência contra essa hegemonia parece-me saudável, no sentido de salvaguardar uma diversidade que está em risco. A própria língua portuguesa, a nossa, é, nesse sentido, um foco de resistência contra a hegemonia do inglês. A tentação maior é sermos todos parecidos, de uma mesma e inexistente cidadania que não tem território algum.

“Um escritor é um escutador. Ele escuta o que lhe chega como vozes e como silêncios. Ele escuta as histórias onde parece não haver narrativa, histórias que estão para além dos relatos, das queixas e confissões.”

Lendo seus livros, a impressão que dá muitas vezes é a de que poderiam ser ambientados não só em outro país africano como no Brasil ou em qualquer nação latino-americana, seja pela temática, pela linguagem e diversidade dos personagens ou pelo absurdo de certas situações. Reside aí a universalidade da sua obra?
Eu escuto histórias da gente comum do campo e da cidade em Moçambique. Acredito que um escritor é um escutador. Ele escuta o que lhe chega como vozes e como silêncios. Ele escuta as histórias onde parece não haver narrativa, histórias que estão para além dos relatos, das queixas e confissões. E vai-se apercebendo nesse exercício que, para além das diferenças culturalmente construídas, somos todos muito parecidos uns com os outros. Eu acho que a procura da universalidade se alcança assim: indo mais fundo, tendo mais tempo para estarmos com os outros numa relação de plena troca e plena disponibilidade.

O que pode falar de seu livro Cada Homem é uma Raça, que será lançado este ano no Brasil?
Foi o meu segundo livro de contos numa altura em que a inovação lingüística e o investimento na palavra era uma preocupação central no meu trabalho. Eu tinha publicado o primeiro livro de contos, chamado Vozes Anoitecidas, em 1984. Esse livro de estréia estava marcado pela leitura do angolano Luandino Vieira. Luandino trabalhava muito na influência das línguas africanas sobre o português falado em Luanda. Os seus livros possuem uma inventividade vocabular que me influenciou muito. E li depois declarações suas dizendo que ele mesmo tinha sido marcado pelo brasileiro João Guimarães Rosa. E saí eu à procura de livros do mineiro que era médico e escritor. Nessa altura a guerra civil tinha feito cerco a Moçambique e era quase impossível o contacto com o exterior. Mas mesmo assim recebi por via de amigos algumas fotocópias de contos de Rosa. E isso marcou muito a escrita de Cada Homem é uma Raça. Foi possivelmente o livro onde levei mais longe o jogo de invenção lingüística.

Como ganhador do Prêmio Camões, você agora figura numa espécie de panteão dos escritores de língua portuguesa, ao lado de nomes como José Saramago, João Cabral de Melo Neto e Jorge Amado. Como se sente? Algo muda na sua obra a partir de agora? O prêmio pode ajudar numa repercussão ainda maior de seus livros?
Não creio que exista panteão. Eu pelo menos fugirei de lá se me quiserem lá desenhar. Não por causa da companhia, mas por causa de não me representar nunca desse modo mistificado. Nenhum prémio torna uma escrita melhor. Ou alteram a pessoa. Se isso acontecer o premiado não merece o prémio. Ou não merece ser escritor. Eu escrevo para deixar de ser. E raramente me vejo sequer como escritor.

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